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Crise da Covid-19: ES não entrou em colapso, mas situação preocupa

Vários Estados do país enfrentam situações delicadas em seus sistemas de saúde e adotaram medidas mais rígidas de restrição. No Espírito Santo, sistema não entrou em colpaso, mas atual situação preocupa especialistas

Hospital Jayme Santos Neves, na Serra, recebe trinta e seis pacientes com Covid-19 vindos de Manaus
Sistema de saúde do ES ainda não apresentou uma sobrecarga. Crédito: Fernando Madeira

Covid-19 continua avançando sobre o Brasil e o mundo, sobretudo com as novas variantes descobertas e que tornam o vírus mais infeccioso e até com maior potencial de evolução para uma condição mais grave da doença. Isso é perceptível em vários Estados do país, como o AmazonasGoiás e o Rio Grande do Sul, que enfrentam situações delicadas em seus sistemas de saúde e adotaram medidas mais rígidas de restrição.

Ao contrário desses Estados, o Espírito Santo não enfrentou dificuldades assistenciais em relação ao sistema de saúde até aqui e, no momento, não apresenta um crescimento substancial do número de casos, internações e mortes. Segundo o subsecretário estadual de Vigilância em Saúde, Luiz Carlos Reblin, a situação atual é de estabilização da doença. Ele faz um alerta, porém, para um possível aumento da incidência de doenças respiratórias nos próximos meses de março e abril.

"Desde o começo da pandemia, sempre monitoramos nossos indicadores, principalmente a quantidade de novos casos a cada dia, as internações e os óbitos; eles são os principais porque indicam a necessidade de alterar alguma estratégia, ampliar a estrutura, ampliar leitos. Nós vínhamos em uma situação de queda - casos, óbitos e as internações diminuíram  - e, há pouco mais de uma semana, começou a cair menos até que já estamos em uma estabilidade, não tem mais queda nos indicadores", descreve. 

Luiz Carlos Reblin

Subsecretário estadual de Vigilância em Saúde

"É um sinal importante que, agregado ao fato de que o Espírito Santo tem uma sazonalidade das doenças respiratórias que volta a subir entre março e abril, vai aumentar o número de casos e, consequentemente, aumentam as internações, os casos graves e os óbitos. A Covid-19 é uma doença respiratória, então provavelmente ela vai seguir a mesma tendência"

Para o subsecretário, a preocupação maior agora é a entrada das novas cepas no Estado. Reblin destaca o fato das variantes terem um maior poder de infecção, além de permitir a reinfecção, ou seja, que pessoas que teoricamente teriam uma resposta imunológica melhor, por já terem contraído o coronavírus, estarem suscetíveis a serem infectadas novamente. 

Ele reitera que as medidas de proteção e segurança, tomadas em parceria com os municípios, são preponderantes para evitar a contaminação em massa pelo vírus modificado.

"A questão para nós é a variante, que tem a possibilidade de infectar novamente toda a população. Estamos vendo que os Estados próximos a nós já sofrem um aumento muito grande de casos, inclusive chegando ao limite do atendimento. Nós, com os municípios, trabalhamos para identificar casos e isolar. Então, além da ampliação da oferta do RT-PCR (teste para a Covid-19), temos nosso próprio Lacen e serviços privados credenciados para fazer exames. Estamos introduzindo um novo exame de captura de antígeno, feito no momento do atendimento, e que o resultado sai muito rápido", detalha o subsecretário.

Reblin ainda cita que a ampliação dos leitos de UTI, desde o começo da pandemia, foi uma estratégia preponderante para evitar um colapso do sistema de saúde capixaba. Ele ressalta que o Estado possui a capacidade de ampliação para até 900 leitos de tratamento intensivo e que, mesmo assim, considerando o potencial da doença, uma crise assistencial não pode ser minimizada.

"Hoje, estamos perto de 70% de ocupação,  uma margem de segurança importante para nós. A preocupação com o colapso tem sempre que existir, nós não podemos minimizar o risco de excesso de pacientes, mas, desde o começo, temos feito um planejamento que tem atendido às nossas necessidades. Temos capacidade de, rapidamente, chegar a 900 leitos", assegura.

