Durante nove anos, o ateliê de Ana Lilia, 56 anos, foi improvisado sob a Terceira Ponte, em Vitória. Entre o concreto e o barulho dos carros, a artista vendia quadros em sinais de trânsito para garantir o mínimo: comida, dinheiro, dignidade. Sua trajetória foi contada em A Gazeta em novembro do ano passado e também em reportagem exibida no programa Em Movimento, da TV Gazeta, no último sábado (13). A história causou comoção e, desde então, a vida de Ana Lilia tomou um novo rumo.
Hoje, Ana ocupa um espaço diferente. Suas obras deixaram os semáforos e chegaram às paredes do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES). No espaço cultural da instituição, Ana apresenta a exposição Renascimento, composta por 35 telas feitas em eucatex reaproveitado, trabalhadas com óleo e acrílico, que estará disponível para o público até o fim deste mês, com entrada gratuita. A artista destaca que, mais do que uma mostra de arte, a exposição é o reflexo de sua trajetória de superação e de um recomeço que ela própria define como um “renascimento”.
“É o renascimento de uma nova fase na minha vida. Uma fase de conhecimento, de aprimoramento, e a pintura é a minha salvação. Não me vejo fazendo outra coisa”, afirmou Ana, em entrevista ao programa Em Movimento, ao lembrar do período em que deixou as ruas e passou a viver em um abrigo de Vitória.
Arte como sobrevivência
Ana Lilia começou a pintar ainda na infância, aos 11 anos, mas foi na rua que a arte se tornou sustento. “Eu pinto, tenho dinheiro, tenho comida, tenho tudo o que preciso. Se não pinto, não tenho nada”, contou em entrevista para A Gazeta.
Hoje, cada tela carrega um novo significado. As cores representam não apenas o talento, mas a resistência de quem conheceu as dificuldades da rua. “As pessoas desconhecem a vida nas ruas. É uma sociedade diferente, com regras distintas e muito difíceis. Vejo minha vida retornando, pois não nasci na rua. Cheguei lá por acaso e agora estou conseguindo me reerguer”, relata.
O encontro com o TJES
A virada na história de Ana começou quando Fábio Buaiz de Lima, coordenador de gestão documental do TJES e responsável pelo espaço cultural da instituição, a reencontrou em um sinal de trânsito. Ele já conhecia a história da artista por uma reportagem e decidiu se aproximar.
“Ofereci, então, um espaço para ela, pois acredito na importância de oferecer apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade. Acreditei que seria pertinente incluir essa questão no contexto do Tribunal de Justiça. Assim, ela apresentou esta exposição, que ressalta a palavra ‘renascimento’, representando sua superação pessoal. Embora ainda enfrente uma fase de transição desafiadora, sua determinação e superação diárias são evidentes”, conta Fábio.
A proposta se concretizou na exposição que, além de valorizar a produção artística, abre espaço para o diálogo sobre inclusão e cidadania dentro do tribunal. Para Fábio, a arte de Ana Lilia também simboliza um desafio maior: ampliar o acesso de pessoas em situação de vulnerabilidade a iniciativas culturais.
Programação
A exposição Renascimento está aberta ao público até o dia 26 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 12h às 19h. Além de contemplar o trabalho da artista, a mostra também disponibiliza as obras para venda. São quadros que, um dia, foram ofertados em sinais de trânsito e agora ocupam um espaço de valorização da cultura local.
“É gratificante quando as pessoas sorriem ao ouvir que não estou mais nas ruas. É um sorriso verdadeiro, e isso me fortalece. Ainda há muito a acontecer, este é apenas um degrau”, diz Ana, que hoje considera o abrigo onde vive como sua casa.
Este conteúdo é uma produção do 28º Curso de Residência em Jornalismo. A matéria teve edição de Weber Caldas, editor-adjunto do Núcleo de Reportagens de A Gazeta.