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Empresários assumem protagonismo para combater a Covid no ES e no Brasil

Iniciativas próprias, bem como ações que buscam influenciar as políticas públicas, vêm se espalhando cada vez mais pelo país e pelo Estado diante de ausência de uma coordenação nacional para enfrentamento da pandemia

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 26/03/2021 às 02h00
 GERAL - BRASILIA, COVID-19, VACINAÇÃO DRIVE-THRU CORONAVAC -Profissional de saúde nesta quinta-feira, 18 de março, prepara uma dose da vacina CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan, antes de aplicar em idoso em um drive-thru. 18/03/2021
Empresas têm negociado compra de vacinas, insumos e pressionado governo federal por organização. Crédito: Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo

Diante do agravamento da pandemia no país, empresários têm investido tempo e recursos para ajudar a tentar conter o colapso sanitário e, ao mesmo tempo, os prejuízos na economia. São várias iniciativas no país e no Espírito Santo, que incluem desde a negociação para aquisição de vacinas contra a Covid-19 e outros insumos, como esforços para motivar a tomada de decisões pelo poder público.

O protagonismo indireto, assumido em meio ao caos do sistema de saúde no país, visa, além de poupar vidas, ajudar a impedir que a atividade econômica seja ainda mais penalizada com a manutenção das restrições.

Na visão dos executivos, o cenário atual é crítico. Há uma combinação indesejada de estagnação da economia e aumento da inflação - a chamada estagflação - que resulta em fechamento de negócios e empobrecimento da população.

O economista Cláudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria, destacou que há um senso de urgência em relação ao problema e que a sociedade está chegando ao limite com as ingerências do governo federal em relação à doença.

“Tem sido um fenômeno muito mal lidado pelo governo federal. Evidentemente é uma situação difícil, mas juntamos um problema difícil com inoperância, erros políticos, uma postura negacionista, campanha contra o que precisa ser feito e adoção de soluções miraculosas, como o tratamento precoce, sem eficácia comprovada. Isso tudo é uma combinação muito ruim, que custa vidas e afunda a nossa economia.”

Cláudio Frischtak

Economista e presidente da Inter B Consultoria

"A ação das empresas, dos governos locais para enfrentar a pandemia são benéficas, mas por que isso é necessário? Hoje, somos um ponto fora da curva com essas atitudes negacionistas do governo federal. O Brasil está em situação de isolamento, se tornou um párea. E isso tudo para quê? Fazer a coisa certa teria sido mais custo-eficiente que fazer a coisa errada "

Ele reforça que a pandemia agravou muito rapidamente a situação fiscal do país, que já era temerária, e que os efeitos das ações adotadas até o momento vão perdurar por mais algum tempo, independente do que se faça de agora em diante. Entretanto, frisa que não agir trará problemas ainda maiores.

A previsão é de que a atividade econômica tenha desempenho negativo em todo o primeiro semestre. E embora, dependendo do ritmo que a vacinação alcançar daqui para frente, possa haver uma melhora na segunda metade do ano, ainda assim, qualquer impressão de crescimento é ilusória.

"Nesse ano, teremos um 'carrego estatístico'. Como o PIB (Produto Interno Bruto) caiu muito no ano passado, mesmo sem crescer realmente vamos ter uma variação positiva se tivermos um resultado um pouquinho melhor. Mas a tendência para a economia, neste ano, é de estagnação. E os efeitos dessa crise não vão sumir em dezembro."

Frischtak foi um dos redatores de uma carta aberta endereçada aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário - e que já conta com cerca de 2 mil assinaturas - pedindo mais agilidade no enfrentamento à pandemia.

Em um texto com vários dados sobre a pandemia, economistas, empresários, banqueiros e lideranças do cenário econômico brasileiro chamam a atenção para o atual momento crítico da Covid-19 e de seus riscos para o país, e também detalham medidas que podem contribuir para aliviar o que consideram um grave cenário.

  • Entre as medidas citadas como indispensáveis para o combate à pandemia, estão: 
  • a aceleração do ritmo de vacinação;
  • o incentivo do uso de máscaras "tanto com distribuição gratuita quanto com orientação educativa";
  • a implementação de medidas de distanciamento social; 
  • a criação de um mecanismo de coordenação do combate à pandemia em âmbito nacional.