A principal aposta da Secretaria da Saúde de Estado (Sesa) para monitorar a entrada das variantes do vírus no Espírito Santo, de acordo com o subsecretário, é o rastreamento de turistas que passaram pelo Estado e que contraíram o vírus. No último dia 12, a Sesa detalhou a estratégia que será adotada com as companhias aéreas e de transporte terrestre para conseguir levantar estes dados de passageiros.

"HOSPITAIS DE CAMPANHA SÃO TEMPORÁRIOS"

Uma das principais críticas direcionadas ao governo do Estado, durante o primeiro pico de casos da Covid-19, foi a decisão de investir na expansão de leitos de UTI em vez da implementação de hospitais de campanha para tratamento de pacientes com a Covid-19. 

Passado quase um ano do início da pandemia, porém, o diretor de integração do Instituto Jones dos Santos Neves (NIEE) e membro do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos (NIEE), Pablo Lira, avalia que a estratégia escolhida pelo Estado se provou muito mais eficaz no controle da doença.

UTI para pacientes com Covid-19 no Hospital Jayme Santos Neves, na Serra
O Hospital Dr. Jayme Santos Neves, na Serra, é a referência do SUS no atendimento a pacientes com Covid no ES. Crédito: TV Gazeta

"Em nenhum momento, tanto na primeira quanto na segunda fase da pandemia, o governo do Estado deixou de atender um paciente infectado pela Covid, porque teve uma estratégia estrutural. Ela foi tomada em um período no qual a maioria dos Estados optou por investir em hospitais de campanha. Foi muito criticada essa opção de não montar hospitais de campanha e, hoje, fica demonstrado como que a expansão do sistema de saúde é uma solução estrutural. Os hospitais de campanha são temporários e, além disso, envolve um alto gasto para mobilizar essa estrutura", afirma.

Pablo Lira também pontua que os indicadores atuais da Covid-19 no Estado não sugerem uma possível crise assistencial nas próximas semanas. O pesquisador frisou, porém, que essa segurança é relativa, uma vez que é difícil prever o comportamento da doença.

"Olhando os indicadores de hoje, com base neles, é pouco provável que nós, nas próximas semanas, vamos enfrentar uma situação como a do Amazonas, Goiás e outros estados que estão apresentando um crescimento nas suas médias móveis de óbitos e da demanda do sistema de saúde. Hoje, o Espírito Santo tem certa segurança, mas é importante frisar que é uma segurança relativa; em comparativo a outros estados, estamos em uma situação mais controlada. Não é um controle efetivo, porque sabemos que a doença impõe uma série de desafios", disse.

Além de seguir a estratégia de expansão de leitos de UTI, para Pablo Lira, outros dois pontos são primordiais para impedir que o Estado entre em uma crise assistencial. Segundo o pesquisador, a conscientização da população em relação às medidas de segurança, como o distanciamento social e o uso de máscaras, e uma campanha de vacinação eficaz, principalmente dos grupos prioritários, já poderiam conter a disseminação do vírus.

"Isso depende de maior mobilização e capacidade de articulação do governo federal, e vai beneficiar todos os Estados. O Espírito Santo hoje tem uma estratégia de buscar acesso às vacinas, mas quem tem que ser o protagonista desse processo, acelerando a vacinação no Brasil, é o governo federal. Isso vai garantir que os Estados que estão passando por um momento crítico diminuam a gravidade da situação e que Estados como o Espírito Santo, que estão relativamente um pouco mais seguros, mantenham esse ritmo de queda. Não podemos descartar um aumento de casos até ter uma massa de imunizados", ponderou.

Professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e também membro do NIEE, Etereldes Gonçalves atesta que a oferta de leitos no Estado foi uma importante estratégia até o momento, mas a crise sanitária instalada no país, sem perspectivas de melhoria, pode também comprometer a assistência em território capixaba. 

