ASSINE

Cesta básica em Vitória supera meio salário mínimo pela 1ª vez em 10 anos

O valor do salário mínimo quase dobrou no período, mas ainda assim não foi suficiente para acompanhar a inflação do alimentos, o que, na prática, reduz o poder de compra das famílias

Vitória
Publicado em 12/01/2021 às 20h10
Atualizado em 12/01/2021 às 22h55
Itens da cesta básica no supermercado
Itens da cesta básica no supermercado subiram de preço, feijão está entre os alimentos que mais aumentaram em 2020. Crédito: Fernando Madeira

Ir ao supermercado se transformou em um drama para muitas famílias. Com os preços dos alimentos 18,5% mais caros que no início de 2020, manter a dispensa com o mínimo necessário tem consumido a maior parte da renda dos trabalhadores. Segundo o Dieese, o custo da cesta básica em Vitória já representa 57% do salário mínimo. Em 10 anos, é a primeira vez que com um salário não dá comprar duas cestas básicas.

Os danos mostram que a alimentação ficou mais cara nos últimos anos e a renda familiar não acompanhou. Com isso, cai o poder de compra das famílias, que acabam sem ter como gastar com outros itens, mesmo os essenciais, como medicamentos ou moradia. Na última década, o salário mínimo subiu 91,7%, e, no mesmo período, a cesta básica na Capital aumentou 117,9% (o Dieese só pesquisa capitais).

Em 2011, o piso salarial estabelecido pelo governo federal era de R$ 510. Já a cesta básica custava R$ 275, ou seja, cerca de 50% do valor. Essa proporção foi caindo nos anos seguintes até atingir 41% em 2017. Desde então, a tendência tem sido de uma participação cada vez maior dos alimentos no orçamento dos trabalhadores. Todos os dados são referentes a dezembro.

Por lei, a correção do salário base precisa, no mínimo, repor as perdas com a inflação, baseada no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), calculado pelo IBGE. Com isso, a remuneração mínima de 2020 foi fixada em R$ 1.045 (em 2021 ele passou a ser de R$ 1.100).

O economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES) Ricardo Paixão comenta que o governo federal tem uma política de elevação do salário mínimo, mas ela não acompanha o ritmo do aumento da cesta básica. De acordo com ele, o governo aponta várias justificativas, como os impactos desse reajuste na despesa do governo e nos gastos previdenciários, por exemplo.

"Além disso, o governo está vivendo um déficit fiscal muito alto, gastando mais do que vem arrecadando. Isso acaba sendo uma justificativa para não reajustar o salário de forma que o trabalhador tenha um ganho real, com aumento acima a inflação", enfatiza.

O economista lembra ainda que, nas famílias com menor renda, o principal componente das despesas é a alimentação. "Como os alimentos têm subido muito, isso tem grande impacto às famílias. Muitas pessoas ou deixam de comprar, ou substituem produtos. Com o aumento dos gastos, elas ficam numa situação complicada. Viver só do salário mínimo não é fácil", aponta.

MÍNIMO TERIA QUE SER DE R$ 5,3 MIL PARA ATENDER NECESSIDADES DAS FAMÍLIAS, DIZ DIEESE

Ainda de acordo com o Dieese, no ano passado, o trabalhador precisaria ter um salário mínimo equivalente a R$ 5.304,90 para conseguir atender a uma família de dois adultos e duas crianças.

Herivelto dos Santos Almeida

economista

"Nos últimos anos, governo federal não deu aumento real no salário mínimo. Isso deteriora ainda mais o poder de compra das pessoas"
Itens da cesta básica no supermercado
Itens da cesta básica no supermercado. Crédito: Fernando Madeira

ALIMENTAÇÃO MAIS CARA A CADA ANO

Qualquer aumento na alimentação impacta diretamente no orçamento das famílias. A cesta básica na capital capixaba, de acordo com os dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), passou de R$ 242, em 2011, para R$ 600,28, em 2020.

Para se ter ideia, apenas no ano passado, a variação do preço da cesta básica entre janeiro e dezembro foi de 21,95%. Em janeiro esse conjunto de itens custava R$ 492,20, aumentando R$ 108,08 no intervalo de 12 meses, valor esse que não se traduziu em aumento no salário do trabalhador. 

R$ 600,28

VALOR DA CESTA BÁSICA EM VITÓRIA EM 2020

A lista da cesta básica do Dieese é composta pelos itens mais consumidos pelos brasileiros: carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo de soja e manteiga. Ela é calculada para atender a uma família de dois adultos e duas crianças.

Em dezembro de 2020, em relação ao mês anterior, doze dos treze itens que compõe a lista de compras tiveram aumento, sendo que cinco deles tiveram índices superiores a 50%, como foi o caso do óleo de soja (105,96%), batata (89,82%), arroz (76,83), banana (59,72%) e feijão (55,40). O único que deflacionou foi o café (-3,75%).

O preço dos produtos aumentou devido a fatores que envolvem o mercado interno e externo. De acordo com os economistas, entre eles estão a alta do dólar, que favoreceu a exportação e fez com que o agronegócio preterisse o mercado interno causando desabastecimento; o endividamento dos produtores, devido à secas e à baixa dos preços em anos anteriores; o aumento do consumo de alimentos, em virtude da liberação de auxílio emergencial; e os impactos da pandemia do novo coronavírus na produção industrial.

EXISTE UMA SAÍDA PARA O TRABALHADOR?

Ao passo em que as despesas aumentam e o salário não é recomposto na mesma proporção, os trabalhadores precisam encontrar formas de driblar essa situação. O economista Ricardo Paixão aponta que colocar no papel todas as despesas é essencial. Ele explica que é preciso saber onde e quanto você está gastando. Com isso é possível definir prioridades e, em alguns casos, cortar custos desnecessários.

"Além disso, no tempo vago, se tiver, ele pode usar uma habilidade que tem - como cozinhar, fazer unha ou artesanato, por exemplo - para ter uma renda extra. Essa é uma forma de sair dessa asfixia financeira. Realmente o salário mínimo é muito pequeno e não dá para atender as condições básicas do trabalhador", aponta.

O especialista lembra ainda que o governo também tem um papel importante junto ao trabalhador. Segundo o economista, é necessário que o poder público se organize para desenvolver mecanismos para que o salário mínimo se aproxime desse valor ideal proposto pelo Dieese (R$ 5,4 mil).  

Ricardo Paixão

economista

"O governo deveria criar e implementar uma proposta de melhoria salarial para os trabalhadores. Isso seria possível criando um projeto com tempo e prazos para chegar a essa meta salarial. Claro que isso tudo atrelado ao cumprimento da meta de receita. Aos trabalhadores cabe, por meio das associações e sindicatos que os representam, pressionar o poder público para que isso ocorra"

O economista Herivelto dos Santos Almeida complementa que é preciso a adoção de medidas combinadas. "Retomada do investimento público para sinalizar aos investidores que o ambiente de negócios está menos arriscado e, ao mesmo tempo, retomar a agenda de reformas estruturais, principalmente a Tributária, é fundamental."

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.