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Carnaval capixaba: enredos irreverentes e perfeição técnica marcam os anos 2010

Segunda década dos anos 2000 foi marcada pela disputa de títulos entre a Independente de Boa Vista e a Mocidade Unida da Glória

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 16/02/2021 às 07h35
Atualizado em 16/02/2021 às 07h35
A Mocidade Unida da Glóra encantou o Sambão do Povo com leveza e bom humor, vencendo o carnaval de 2015
A Mocidade Unida da Glória encantou o Sambão do Povo com leveza e bom humor, vencendo o carnaval de 2015. Crédito: Vitor Jubini

Se nos anos 2000 o tempero a mais no Carnaval Capixaba era a disputa entre a Unidos de Jucutuquara e a Mocidade Unida da Glória pelo posto de favorita ao título, na década seguinte, a de 2010, o clima de rivalidade continuou acirrado, mudando apenas um dos peões desse (delicioso) jogo de xadrez. 

Sai de cena o favoritismo da "Coruja" e entra a Independente de Boa Vista, agremiação de Itaquari (Cariacica) conhecida por ter uma forte base comunitária (que os sambistas chamam de "chão"), sempre apostando em desfiles técnicos para vencer. Sabe aquela apresentação em que os jurados procuram erros (para "canetar" nos quesitos) e não acham? É disso que estamos falando.

A "batalha" entre MUG e Boa Vista é o assunto do terceiro (e último) "capítulo" do especial de três matérias criadas pelo "Divirta-se" para você matar a saudade dos antigos carnavais de Vitória. 

O momento "nostalgia" serve de alento para os órfãos dos desfiles das escolhas de samba, visto que, por conta da pandemia do Novo Coronavírus, o Sambão do Povo, em Vitória, não recebeu as apresentações em 2021. Anteriormente, contamos histórias sobre a folia nos anos 1980 e 1990/2000. Agora, chegou a vez dos anos 2010.

DOMÍNIO

As escolas de Vila Velha e Cariacica abocanharam todos os títulos desta época. A Mocidade Unida da Glória levou cinco troféus (2011/2013/2015/2016 e 2018). Boa vista, por sua vez, pode ser considerada a vencedora da década, com seis conquistas (2010/2012/2014/2017/2019 e 2020), ou seja, quase um empate técnico. 

Em 2014, em Bairro de Fátima, na Serra, nascia a "caçulinha" do carnaval capixaba, a Império de Fátima, que ainda busca o seu espaço no cenário local. Há, também, entidades carnavalescas não filiadas às ligas do Estado que foram criadas nesta década, como a Imperatriz do Samba (2011), que desfila em Guarapari.

Desfile da Independente de Boa Vista, no Sambão do Povo, em 2010: primeiro título da escola de Cariacica
Desfile da Independente de Boa Vista, no Sambão do Povo, em 2010: primeiro título da escola de Cariacica. Crédito: Bernardo Coutinho/Arquivo A Gazeta

"Na segunda década do Terceiro Milênio, continuamos com uma dobradinha, só que diferente. A Jucutuquara saiu do páreo para dar lugar à escola de Cariacica", apontou a estudiosa do carnaval capixaba Iamara Nascimento

"A Independente de Boa Vista surpreendeu em 2010, ano do seu primeiro carnaval, com o enredo 'Nem Tudo que Reluz é Ouro', fazendo um grande desfile e mostrando que chegou para ficar".

Iamara acrescenta ainda o campeonato de 2014 como sendo inesquecível para a agremiação de Itaquari. "O refrão 'Quem é que Espalha o Perfume no Ar' ecoa até hoje. A escola se destacou também em 2020, levando a música capixaba para a avenida com muita leveza e precisão nos quesitos. Foi bonito de se ver", completa.

Presidente - e intérprete - da Boa Vista, Émerson Xumbrega também elege o título de 2014 (que apresentou o enredo "Teu Cheiro me Dá Prazer... Boa Vista Espalha o Perfume no Ar") como marcante, especialmente porque confirma a fama da agremiação de ser a mais técnica do carnaval capixaba, uma característica que acabou virando tendência nos anos 2010. 

