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Natal para as diferentes religiões
Natal para as diferentes religiões. Crédito: Arte A Gazeta

Qual o sentido do Natal para cristãos e religiosos que não celebram Cristo?

O Natal é considerado uma das datas religiosas mais importantes para quem tem fé em Jesus. Mas como outras religiões vivenciam essa data? Confira na reportagem abaixo

Tempo de leitura: 5min
Publicado em 23/12/2021 às 17h46

Ceia, troca de presentes, ambientes decorados, uva passa em todas as comidas (ou não) e a famigerada música sobre Natal da Simone.

O dia 25 de dezembro é considerado a segunda data mais importante no calendário cristão. Antes, a Páscoa ocupa o posto de maior festa das religiões que têm Jesus Cristo no centro.

O padre Kelder Brandão, da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, em Vitória, destaca que o Natal celebra o nascimento de Jesus Cristo. Segundo ele, esse é o princípio básico da fé cristã.

No catolicismo, o Natal é antecedido por um período de preparação chamado do Advento. Diferente do ano civil, o ano litúrgico começa no primeiro domingo do Advento.

Kelder Brandão

Padre católico

"Enquanto aguardamos o retorno [Páscoa], celebramos seu primeiro nascimento, seu nascimento humano. Ele interpela a humanidade na fragilidade de uma criança recém-nascida, pobre dentre os pobres"

Neste caso, a data é comemorada com vigílias no dia 24 de dezembro, além das missas realizadas no dia 25. Uma celebração famosa é a Missa do Galo, vigília ministrada pelo Papa Francisco na véspera do Natal.

Além das manifestações religiosas, o dia 25 dos católicos é vivenciado com a reunião familiar e de amigos que envolve uma ceia, troca de presentes em um espírito de solidariedade.

Grito do Excluídos
Padre Kelder Brandão, da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, em Vitória. Crédito: Carlos Alberto Silva

"A gente precisa resgatar o sentido originário de sobriedade, austeridade e simplicidade. Por isso que tem esse período preparatório de reclusão, de silêncio, de reflexão, de jejum. A igreja estimula a prática da caridade, solidariedade e da oração, que são os exercícios espirituais próprios da fé cristã que nós herdamos dos judeus", pontua o padre Kelder.

O pastor José Ernesto Conti, presidente do Conselho Estadual das Igrejas Evangélicas do Espírito Santo (CEIEV-ES), explica que  celebrar o nascimento de Jesus é o que identifica as igrejas evangélicas.

“Boa parte das nossas igrejas sempre tem um culto especial no dia 24. Não é demorado. Após a celebração, em algumas igrejas é comum as famílias se reunirem e comemorem o Natal em conjunto. Tem a ceia, trocam presentes e confraternizam a importância da data com muito carinho”, comenta Conti.

A Federação Espírita do Espírito Santo (FEES) registra que a data merece apreço e reverência porque se reporta ao nascimento de Jesus, pilar essencial da cristandade. O vice-presidente da FEES José Ricardo explica que os espíritas encaram o Natal, assim como nos outros dias, com expectativa sempre otimista perante a vida. “Temos o momento particularmente no campo de uma reflexão mais demorada a respeito da importância da figura do Cristo em nossas vidas, na humanidade", disse.

Já a comunidade judaica não celebra o Natal. No entanto, o diretor da Congregação Israelita Capixaba (Cicapi), Douglas Miranda, explica que os judeus têm uma festa próxima ao Natal, o Chanucá.

A festa de Chanucá é celebrada durante oito dias e se inicia no calendário hebraico, no dia 25 do mês de Kislev. Durante esta festa se acende uma Chanukiá, ou candelabro de 9 braços (incluindo o central e maior, denominado Shamash, ou servente).

Na primeira noite acende-se apenas o braço maior e uma vela, e a cada noite vai acrescentando uma vela acesa, até que no oitavo dia o candelabro está completamente aceso. O ritual comemora o milagre do azeite que queimou por oito dias no candelabro do Templo de Jerusalém.

“Porém, a gente entende a importância do Natal para os cristãos e acredita que toda a manifestação em prol de um envolvimento de comunidade, da boa convivência, respeito e parceria, é bem-vinda. Para nós, a diferença religiosa não pode ser uma barreira social”, diz Douglas.

Assim como no judaísmo, o islamismo não celebra o Natal. "O Natal para nós,  muçulmanos, significa uma data histórica que faz parte do nosso dia a dia, do nosso convívio, de parte da nossa família, da nossa sociedade", explica o sheikh Ali Momade, autoridade religiosa da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras).

Ele frisa que os muçulmanos reconhecem as celebrações religiosas em memória da vida de Jesus, apontado por eles como um dos grandes líderes religiosos. “Nós celebramos, juntos com os irmãos cristãos e judeus, os mais altos valores de vida. O respeito e amor ao próximo são valores que todas as religiões pregam, independente das nossas diferenças”, explica.

Nas religiões de matriz africana como a Umbanda e Candomblé, celebrar o Natal não faz parte da vivência tradicional africana. Quem afirma é o ogã Marcos de Odé.