Iniciativas próprias, paralelas à ação do governo, também vêm se espalhando cada vez mais pelo país e pelo Estado. Um exemplo é o movimento "Unidos pela Vacina", idealizado pela empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza.

A iniciativa apartidária, que tem ganhado apoio de várias lideranças empresariais, visa a imunizar todos os brasileiros contra a Covid-19 até setembro deste ano em uma ação conjunta de empresas e entidades para apoiar o Sistema Único de Saúde (SUS).

No Espírito Santo, são embaixadores do projeto a Rede Gazeta, o movimento ES em Ação, o Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor (Sincades), o Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística (Transcares) e as Federações das Indústrias (Findes) e do Comércio de Bens e Serviços (Fecomércio-ES).

Esses parceiros pretendem colaborar na imunização dos capixabas através de apoio na logística e divulgação da vacinação, além de fazer a ponte entre secretarias de saúde e empresas para ajudar no suprimento de demandas como fornecimento de insumos, bens e serviços para a campanha de vacinação contra a Covid-19.

As indústrias capixabas, representadas pela Findes, por exemplo, estão negociando a aquisição de até 5 milhões de vacinas de dose única contra o novo coronavírus. A tentativa está sendo feita em parceria com federações do setor de outras regiões do país, conforme explicou a presidente da Findes, Cris Samorini.

Uma lei sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro e regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no último dia 10 autorizou que Estados, municípios e empresas comprem vacinas com registro ou autorização de uso emergencial no Brasil. As doses deverão ser doadas ao SUS para imunização dos grupos prioritários, como idosos e profissionais de saúde, e, posteriormente, poderão ser vacinados os funcionários das empresas e outros cidadãos.

Cris Samorini

Presidente da Findes

"A sociedade está tendo que se mobilizar para tocar para frente essa questão das vacinas. Já é passada a hora de uma coordenação nacional. Cada um está correndo para um lado na gestão da pandemia, e quando isso acontece, diversos esforços se perdem. Não podemos continuar dessa forma"

Ela reforça que, além da negociação de vacinas, outras ações estão em curso. O movimento Indústria do Bem, que, no ano passado, ajudou com a aquisição de faceshields e outros equipamentos de proteção individual (EPIs), agora busca, por exemplo, a aquisição de oxímetros.

“Além disso, conseguimos autorização para trazer cinco capacetes de respiração assistida desenvolvidos pelo Senai do Ceará, que permitem dar a primeira assistência nas UPAs ou mesmo nos leitos. Vamos trazer para que a Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) faça o teste e, se achar que é válido, vamos tentar trazer maior quantidade.”

Paralelamente, estão sendo desenvolvidas outras ações especificamente voltadas às indústrias, como a revisão de protocolos sanitários e de segurança e orientações quanto à sua correta aplicação, e a produção de um informe semanal, que traz dados relevantes da Covid-19 no país e no Estado, como os que mostram a ocupação de leitos e a evolução da vacinação, para ajudar no monitoramento e no planejamento da pandemia.

Bastante afetados pelas novas restrições, os segmentos de comércio e serviços têm pressionado o governo federal pelo avanço na imunização e vêm pedindo prioridade na vacinação de trabalhadores a fim de poupar vidas e negócios.

O presidente da Fecomércio-ES, José Lino Sepulcri, explica que a Confederação Nacional do Comércio (CNC), em conjunto com as federações regionais, enviou uma carta ao presidente Jair Bolsonaro reivindicando as vacinas e afirmando que empresários têm, inclusive, se oferecido para ajudar na compra das doses.

“Vale lembrar que, desde o início da pandemia, o comércio de um modo geral tem feito sua parte, ajudando como pode a impedir as contaminações. Mas, infelizmente, não estamos tendo acesso à compra das vacinas para dar nossa parcela de contribuição. O problema não é dinheiro, e sim a falta de doses no mercado.”

A ajuda do setor empresarial no enfrentamento à pandemia tem sido recorrente. No ano passado, grandes empresas como Suzano, Vale e Petrobras, e até mesmo fabricantes de cosméticos no Estado fizeram doações de kits de teste de coronavírus, máscaras, álcool e respiradores.