Carro abre-alas do desfile da Independentes de Boa Vista, no carnaval de 2014
Carro abre-alas do desfile da Independentes de Boa Vista, no carnaval de 2014. Crédito: Vitor Jubini

"Foi um ano marcado por ensaios exaustivos, tanto na quadra da escola como nas ruas de Itaquari. Nossa ideia era não repetir os erros frequentes dos desfiles anteriores. Apostamos em treinar o canto dos componentes de cada ala (que vale pontos preciosos no quesito Harmonia); garantir a perfeição nas alas de passo-marcado; e treinar a entrada e a saída da bateria nos boxes. Esse ritual virou uma cartilha decisiva para todos os títulos da escolha que vieram a seguir", destaca.

Xumbrega, inclusive, acusa que um erro técnico no desfile de 2013 foi essencial para a perda do campeonato. Mesmo com o segundo lugar (perdendo o título para a MUG), o desfile defendendo o enredo "Diáspora Africana - O Grito de Liberdade de uma Raça" é o preferido da década para o dirigente. 

"Perdemos um ponto no quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira, pois um elemento na cabeça da porta-bandeira caiu várias vezes na avenida. O título, no final, saiu das nossas mãos por 0,4 décimos. Por isso, ficamos cada vez mais centrados nos ensaios", explica, dando detalhes sobre a apresentação, que considera "grandiosa". 

Mesmo com o vice-campeonato de 2013, a Independentes de Boa Vista apresentou um desfile empolgante no Sambão do Povo
Mesmo com o vice-campeonato de 2013, a Independentes de Boa Vista apresentou um desfile empolgante no Sambão do Povo. Crédito: PMV/Divulgação

"Foi um carnaval marcado por alegorias que se movimentavam e por alas de passo-marcado. Além disso, nossa bateria - comanda por Mestre Picolé - deu um show, com paradinhas de 40 segundos, feito pouco visto no Sambão do Povo. A arquibancada explodiu", relembra. 

Para o estudioso do carnaval capixaba Leonardo Soares, a Independente fez vários carnavais inesquecíveis nos anos 2010. "A Boa Vista, que já colecionava ótimos sambas antes mesmo de conquistar títulos, se encontrou definitivamente com as arquibancadas em 2012. Ter Elisa Lucinda como enredo já era uma grande aposta. Com o samba, isso só se confirmou", acredita, dando detalhes da apresentação. 

Iemanjá, surgindo em um tripé da comissão de frente, foi um dos destaques da Independente de Boa Vista em 2012. Crédito: Edson Chagas/ Arquivo A Gazeta
Iemanjá, surgindo em um tripé da comissão de frente, foi um dos destaques da Independente de Boa Vista em 2012. Crédito: Edson Chagas/ Arquivo A Gazeta

"Foi um desfile que já começava emocionante, com Iemanjá surgindo no tripé da comissão de frente. A apresentação por inteiro tomou conta de quem assistiu, e levou para fora das fronteiras do Estado o lema 'ser capixaba também é chique'. Quando a homenageada atravessou a avenida ovacionada, encerrando o desfile e levantando todo o sambódromo, não houve mais conversa: estava ali a campeã", responde, com emoção.

Soares ainda elege o enredo "Sob a Luz do Luar, Guiada Pelas Estrelas... Boa Vista em Alma Cigana, Opatcha!", apresentado em 2017 pela escola de Cariacica, como sendo um exemplo de força da comunidade. 

"A começar pela coragem da escolha de um tema complexo, que envolve mistérios e ritos, e que rendeu um samba-enredo inesquecível e casou perfeitamente com a escola na avenida. Aquela comissão de frente das ciganas em volta da fogueira é uma das maiores do nosso carnaval. Fora os outros momentos muito bem desenvolvidos e que ficaram na memória, como as baianas com bolas de cristal e os carros da cartomante e o dos ciganos escravizados pela liberdade".

A Comissão de Frente da Independente de Boa Vista no Carnaval de 2017 é considerada uma das mais impactantes do carnaval capixaba
A Comissão de Frente da Independente de Boa Vista no Carnaval de 2017 é considerada uma das mais impactantes do carnaval capixaba. Crédito: Beto Morais/ Arquivo A Gazeta

UMA CERVA BEM GELADA

Engana-se quem pensa que somente a Independente de Boa Vista fez desfiles marcantes para o coração do sambista nos anos 2010. Outra grande campeã da década, a Mocidade Unida da Glória não fica atrás, com apresentações marcadas pela leveza e bons sambas enredos, que garantiram a agremiação sempre na disputa por títulos, quando não se consagrava campeã, é claro. 

