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Ponto a ponto: o que pode ajudar ou atrapalhar a economia crescer em 2021

Com expectativa de chegada da vacina contra a Covid-19, especialistas avaliam potencialidades e desafios e apontam o que esperar da economia do país e do Estado no novo ano

Vitória
Publicado em 07/01/2021 às 20h02
Atualizado em 08/01/2021 às 07h17
Pandemia do coronavírus está desequilibrando as contas públicas
Pandemia do coronavírus desequilibrou as contas públicas. Crédito: Fernando Zhiminaicela/Pixabay

O ano de 2020 foi de fortes emoções no cenário econômico. Após um começo promissor, a pandemia do novo coronavírus levou o mundo – incluindo o Brasil e, claro, o Espírito Santo – à uma das piores recessões já enfrentadas. Neste cenário, é mais que natural que a retomada esteja ligada à vacina contra a Covid-19.

O imunizante é a aposta para salvar vidas e acabar com o cenário de incertezas, além de abrir espaço para que os governos reduzam as medidas de socorro financeiro às empresas e à população em geral, o que pode frear os gastos públicos, que, neste ano, alcançaram patamares estratosféricos.

O ano que se inicia é de desafios, mas também traz esperança de crescimento, principalmente para o Estado, que possui uma série de investimentos previstos para saírem do papel. Veja o que especialistas apontam pode ajudar ou atrapalhar a economia em 2021.

DESEMPREGO E FIM DO AUXÍLIO EMERGENCIAL

Em fase de reaquecimento, a atividade econômica vem, nos últimos meses, ajudando a criar postos de trabalho. Em novembro, o saldo de empregos formais no Estado, isto é, a diferença entre o número de contratações e demissões com carteira assinada, ficou positivo com a criação de 8.511 novos empregos desde janeiro, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia. Movimento semelhante ocorre a nível nacional. 

O resultado é promissor, mas não altera, sozinho, a realidade de que o Brasil tem, hoje, 14,1 milhões de pessoas desempregadas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Estado, são 286 mil trabalhadores nessa situação.

A tendência é que haja ainda um crescimento nos meses seguintes, uma vez que mais pessoas devem começar a buscar emprego com o fim do auxílio emergencial. Não que a pandemia já tenha se abrandado, mas por falta de alternativas.

O benefício pago pelo governo federal a desempregados, profissionais informais, microempreendedores individuais (MEIs), entre outros grupos fragilizados pela crise, teve a última parcela creditada na conta dos beneficiários em 29 de dezembro de 202, e, até o momento, não há previsão de renovação, ou da criação de um novo programa social com moldes parecidos. Segundo o Ministério da Cidadania, em 2021, só serão efetuados pagamentos resultantes de contestações administrativas e extrajudiciais e de decisões judiciais.

A partir de janeiro, 585 mil famílias capixabas ficarão sem o benefício, muito embora a pandemia continue a avançar.

“O auxílio foi um alento para a população. Muitos trabalhadores perderam o emprego, ficaram sem renda alguma ou viram sua renda cair substancialmente. E com o fim do auxílio, a tendência – se não for feito nada, se a economia não reaquecer – é que haja um impacto extremamente negativo na renda, afetando diretamente o consumo”, observou o economista Ricardo Paixão.

Ricardo Paixão

Economista

"O fim do auxílio tende a ter um impacto na economia, que, historicamente, costuma ter seu crescimento puxado pelo consumo das famílias. Se o consumo fica estagnado, a economia sofre. Se diminui, a economia sofre ainda mais"

INFLAÇÃO E TAXA DE JUROS

Outro fator que deve pesar sobre o consumo das famílias é a inflação, que tende a acumular alguma alta ainda nos primeiros meses de 2021.

Enquanto a mediana do mercado aponta que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve fechar 2020 em alta de 4,38%, e desacelerar para 3,32% ao final de 2021, segundo o boletim Focus do Banco Central, divulgado nesta segunda-feira (4), a taxa acumulada em 12 meses deve ficar acima dos 5% durante boa parte do próximo ano, perdendo força somente nos últimos meses.

Com isso, a Selic, taxa básica de juros, que está atualmente em 2%, pode sofrer uma elevação, embora analistas de mercado considerem que ela não deve ultrapassar os 3% até dezembro que vem.