Mas a crise sanitária, que imaginava-se que seria controlada mais rapidamente, continuou progredindo. Nesta quarta-feira (24), pouco mais de um ano após o registro da primeira morte em território brasileiro, o país alcançou a triste marca de 300 mil óbitos provocados pela doença. No Espírito Santo, já são mais de 7 mil vidas ceifadas.

O número de óbitos e de pacientes que testam positivo para o vírus deu um salto neste primeiro trimestre sob influência de novas variantes da Covid-19, que espalham-se mais rapidamente e são potencialmente mais letais. No Estado, por exemplo, já circulam sete mutações do coronavírus.

"POPULAÇÃO ESTÁ EMPOBRECENDO"

O economista Wallace Millis, especialista em gestão pública, destaca que o efeito da paralisação das atividades já é sentido. Índices que medem a confiança do empresariado despencam a níveis que não se observam desde o início da pandemia e, antes, no período de impeachment da ex-presidente Dilma Roussef. Grandes indústrias do país tem paralisado as atividades em função do agravamento da pandemia, o que compromete, inclusive, o fornecimento de matéria-prima.

"O cenário é crítico. E, em meio a isso, o Banco Central aumentou a taxa de juros substancialmente. A pancada na semana passada foi equivocada. Foi precipitado elevar a taxa de juros em 0,75%, ainda mais se olhamos para a dívida pública, que já é trilionária e vai subir em bilhões. E qual o sentido do que foi feito? É o medo da inflação", comentou.

Wallace Millis

Economista

"Nós já estamos vivendo uma estagflação, mas o aumento de preços generalizado que temos observado não é uma inflação de demanda, e sim uma inflação de custos ditada pelo preço das commodities, que reflete direta ou indiretamente em diversos produtos e serviços"

Ele observa que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que é o indicador oficial da inflação no país, já é projetado para este ano em 5% - bem acima da meta de inflação, que é de 3,75%. E apesar do encarecimento de preços, não há reajustes de salários. Na prática, isso significa que a renda da população está encolhendo.

O economista Fábio Giambiagi alerta que, além do empobrecimento da população em função da renda que não acompanha a inflação, a perspectiva é de salto dos índices de desemprego na medida em que aumenta do número de pessoas buscando emprego  sem que o mercado, ainda fragilizado, seja capaz de suprir essa nova demanda.

Ele reforça que, no ano passado, muitos perderam o emprego mas não procuraram uma nova chance, tanto por medo do vírus quanto pela percepção de que não iriam encontrar se buscassem. Além disso, o auxílio emergencial garantiu uma renda mínima as famílias em situação de vulnerabilidade, e, para muitos, foi suficiente.

"Por necessidade, as pessoas têm voltado a buscar emprego aos poucos. Mas a situação é crítica. Os Estados estão tendo que adotar uma série de restrições em função do avanço da pandemia e do atraso da vacinação. E embora pareça que a imunização vai ganhar ritmo daqui para a frente, demoramos muito a começar, o que traz um temor em relação às novas variantes do vírus circulando por aí."

Fábio Giambiagi

Economista

"As vacinas não impedem 100% que se contraia o vírus, mas as pessoas vacinadas podem pegar somente formas mais leves da doença. Porém, corremos o risco de vacinar a população inteira, combatendo a batalha antiga, quando pode haver uma nova variante que tornará tudo inútil. E quanto mais demoramos a imunizar a população, mais mutações vão surgindo. Isso coloca a economia num ciclo vicioso, de abre e fecha, enquanto as vidas vão se perdendo"

SOB PRESSÃO, BOLSONARO CRIA COMITÊ PARA COORDENAR AÇÕES CONTRA A COVID

Diante da pressão, o presidente Jair Bolsonaro anunciou, na quarta (24), a criação de um comitê para coordenar ações no Brasil contra a doença. A formação do grupo foi definida em reunião do presidente da República com os presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), do procurador-geral da República, Augusto Aras, governadores e ministros.

Após reunião com chefes dos Poderes, Bolsonaro afirmou que uma coordenação e um comitê de acompanhamento do combate à crise sanitária serão criados e envolverão os chefes estaduais. O presidente afirmou ainda que o enfrentamento à pandemia sem conflito e sem politização é o caminho para sair da crise.

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