Com o novo modelo de mercado, as empresas vão exigir profissionais cada vez mais intraempreendedores, ou seja, que pensem como se fossem os donos, uma habilidade que pode ser aprendida ainda na infância.
A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, seccional Espírito Santo (ABRH-ES), Kátia Vasconcelos, explica que esse novo perfil significa que a pessoa precisa vislumbrar alternativas para os negócios, ter senso de ser o dono, buscar novas possibilidades de atuação, entre outras atitudes.
“Um profissional intraempreendedor é aquele que tem sua carreira como protagonismo, não importa se ele vai atuar em alguma empresa ou investir no próprio negócio. Para que essa atitude seja desenvolvida desde cedo, os pais e a escola precisam desde já estimular crianças e jovens a contribuírem com ideias, a se responsabilizarem por suas próprias ações e a dar oportunidades para que eles possam expressar suas opiniões. Isso pode ser desenvolvido com uma comunicação aberta, transparente e com respeito às diferenças”, sustenta.
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Sobre as profissões do futuro, Kátia Vasconcelos ainda lembra que o assunto tomou conta da última edição do Fórum Econômico Mundial. Dentre os destaques, ficou a comprovação de que 85% das profissões a partir de 2030 ainda nem foram criadas.
"Ninguém levava esse assunto a sério, ou seja, crianças e adolescentes continuam sendo educados com os mesmos modelos atuais e poderão não estar preparados para esse futuro. Dificilmente, o mercado permanecerá como esse que conhecemos. Para esses profissionais que ainda vão entrar no mercado, a regra deverá ser: desenvolvam habilidades como capacidade de adaptação e novos aprendizados"
PROFISSIONAL DEVE ENXERGAR O QUE ESTÁ EM ALTA
A pandemia trouxe impactos negativos em alguns setores e o fortalecimento de outros. Segundo o professor da Fucape e doutor em Administração, Bruno Felix, setores como o de aviação e turismo, que eram promissores, agora enfrentam muitas dificuldades. Por outro lado, cresceu quem apostou em delivery e entretenimento via streaming. Isso demonstra, de acordo com o professor, que os trabalhadores precisam observar onde estarão as oportunidades.
“É importante observar quais atividades tiveram crescimento ou esfriamento. Muitas profissões vão continuar e outras não. Isso faz parte do mercado de trabalho e significa dizer que o profissional vai precisar entender em que áreas ele pode atuar. O ideal não é saber que profissão seguir, mas sim qual ramo de atuação será demandado, para buscar oportunidades futuras”, comenta.
Para o economista Sebastião Demuner, algumas ferramentas usadas durante a crise, como o trabalho em home office, devem permanecer tanto pelos trabalhadores que já estão no mercado quanto por aqueles que ainda nem começaram a trabalhar. É importante salientar que, apesar do uso da tecnologia ajudar a vida dos profissionais, algumas atividades ainda vão precisar de pessoas que façam o trabalho de forma presencial, como é o caso de um técnico de transmissão de energia.
Na avaliação da especialista em carreira Roberta Kato, crianças e adolescentes já nasceram em um mundo digitalizado, com aulas e tarefas on-line, e para eles será mais fácil a adaptação.
“Pessoas de 40 a 50 anos serão mais impactadas por esse modelo de mercado. Já aquelas que têm entre 25 e 30 anos terão que desenvolver habilidades que ainda não tinham, como a agilidade para aprender”, resume.
Roberta já conversa com a filha de 12 anos sobre o que ela precisa desenvolver para ser uma boa profissional do futuro. “Há um grande abismo social em nosso país e por isso sei que as oportunidades não serão as mesmas para todos os estudantes. Na escola em que ela estuda, há aula de inteligência emocional, mas nem todas as crianças têm acesso a isso. Além disso, trabalho com ela a autodisciplina, a resiliência e converso sobre a importância de se adaptar ao que o mercado quer e o que ele valoriza”, acrescenta.
Para o diretor executivo da UVV, Jefferson Cabral, a crise atual propôs mudanças que foram necessárias diante da velocidade em que tudo aconteceu. Tudo tomou uma dimensão em que não estávamos preparados. O mesmo se aplica para competências e habilidades para esse novo mundo.
"Crianças e adolescentes já vão entender a necessidade da agilidade, do network, do novo modelo de trabalho, que será o home office. Eles não vão valorizar esse modelo antigo do qual estamos acostumados. O emprego não vai existir no formato que temos hoje. Será importante perceber a necessidade de conexão entre o conhecimento, as habilidades e as competências para entender problemas e apresentar soluções. Quem tiver esse olhar vai sobreviver"
Ele salienta que a nova forma de se trabalhar, por meio de home office e com a utilização cada vez mais forte da tecnologia, por exemplo, reconfigurou o modelo de desempenho das atividades profissionais e pessoais. “Os formatos mudaram, mas não se alterou a produtividade. Não espere as condições do mundo para aprender coisas novas e para desenvolver o senso crítico”, finaliza.