"Em nenhuma cobertura havia testemunhado tantas mortes"
Esta não foi a primeira vez que documento a rotina de um hospital. Ao longo de 21 anos como jornalista da redação de A Gazeta, já havia encarado a dor, angústia e adrenalina tão presentes em um plantão médico. Mas em nenhuma cobertura havia testemunhado tantas mortes. Durante as 32 horas, ao longo de cinco dias, que passei dentro da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Evangélico de Vila Velha para registrar os bastidores da guerra diária contra o coronavírus, me despedi de quatro vidas. Entre elas a de uma jovem de 25 anos e de uma idosa de 65. Foi muito marcante para mim ver o paciente no hospital em um dia e, ao retornar na manhã seguinte, encontrar o box da UTI vazio e as luzes apagadas. Pensei: cadê o paciente que estava aqui ontem? Mas eu já tinha a resposta. Infelizmente o doente intubado não tinha recebido alta, ele havia se tornado uma vítima da Covid-19. A reportagem sobre a luta contra o coronavírus dentro da UTI também me proporcionou algo inédito: registrar expressões, mas sem mostrar o rosto completo de ninguém, já que as máscaras precisam ser usadas em tempo integral. Das quase 50 pessoas que convivi no hospital, só vi completamente o rosto de três. É impossível pensar na dedicação daqueles profissionais e na relação deles com os pacientes internados e não me emocionar. Quando decidi fazer a reportagem sobre a rotina em uma UTI para tratamento de Covid-19, queria mostrar justamente quem são os trabalhadores que estão na linha de frente da guerra para salvar vidas. Jornalista tem a obrigação de gostar de gente mais do gostar de escrever, de fotografar. Sem gente não existe história, e a história vai dizer quais foram as pessoas que deram suas contribuições durante a pandemia. Cabe a nós repórteres fazer o registro do tempo.