Ainda considerada uma droga nova, o
bromazolam oferece perigo. Tanto que, em julho do ano passado, contribuiu para a
morte de um DJ em um motel na Serra. Após o caso, a perícia descobriu que a substância está começando a circular pelo país e, desde dezembro de 2022, passou a compor a lista de proibidos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (
Anvisa).
Justamente por ser uma novidade, a substância não passou por muitos estudos, então os especialistas ainda não sabem exatamente os efeitos dela. Inicialmente, é possível afirmar que o bromazolam é da mesma classe de medicamentos como Rivotril e Clonazepam, depressores do sistema nervoso central. Os efeitos são de sedação, sonolência, diminuição visual e relaxamento muscular. Mas também pode levar à parada cardiorrespiratória.
"Ela tem um efeito sedativo. O alerta que a gente faz para a população é que essa substância não é conhecida, a gente não tem estudos sobre ela. Não sabemos dizer, por exemplo, qual a dose letal, os efeitos de forma completa, possíveis interações com outros medicamentos, bebidas alcoólicas ou até mesmo outros entorpecentes. Por isso, ela pode representar risco fatal para as pessoas que utilizarem", afirmou o perito Victor da Rocha Fonseca, do Laboratório de Química Forense.
Entenda como tudo começou
O homem de 37 anos que morreu no motel da
Serra não tinha sinais de violência no corpo, e no local do óbito havia indícios do uso de substâncias ilícitas. A partir disso, levantou-se a hipótese de uma intoxicação. O corpo foi encaminhado ao Departamento Médico Legal (
DML), onde a médica legista Ana Paula Knak fez a necropsia do cadáver, coletando sangue, urina e conteúdo estomacal para enviar ao laboratório.
"Identificamos a substância na amostra que foi encaminhada pela medicina legal, e para nós, foi uma novidade, porque era uma substância que até então nunca tínhamos identificado no laboratório de toxicologia", pontuou a perita Daniela de Paula, chefe do Departamento de Laboratórios Forenses.
Como não havia relatos dessa substância por aqui, os peritos do Espírito Santo começaram a pedir ajuda das polícias de outros Estados, tanto Civil quanto Federal, mas ninguém tinha apreendido algo do tipo.
A partir daí, eles buscaram parcerias de universidades para confirmar o que era a substância encontrada. "Para que a gente pudesse definir este caso, foi importante a participação do professor José Luiz da Costa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pois lá ele tinha o padrão dessa substância, que é importante para que a gente possa fazer a comparação. Utilizando isso, foi possível concluir e definir quanto tinha no organismo daquele indivíduo", detalhou Daniela.
Após a descoberta
No organismo do homem morto, conforme os exames, havia álcool, sertralina, viagra, cocaína e bromazolam. Sabendo disso, a perícia concluiu que a substância estava relacionada e contribuiu para esse óbito, se tornando o primeiro caso registrado aqui no Brasil.
"O que a gente sabe é que não é uma substância de uso terapêutico para tratar doença nem nada do tipo. Não é comercializada no mundo. E geralmente ela não é encontrada nas vítimas de forma isolada, com o uso sozinho, e também foi o caso dessa vítima da Serra: não tinha só isso na corrente sanguínea dele, então não dá para afirmar que foi somente o bromazolan que causou esse óbito, mas ele contribuiu"
Ana Paula Knak - Médica legista
Rol das substâncias proibidas
Com a descoberta da morte e outras apreensões que aconteceram logo em seguida, a perícia do Espírito Santo comunicou o perigo para a Anvisa, responsável por realizar a listagem das substâncias proibidas e que têm um controle especial no nosso país.
O comunicado foi feito em novembro, e, em dezembro, o bromazolam entrou para a lista, segundo a perita Daniela. "Até aquele momento (antes de estar na lista), o bromazolam, se fosse pego com um traficante, não seria considerado tráfico. Acho que foi essa a contribuição que o Espírito Santo deu, porque permite que, agora, as apreensões já sejam caracterizadas como tráfico de drogas", afirmou.
Detalhes das outras apreensões
Dois dias depois da morte do homem no motel, 3.596 selos contendo um pó foram encontrados com um suspeito em
Guarapari. Ele estava com outras drogas, por isso acabou preso. Os selos foram encaminhados para a perícia no dia 20 de julho e aí, juntamente com pesquisadores da Unicamp e da Universidade Federal do Espírito Santo (
Ufes), descobriram que se tratava do bromazolam.
E não parou por aí: em outubro teve mais apreensão, mas de pouca quantidade, na
Praia da Costa, em
Vila Velha. Em fevereiro deste ano, outra pequena quantidade foi achada com um suspeito em Guarapari.
Como a droga é usada
O perito Victor da Rocha Fonseca, do Laboratório de Química Forense, explicou como é que as pessoas vêm usando a nova droga aqui no Brasil. Ele comentou que, no exterior, as pessoas comercializam no formato de pó ou comprimido. Nas amostras encontradas no Espírito Santo, elas vieram de forma diferente, em selos.
"São selos em papel. Desses selos, são extraídos pequenos selos e a pessoa faz a ingestão sublingual. Eles colocam esse papel em contato com a mucosa, embaixo da língua, vai ter a absorção da substância que vai ser direcionada à corrente sanguínea", relatou o perito.
Alerta nos Estados Unidos
Em junho do ano passado, o Center for Forensic Science Research & Education (CFSRE) dos Estados Unidos emitiu um alerta direcionado para a saúde pública, laboratórios e médicos, relatando que no ano de 2022 casos envolvendo esta substância aumentaram de forma expressiva: de 2019 a junho de 2022, foram 236 óbitos com o envolvimento do bromazolam.
O que diz a Anvisa | Nota na íntegra
"Não existe medicamentos registrado no Brasil com a substância Bromazolam. Isso significa que o produto não está autorizado para uso no país.
O Bromazolam é uma substância de controle especial. A substância foi incluída na lista de B1 (Lista de Substâncias Psicotrópicas) em 1/12/2022. As substâncias controladas pela Portaria SVS/MS 344/1998 também se enquadram no conceito de drogas, estabelecido pela Lei nº 11.343/2006.
O processo de atualização da lista de substâncias controladas é um processo contínuo da Anvisa, que tem a responsabilidade de atualizar as listas de produtos sujeito à controle especial e regulamentar a cadeia legal de medicamentos.
O combate a produtos clandestinos ou drogas ilícitas cabe aos órgãos policiais."