“A taxa de juros não deve subiu muito porque as empresas se endividaram muito na pandemia e seriam penalizadas, correndo risco de se endividarem ainda mais, causando prejuízos para o próprio governo, que teria um aumento da dívida pública”, avaliou o sócio da Golden Investimentos, Diego Cordeiro.

CONTAS PÚBLICAS

A dívida pública, aliás, é outro grande desafio para 2021. O cenário, que já era preocupante antes mesmo do surgimento da Covid-19, ganhou mais peso com a pandemia e as medidas de enfrentamento à crise, como liberação de crédito, auxílio emergencial e o pagamento do Benefício Emergencial (BEm).

Segundo projeções da Secretaria do Tesouro Nacional, em um cenário ligeiramente otimista, a dívida bruta do governo deve alcançar, neste ano, cerca de 94,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Os dados foram apresentados pelo secretário da pasta, Bruno Funchal, durante palestra no evento Vitória Summit, promovido pela Rede Gazeta em dezembro.

Contudo, em 23 de dezembro, o governo federal reduziu a previsão de dívida pública do país para 91% do PIB em 2020, em função da revisão, pelo IBGE,  do PIB de anos anteriores, o que acaba afetando os cálculos da dívida bruta.  Porém, isso não muda o fato de que  o endividamento do ano deve alcançar patamar recorde.

“Essa relação entre dívida e PIB é o desafio mais severo que enfrentamos, pois temos uma aceleração muito grande do endividamento público no Brasil. Nesse ano tivemos um déficit gigantesco impulsionado pela crise. E é uma questão complicada porque coloca em risco a capacidade de investir do governo", avaliou o economista especialista em finanças públicas Wallace Millis.

Wallace Millis

Economista especialista em finanças públicas

"A expectativa para os próximos anos é de piora, não de melhora da dívida pública. E isso gera incerteza sobre como o governo vai conseguir se financiar no futuro. Como vai fazer isso? Emitindo títulos? Havia um plano de desestatização, que poderia gerar receita, mas nem com isso o governo foi para a frente"

Conforme avaliou a economista e professora da Fucape Arilda Teixeira o país precisa resgatar sua credibilidade no mercado. Para isso, é preciso que os investidores – tantos os domésticos, quanto os externos – acreditem que há uma estratégia de política econômica sustentável.

“No momento, o Brasil está desacreditado. Nosso chefe de Estado é o pior garoto propaganda que poderíamos conseguir nesse momento. A retomada dessa credibilidade depende, em grande parte, do ministro Paulo Guedes e da equipe econômica conseguirem contornar todo o revés que vem do Planalto. Se conseguirem isso, temos chance”, afirmou Arilda.

A necessidade de controlar gastos, conforme observou o economista Ricardo Paixão, vale também para as prefeituras, que estão vendo boa parte de seus recursos irem embora com o custeio da máquina pública.

“O governo do Estado, particularmente, está em uma situação mais confortável: as contas estão organizadas, temos o selo máximo de pagamento do Tesouro. É um ponto positivo a nosso favor, principalmente em um momento de crise.”

REFORMAS ECONÔMICAS

Uma das apostas para o reequilíbrio do país, no longo prazo, é a aprovação de uma série de reformas, que pouco andaram em 2020.

Entre elas, a reforma administrativa (que visa reduzir gastos com novos servidores); a reforma tributária; a PEC Emergencial, com o acionamento de gatilhos de contenção de despesas para preservar o teto de gastos; e a PEC do Pacto Federativo (que reorganizaria a arrecadação e os campos de atuação de União, Estados e municípios).

A expectativa é de que as propostas voltem à pauta do Congresso após a eleição dos novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, prevista para 1º de fevereiro.

“Pode haver alguma dificuldade de avançar com as reformas, dependendo da relação do governo com os vencedores. Isso só deve ficar mais claro ao longo dos meses. Pode ser necessária alguma negociação, mas, se tivermos sorte, algo pode ser aprovado até o final de 2021”, avaliou o economista especialista em contas públicas, Fábio Giambiagi.

Ele reforça porém que embora ajudem na retomada da confiança dos investidores, as reformas, ainda que aprovadas, não serão responsáveis por mover a economia brasileira em 2021, uma vez que seus efeitos são de médio e longo prazo. Contudo, elas servem desde já para dar confiança aos investidores e para que seja possível projetar um cenário de controle fiscal.