Ele é o secretário-geral da Federação Espírito-santense de Cultura e Povos Tradicionais de Matriz Africana (Fescoptma). “A gente aproveita a data para comemorar o que celebra o ano todo, que é a questão de estar com a família, o compartilhamento de energia e de alegria. Nos povos tradicionais, a força é a tradição familiar”, destaca.

25 de dezembro: como as religiões celebram o Natal

A tradicional "Árvore que Canta" da Primeira Igreja Batista de Vitória inicia as apresentações no próximo domingo (22)
A tradicional "Árvore que Canta" da Primeira Igreja Batista de Vitória. Fernando Madeira
Comemoração do Chanucá em Vitória no ano de 2018
Comemoração do Chanucá em Vitória no ano de 2018. Associação Alef Bet
Marcos de Odé, Ogã, secretário-geral dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, em Vitória
Marcos de Odé, Ogã, secretário-geral dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, em Vitória. Ricardo Medeiros
Religioso muçulmano em mesquita na Ufes
Religioso muçulmano em mesquita na Ufes. Ricardo Medeiros / Arquivo A Gazeta
Decoração de natal em Domingos Martins
Luzes de Natal: no espiritismo, é tempo de reflexão. Fernando Madeira
Dom Dario Campos faz celebração para os moradores de rua em Vitória
Dom Dario Campos faz celebração para os moradores de rua em Vitória. Fernando Madeira
Dom Dario Campos faz celebração para os moradores de rua em Vitória
Dom Dario Campos faz celebração para os moradores de rua em Vitória
Dom Dario Campos faz celebração para os moradores de rua em Vitória
Dom Dario Campos faz celebração para os moradores de rua em Vitória
Dom Dario Campos faz celebração para os moradores de rua em Vitória
Dom Dario Campos faz celebração para os moradores de rua em Vitória

 HISTÓRIA DA DATA

O professor de Filosofia da Religião da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Marcelo Barreira, explica que Natal significa nascimento, porém, inicialmente o nascimento que se celebrava nesta época não era o de Jesus Cristo.

Marcelo Barreira

Professor de Filosofia da Religião

"O imperador Aureliano, no ano 274 a.C, venceu uma guerra na Síria e, a partir disso, ele foi ao templo local de Mitra agradecer a vitória. Assim, Mitra passou a ser uma divindade popular no império, principalmente entre os soldados"

Barreira lembra que os romanos eram agricultores e por isso precisavam do sol para movimentar a economia local. Também por isso, faziam de tudo para agradar os deuses.

“Eles também tinham a Saturnália, que era um conjunto de festas que celebrava o deus Saturno e, junto a isso, se articulou esse culto ao deus Mitra”, revela.

O culto à Mitra, o deus Sol Invictus ou o deus Sol invencível, então foi levado para Roma. A história conta que o imperador elegeu um templo e tornou o rito oficial.

A comemoração do nascimento desse deus persa era exatamente no dia 25 de dezembro, quando se celebrava o solstício de inverno, ou seja, quando a noite mais longa passa a ceder crescentemente para a força da luz do Sol.

Decoração de natal em Domingos Martins
Luzes de Natal em Domingos Martins. Crédito: Fernando Madeira

Esse Dia do Sol Invencível se tornou parte do calendário civil romano. Para Barreira, o cristianismo ressignifica a expressão a partir de uma tradição da mitologia romana.

“O Sol Invicto foi transformado como sendo nascimento da luz no mundo, que é Jesus Cristo. O Jesus Cristo é o verdadeiro Sol Invicto. A gente percebe que há uma espécie de secularização que o Cristianismo faz dessa mitologia romana”, avalia.

E quando surge o Natal nesta concepção que conhecemos hoje?

A partir da tradição judaica, que acreditava na chegada de um messias, emerge a crença de que Jesus Cristo seria o messias. O nascimento de Jesus Cristo era celebrado no Oriente junto à Epifania, no dia 06 de janeiro.

Em Roma, embora no ano de 313 Constantino se converta ao cristianismo, apenas com o Edito de Tessalônica, em 380, o imperador Teodósio I torna essa religião oficial, proibindo cultos greco-romanos, absorvendo suas festas religiosas em perspectiva cristã, como a celebração do Natal.

Padre Kelder Brandão relembra que a festa romana do deus Sol era celebrada com orgias gastronômicas e sexuais. Segundo ele, o Natal surge nesse contexto para contestar a prática que era comum no império.

Kelder Brandão

Padre católico

"O Natal se contrapõe à festa do consumo e das orgias, quais sejam elas, e esse consumo desmedido. Natal não tem nada a ver com reninha, papai noel e trenó. A celebração do Natal é um ato de resistência dos pobres. Por isso que dom Dario foi celebrar com o povo de rua, tentando resgatar esse significado do Natal que contesta essa forma materialista de viver a vida"

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Ceia de Natal com pessoas em situação de rua, em Vitória

Dom Dario participa de Ceia de Natal com pessoas em situação de rua em praça de Jardim da Penha
Ceia de Natal com pessoas em situação de rua. Fernando Madeira
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