"Se compararmos a quantidade de leitos exclusivos para a Covid no Espírito Santo, com outros Estados que colapsaram, vemos que o ES fez um esforço enorme. Para se ter uma ideia, em Santa Catarina foram abertos, segundo secretaria de saúde de lá, 783 leitos UTI Covid. Eles têm  7,1 milhões de habitantes. Aqui, abrimos 715 para uma população de 4,1 milhões. Se será suficiente para o que está por vir?  Acredito que não", adverte.

O Estado, que vinha desde janeiro com redução nas internações, criando inclusive a possibilidade de receber pacientes de outros locais, agora volta a registrar ocupação superior de 500 leitos por dia, acendendo um sinal de alerta

RELAXAMENTO

Etereldes Gonçalves admite uma apreensão com o que o Espírito Santo ainda pode enfrentar.  "Os dados do Espírito Santo melhoraram desde o início de janeiro, e isso traz um relaxamento natural na população. Mas temos uma nova variante devastando os sistemas de saúde de 17 Estados. O que nos salvaria seria ter a certeza de que a segunda expansão já se deu por conta desta variante. Mas não acredito muito nesta hipótese e hoje não temos como testá-la", pontua o especialista. 

Doutora em Epidemiologia e professora da Ufes, Ethel Maciel ratifica esse posicionamento, lembrando que o Espírito Santo "não é uma ilha" e, mais cedo ou mais tarde, pode também ser afetado pela falta de coordenação nacional no controle da disseminação das novas variantes. 

"O Espírito Santo não está isolado do país. Como não teve controle quando deveria ter acontecido, e deixou as variantes se espalharem no país, agora é só a ordem natural das coisas. Quando ficou sabendo das variantes do Amazonas, não fez o cerco sanitário, não teve controle de entrada e saída, não teve nada. As variantes são mais transmissíveis, produzem casos muito mais rápido, mais pessoas ficam doentes e precisam de hospital ao mesmo tempo", observa. 

A tendência de piorar também se sustenta, afirma Ethel Maciel, pela lentidão na campanha de vacinação. A epidemiologista aponta que, para conter o avanço da Covid-19 e os casos graves, a imunização já deveria ter atingido pelo menos 70% da população com mais de 60 anos. No Espírito Santo, por exemplo, ainda está começando a faixa etária dos 80 a 84. 

O professor Etereldes Gonçalves acrescenta que as medidas para conter a transmissão são conhecidas, tais como distanciamento social e uso de máscaras. "Mas elas não têm adesão da sociedade sem ação do Estado. Já está claro isso. Se quiser diminuir internações e óbitos, é urgente vacinar a faixa etária 60 a 80 anos. Essa faixa contribui com mais da metade dos óbitos e apenas 6,1% dos casos reportados."

LOCKDOWN

Para o Espírito Santo não entrar em colapso como tem sido registrado em outros Estados, avalia Ethel Maciel,  a melhor alternativa seria o lockdown, com restrição rigorosa da circulação de pessoas. 

"Não tem muita coisa que o Estado possa fazer; o que deveria ser feito é o lockdown, que só funciona antes de o colapso acontecer. Se fecharmos hoje, vamos colher os frutos das ações daqui a 15, 20 dias. Precisaria de restrição de circulação bem pesada para que pudesse prevenir internações daqui a 15 dias porque março, certamente, vai ser um mês bem difícil para o Brasil e para o Espírito Santo também", projeta. 

Embora considere a medida imprescindível, Ethel Maciel reconhece a dificuldade de colocá-la em prática. Sem outras iniciativas, como o auxílio emergencial à população de baixa renda, o ambiente não é favorável.

"Sem auxílio, não tem como pedir para as pessoas ficarem em casa, se elas precisam sair para vender e ter algo para comer. Não tem plano para ajudar as micro e pequenas empresas. Teriam que ser ações do governo federal, mas falta uma coordenação nacional", constata a especialista, acrescentando que o lockdown, hoje, só funcionaria em um pacto com a sociedade. 

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