Com um enredo sobre a cerveja, a Mocidade Unida da Glória fez um desfile irreverente, vencendo a disputa em 2011. Crédito:  Gabriel Lordello/ Arquivo A Gazeta
Com um enredo sobre a cerveja, a Mocidade Unida da Glória fez um desfile irreverente, vencendo a disputa em 2011. Crédito: Gabriel Lordello/ Arquivo A Gazeta

"A MUG entrou na década com o pé direito. O desfile de 2011 volta a beber (cerveja) da fonte da Grécia, em 2005, e a escola traz, como naquele ano, um enredo irreverente e um samba pra cima, de fácil assimilação. A troca de energia com o público foi imediata. Além disso, o carnavalesco Peterson Alves apostou em uma plástica imponente e descontraída, com a Família Real fugindo para o Brasil em barris de cerveja, enquanto o folião cantava “na travessia dos fujões, bebedores beberrões”... Uma liberdade poética que está cada vez mais sumida do carnaval", aponta, com nostalgia, Leonardo Soares. O resultado: Mocidade campeã incontestável naquele ano.  

Nos anos 2010, especificamente a partir de 2015, a agremiação de Vila Velha se reinventa, deixando o luxo um pouco de lado e  partindo para uma linha de enredos mais irreverentes, com apresentações ultracoloridas. 

"O desfile daquele ano ("Nos Reinos de Sua Majestade: o Sonho"), desenvolvido por Cid Carvalho, fez com que a escola revisitasse a sua história, buscando elementos da apresentação de 2007, que era uma homenagem ao universo infantil", enfatiza Patrick Rocha, diretor administrativo da escola do bairro da Glória (Vila Velha).  

No desfile de 2015, a MUG apostou em um enrede irreverente e, com uma apresentação ultracolorida, foi campeã, levantando a arquibancada. Crédito: Vitor Jubini
No desfile de 2015, a MUG apostou em um enrede irreverente e, com uma apresentação ultracolorida, foi campeã, levantando a arquibancada. Crédito: Vitor Jubini

"A opção acentuou uma história lúdica, que habita o imaginário num reino dos sonhos. Nesse desfile, a MUG aposta numa Comissão de Frente sem tripé, o fez com que a escola “crescesse”, com cinco alegorias muito bem executadas. O destaque fica para o abre alas todo vazado e com muita iluminação. Esse ainda foi o primeiro ano da parceria com o cantor Dudu Nobre, que criou um samba cheio de rimas. A escolha caiu no gosto da comunidade, especialmente pelo refrão: 'e desse sonho só quero acordar, com a Mocidade campeã do carnaval'. E fomos!", afirma, com orgulho.

"Entre Confetes e Serpentinas, uma Paixão sem Igual… Olhares que se Cruzam, Bocas que se Beijam… Amores de Carnaval", defendido pela MUG no Sambão do Povo em 2018, marcou chegada de Osvaldo Garcia à escola, carnavalesco que ainda não havia conseguido um título no Grupo Especial do carnaval capixaba. De acordo com Patrick, o desfile daquele ano foi simbólico, especialmente pelo resgate das raízes "muguianas". 

Sob forte chuva, a MUG encantou em 2018 conquistando mais um título do carnaval capixaba . Crédito: Fernando Madeira
Sob forte chuva, a MUG encantou em 2018 conquistando mais um título do carnaval capixaba . Crédito: Fernando Madeira

"Osvaldo rendeu-se aos desejos da diretoria, apostando nas cores vermelho e branco e no leão, nosso símbolo maior. Vimos a MUG apresentar uma “chegada” com cara de MUG", defende, dizendo que a ousadia daquele desfile (para ele inesquecível) ficou na comissão de frente, que trazia uma trupe mambembe representando a Commedia Dell'arte, com números de ilusionismo e várias trocas de personagens.

Teatralizar comissões de frente com efeitos de ilusionismo foi uma tendência da década de 2010, impulsionada pela agremiação Unidos da Tijuca, do Rio de Janeiro, e pelo carnavalesco Paulo Barros.

"Entre empurradores, artistas, destaques e dançarinos, foram 30 pessoas que se alternavam em apresentações, cumprindo o regulamento de manter apenas 15 membros aparentes. Um exercício e tanto na avenida! Esse campeonato teve um sabor especial pelo fato de desfilarmos sob forte chuva, o que não tirou o brilho da apresentação", complementa.

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