O fim da escala 6x1 vai exigir mudanças na organização do comércio do Espírito Santo a partir de dezembro, às vésperas do Natal, período de maior movimento para o varejo. Enquanto a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES) demonstra preocupação com o aumento dos custos operacionais e a dificuldade de contratar trabalhadores para manter o funcionamento das lojas, o Sindicato dos Empregados do Comércio do Espírito Santo (Sindicomerciários-ES) avalia que a adaptação das escalas é possível e destaca os benefícios da redução da jornada para a saúde dos empregados.
A Emenda Constitucional nº 141, promulgada em 16 de outubro, estabelece dois dias de descanso remunerado por semana e reduz gradualmente a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem diminuição dos salários. A primeira etapa começa em dezembro, quando o limite passa a ser de 42 horas semanais. A redução para 40 horas está prevista para dezembro de 2027.
O diretor de Relações Institucionais da Fecomércio-ES, Marcus Magalhães, afirma que a falta de mão de obra já representa um obstáculo para o setor no Estado. Na avaliação dele, a necessidade de reorganizar as escalas e, eventualmente, ampliar as equipes pode pressionar principalmente os pequenos e médios estabelecimentos.
Como é que você pode fazer uma legislação que lhe obrigue, se quiser continuar trabalhando da maneira que trabalhava, a contratar mais gente, se você não tem nem gente querendo trabalhar nos modos até então existentes?
Marcus Magalhães, diretor de Relações Institucionais da Fecomércio-ES
Magalhães também prevê que parte dos custos adicionais poderá ser repassada aos consumidores. “A gente vai ter aumento de custos repassando para a sociedade”, afirma.
O diretor avalia que a mudança poderá pressionar os preços e aumentar os desafios para os pequenos e médios varejistas, embora não tenha apresentado uma estimativa do impacto financeiro.
Para o diretor do Sindicomerciários, Rodrigo Rocha, o período de vendas de fim de ano poderá servir como uma experiência para a reorganização das escalas. Segundo ele, muitos estabelecimentos já contratam funcionários temporários e ampliam as equipes para atender ao aumento da demanda no Natal.
Os demais lojistas já têm essa tradição de ter uma mão de obra ali, porque acaba muitas das vezes estendendo o horário justamente para poder atender
Rodrigo Rocha, presidente do Sindicomerciários-ES
Rocha avalia que as empresas terão tempo para simular turnos, redistribuir equipes e ajustar o funcionamento. Ele ressalta, porém, que a redução da jornada também exigirá a revisão dos acordos coletivos existentes.
O sindicato estima que cerca de 200 mil trabalhadores representados pela entidade no comércio serão beneficiados pela mudança. Segundo o diretor, a organização está realizando estudos jurídicos para orientar a categoria e revisar acordos firmados com empresas que já adotam jornadas diferenciadas.
De acordo com Rocha, a entidade ainda não iniciou novas negociações com a Fecomércio-ES após a aprovação da mudança. Ele afirma que as duas instituições já haviam discutido, no ano passado, a possibilidade de incluir a escala 5x2 na convenção coletiva, mas a conversa não avançou naquela ocasião.
Saúde dos trabalhadores
Além dos efeitos sobre a organização das escalas, o representante dos comerciários destaca a expectativa de melhora na saúde dos trabalhadores. Segundo ele, as jornadas extensas estão entre as preocupações da categoria, especialmente pelos efeitos sobre a saúde mental.
A nossa categoria é uma das que mais sofre com a saúde mental porque as jornadas são extensas
Rodrigo Rocha, presidente do Sindicomerciários-ES
Para o presidente, a redução da jornada também poderá tornar os empregos no comércio mais atrativos para quem procura trabalho, o que, na avaliação dele, poderá beneficiar os empregadores diante das dificuldades de contratação.
A Fecomércio-ES, por sua vez, defende que as particularidades de cada segmento sejam consideradas na organização das jornadas. Magalhães afirma que o setor empresarial busca alternativas para adaptar as operações e argumenta que a discussão deveria ter ocorrido com mais tempo de diálogo entre empregadores e trabalhadores.
Para o diretor, a transição será especialmente desafiadora para os pequenos e médios varejistas, que precisarão conciliar a reorganização das equipes com o atendimento aos consumidores e os custos da operação.
A mudança coloca empresários e trabalhadores diante de um período de adaptação que começa às vésperas das festas de fim de ano, justamente quando o comércio intensifica as atividades para atender às compras de Natal.