Com a decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de aumentar em 52% o valor da bandeira vermelha patamar 2, a população se vê no meio de uma onda sucessiva de aumentos de serviços essenciais. O gás de cozinha (gás liquefeito de petróleo - GLP), por exemplo, subirá 6% a partir desta terça-feira (6), passando ao 16º aumento seguido.
Esses reajustes sucessivos, junto com os alimentos, que também estão mais caro, têm feito com que cada vez mais brasileiros optem por atrasar ou mesmo deixar de pagar contas de despesas básicas, como aponta a pesquisa “O Bolso dos Brasileiros” da Serasa. Em maio, a inadimplência em contas como energia, gás e água chegou a 22,3% e a tendência, segundo a pesquisa, é de que esse número siga aumentando por conta do crescimento nos preços desses serviços. São 36,9 milhões de faturas atrasadas no segmento.
“Hoje são 62,56 milhões de pessoas inadimplentes no país. Sabemos que 22,30% dessas dívidas são de contas básicas, ficando apenas atrás de bancos e cartão de crédito, que representam 29,70% das dívidas. De acordo com a pesquisa, 50% dos brasileiros tiveram aumento de gastos durante a pandemia e 38% tiveram impacto na renda, esses números são reflexo de um cenário econômico ainda instável e de uma população muito afetada financeiramente por esse período”, observa a gerente da Serasa, Nathalia Dirani.
62,56 MILHÕES
DE PESSOAS ESTÃO INADIMPLENTES NO BRASIL
De acordo ainda com a pesquisa, 86% dos brasileiros consideram as contas básicas as mais importantes. Entre aqueles que atrasaram o pagamento de alguma conta durante a pandemia, as contas básicas, como água, luz e gás são as principais prioridades caso optem por manter apenas um pagamento em dia. “Sendo assim, percebemos que o aumento no valor das contas de luz e gás pode impactar o orçamento dos brasileiros e algumas pessoas podem sentir a necessidade de fazer escolhas”, acrescenta Dirani.
Por outro lado, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Federação do Comércio de Bens Serviços e Turismo do Estado do Espírito Santo (Fecomércio-ES), o endividamento das famílias completou dez meses em queda em maio e ficou em 59%, sendo 0,7 ponto percentual menor que em abril, e 16,4% mais baixo do que no mesmo mês do ano passado. Tendência similar é vista entre os capixabas. O endividamento das famílias do Estado recuou para 24,7% em maio, ficando 0,8 ponto percentual menor em relação ao mês de abril.
Segundo o órgão, é o menor nível de endividamento desde agosto de 2014. No entanto, o indicador mostra que 24,2% das famílias afirmaram que não conseguirão pagar suas dívidas no próximo mês.
Para o presidente do Conselho Regional de Economia do ES (Corecon-ES), Celso Bissoli Sessa, por serem despesas básicas, fica muito mais difícil para o brasileiro lidar com a situação. “Se fossem despesas supérfluas, bastava fazer um reajuste, cancelar uma assinatura, mas são serviços essenciais e quando as famílias estão endividadas com as contas básicas, é porque não têm mais o que cortar”, observa.
Sessa ainda afirma que muitas famílias acabam optando por atrasar essas contas, já que no caso de serviços essenciais, a interrupção não é imediata. “Era comum escolherem as dívidas mais caras, como cartão de crédito e banco para deixarem de pagar, mas com o tempo, as famílias entenderam que o impacto de atrasar as despesas básicas não seria tão imediato, principalmente com a pandemia”, diz.
RENEGOCIAÇÃO
No entanto, o presidente do Corecon afirma que isso só prolonga o problema das famílias, que ainda terão de arcar com essas despesas no futuro. Uma das soluções, segundo o economista, é renegociar, uma vez que na maioria das situações cortar despesas já não é mais possível, pois não há mais nada supérfluo.
“Boa parte desses problemas financeiros não vem de uma má administração financeira por parte das famílias e sim por conta de uma economia ruim. O processo inflacionário acaba sendo muito cruel para quem tem renda mais baixa, já que o efeito dos aumentos é proporcionalmente mais alto, principalmente de serviços essenciais, como água, luz e gás”, afirma.
Para ele, as perspectivas para os próximos meses não são boas, já que os aumentos sucessivos de gás e combustível por conta da política de preços mantida pela Petrobras no país, aliada à iminente crise hídrica, impulsiona mais um serviço básico para sofrer aumentos. A partir de julho, a taxa extra na conta de energia passa de R$ 6,243 por 100 kWh consumidos para R$ 9,49 por 100 kWh.
A renegociação de dívidas também é a alternativa defendida pela gerente do Serasa: “O consumidor que está inadimplente pode negociar suas dívidas para assim poder voltar a ter acesso ao crédito. É importante ressaltar que muitas pessoas possuem dívidas e não sabem. Quanto antes a pessoa quitar uma dívida, melhor, pois os juros aumentam com o tempo e a dívida se torna cada vez maior”, avalia.
O órgão possui um serviço de renegociação de dívidas, que oferece até 90% de desconto, segundo Dirani, que pode ser acessado pelo site oficial. “O consumidor pode encontrar em um só local todas as dívidas que têm com as empresas parceiras e negociá-las . Para conferir as ofertas disponíveis é só acessar nosso site ou o aplicativo ‘Serasa’ disponível no Google Play e na App Store. Também é possível negociar através do 0800 ou pelo WhatsApp oficial da Serasa”, disse.