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Publicado em 2 de outubro de 2025 às 17:01
Às vésperas de completar três anos dos ataques a escolas em Aracruz, no Norte do Espírito Santo, e passado o período mais desafiador do trauma, sobreviventes da tragédia avaliam que a reparação não foi compatível ao que vivenciaram. Por essa razão, decidiram que querem apresentar a situação das vítimas e fazer suas reivindicações ao governo do Estado. Para tanto, professoras da rede estadual estiveram na Assembleia Legislativa na quarta-feira (1º) e solicitaram o apoio de deputados na intermediação de um encontro com o governador Renato Casagrande (PSB).>
Uma das educadoras presentes à sessão foi Sandra Regina Guimarães, 61 anos, que, no dia 25 de novembro de 2022, levou sete tiros na Escola Estadual Primo Bitti. Além dela, outras 11 pessoas ficaram feridas e quatro foram mortas por um adolescente de 16 anos — ele também atacou a escola particular Centro Educacional Praia de Coqueiral. >
“São quatro vidas ceifadas e outras marcadas para sempre. Crimes cometidos com uma arma que deveria proteger, porque era arma de propriedade do Estado (a arma utilizada pelo atirador era do pai dele, um policial militar). Tirou de nós vida, sonhos, saúde e dignidade, deixando famílias destroçadas, histórias interrompidas. Quem sobreviveu não é mais quem era. Não podemos mais ser o que fomos”, disse Sandra Regina, na tribuna da Assembleia. >
Mais tarde, em conversa com a reportagem de A Gazeta, ela disse que, além do trauma que perdura entre todas as vítimas e os familiares das que foram assassinadas, há um sentimento de indignação, sobretudo pelo pouco amparo. Sandra Regina contou que as propostas de reparação do Estado foram apresentadas em um momento de fragilidade, quando não tinham como decidir com clareza, e não correspondem à necessidade das sobreviventes.>
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Uma das opções, segundo afirma, foi uma aposentadoria por acidente de trabalho. "Como se a gente tivesse tropeçado e caído dentro da escola. Eu tomei sete tiros. Meu fêmur foi estraçalhado. Preciso pagar acompanhamento particular e até hoje faço fisioterapia. Isso não é um acidente!", desabafou.>
Sandra Regina afirmou que o valor da indenização, que não pode ser revelado por um acordo de confidencialidade, também foi baixo. "O governo anunciou o pagamento de R$ 2,3 milhões para todas as vítimas, mas não deve ter alcançado nem R$ 1 milhão", suspeita a professora, diante dos critérios para o pagamento, definidos pela gravidade dos casos. >
Outra queixa, sobre a segurança nas escolas, foi apresentada pela professora Aristênia Torres em seu discurso na tribuna da Assembleia. >
“Quando chegamos aqui, passamos por um corredor de segurança, com identificação, revista, câmeras, reconhecimento facial, policiais armados. Mas na escola não há nada disso, somente um vigilante patrimonial. Eu sou um milagre, o mesmo milagre que alcançou os 12 sobreviventes daquele dia tão trágico. Mas as escolas continuam sem segurança”, reclamou. >
Por essas e outras questões, que têm sido tratadas pelas vítimas em encontros e trocas de mensagens por aplicativo, as professoras decidiram se mobilizar, pela primeira vez, na tentativa de um encontro com Casagrande, que, segundo Sandra Regina, nunca aconteceu desde os ataques.>
A participação das professoras na Tribuna Popular da Assembleia partiu de um convite da deputada Iriny Lopes (PT), membro da Comissão de Direitos Humanos da Casa. Para ela, há um viés machista no ataque às duas escolas porque todas as vítimas, alunas e professoras, são mulheres. >
O governo do Estado, por meio da assessoria de Casagrande, disse que, até o momento, não foi procurado para agendar o encontro. >
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