ENFRENTAMENTO À PANDEMIA

Para que todo o resto avance, é preciso progredir no enfrentamento ao novo coronavírus. As taxas de transmissão da doença têm subido nas últimas semanas, com aumento do número de pessoas infectadas e de óbitos.

A crise sanitária segue grave. Mas há certo otimismo em relação à vacina, que promete aliviar os efeitos da pandemia ao longo de 2021.

Segundo o economista Fabio Giambiagi, o próximo ano tende a ser estatisticamente atípico, registrando crescimento elevado do PIB brasileiro, como não se via em anos. Ele observa, porém, que isso deve ocorrer, simplesmente pelo fato de que o indicador sairá de uma base muito baixa.

Fábio Giambiagi
Fábio Giambiagi: "Independente das críticas que possam ser feitas, negar a recuperação é negar os fatos". Crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado

“A gente tem melhorado. Independente das críticas que possam ser feitas, negar a recuperação é negar os fatos. A gente fechou o ano com resultados um pouco abaixo do patamar pré-crise, mas melhores do que se imaginava. Daqui para a frente é difícil ter um crescimento mais forte sem a vacinação.”

As previsões, até então, são de que os grupos prioritários comecem a ser vacinados ainda no primeiro trimestre de 2021.

“Essa demora para se chegar a um consenso sobre a vacina é problemática e tem nos prejudicado. Mas temos uma vantagem em relação aos demais países que é o fato de que podemos vacinar rápido. Temos essa experiência de outras campanhas de imunização. A vacina contra a Covid-19 chegando aqui, temos condições de vacinar a população em pouco tempo”, avaliou o economista Marcelo Loyola Fraga.

Ele observa que, mesmo em meio às indecisões sobre a vacina no governo federal, o Espírito Santo, particularmente, já está saindo na frente rumo à recuperação, com uma série de investimentos previstos, de empresas de todos portes. O próximo ano, na visão Fraga, promete muito.

INVESTIMENTOS

Diversas empresas anunciaram novos negócios ou expansão de suas atividades no Espírito Santo a partir de janeiro, com possibilidade de criação de quase 10 mil postos de trabalho.

O governo do Espírito Santo também anunciou recentemente um pacotão de investimentos que somam mais de R$ 32 bilhões e que devem gerar cerca de 100 mil vagas em obras previstas para iniciar até 2022. Há uma boa perspectiva de criação de empregos já a partir deste ano.

Parte desses projetos são planejados pelo segmento industrial, conforme lembrou a presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Cris Samorini.

Christine Samorini, presidente da Findes
Cris Samorini: "Temos um ambiente de negócios saudável, e grandes empresas estão investindo em diversas áreas”. Crédito: Findes/divulgação

“De R$ 32 bilhões de investimentos previstos, R$ 6 bilhões são só nas indústrias. Já tivemos a primeira reunião sobre esse plano de retomada, e a próxima está prevista para janeiro. Mas não são só investimentos, tem também o Fundo Soberano (poupança intergeracional criada pelo governo do Estado) e o programa Gerar (de energias renováveis), por exemplo.”

A presidente da Findes destaca ainda projetos previstos na área de infraestrutura, como a desestatização da Codesa, novos portos, e expansão da malha ferroviária. Ela observa que a Federação tem estabelecido um diálogo constante com empresários, governos federal e estadual a fim de ajudar no avanço dessas pautas, consideradas essenciais.

A industrial apontou ainda que, de forma mais imediata, o Espírito Santo vai se beneficiar da volta da Samarco, que deve injetar em torno de R$ 80 milhões nos cofres do Estado por ano nesta primeira fase da retomada.

A empresa, que esteve parada por cinco anos, religou a usina 4 em Ubu, Anchieta, no dia 23 de dezembro, reiniciando a produção de pelotas de minério de ferro no Estado. A previsão é de que companhia produza de 7 a 8 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, o que representa 26% de sua capacidade total. A retomada total deve levar 10 anos.

“A indústria de transformação ainda precisa de um desempenho melhor. Mas, no geral, temos boas perspectivas. E que bom que o Espírito Santo é um estado industrializado. A gente consegue prever crescimento. Não dependemos somente de rochas ornamentais, minério. Temos um ambiente de negócios saudável, e grandes empresas investindo em diversas áreas.”

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