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Com toques de neorrealismo, "Veneza" estreia nos cinemas do ES

Filme de Miguel Falabella conta com elenco recheado de astros, como Carmem Maura, Dira Paes, Edu Moscovis, Carol Castro e Danielle Winits

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 17/06/2021 às 02h00
O belo drama
O belo drama "Veneza", de Miguel Falabella, estreia nos cinemas do ES nesta quinta-feira (17). Crédito: Imagem Filmes

É impossível definir "Veneza", longa-metragem de Miguel Falabella que estreia nos cinemas do Estado nesta quinta-feira (17), sem resgatar reminiscências cinéfilas. Há claros elementos "felinianos" (uma referência aos filmes do diretor italiano Federico Fellini) na narrativa, como as "damas da noite" humanizadas, a poética trupe circense e a aposta no lirismo e realismo fantástico como elementos para fugir da dura ralidade do cotidiano. A sensação é de estarmos perante a um filme que resgata a essência do neorrealismo.

Mas, em um projeto do multifacetado Miguel Falabella - lançando seu segundo trabalho atrás das câmeras após "Polaroides Urbanas" (2008) -, há um plus. Como investir em uma trama que fala basicamente de sonhos frustrados ou será de sonhos que um dia desejamos realizar? Soa filosófico, mas o próprio diretor fez questão de explicar, em coletiva para o lançamento do longa-metragem, que contou com a participação do "Divirta-se".

"É um filme poético, inspirado nas fábulas latinas, que permite encher a vida de metáforas", comenta, para detalhar um pouco da história. "Conta o desejo de um grupo de prostitutas em realizar o sonho da mulher que as acolheu, que é rever o amor de sua vida, que um dia ela desprezou, antes da morte. É um filme profundo, que permite o brasileiro voltar a sonhar, mesmo na fase complicada, tanto política como social, em que estamos vivendo", afirma, visivelmente emocionado.  

Rodado no Uruguai - e com locações na Itália -, "Veneza" mostra um Miguel mais maduro, com capacidade "cirúrgica" de dirigir atores, sem os seus habituais excessos, evitando cair nos exageros ou no melodrama. Belo, mas profundamente triste.

A história é realista.  Reencontrar o único homem que amou é o sonho de Gringa (Carmen Maura, brilhante atriz espanhola musa de Pedro Almodóvar), dona de um bordel no interior do Brasil. Mesmo cega e muito doente, ela insiste em realizar seu último desejo: ir até Veneza para pedir perdão ao amante que abandonou décadas atrás. Para levá-la à cidade italiana, Tonho (Eduardo Moscovis), Rita (Dira Paes) e as outras moças que trabalham para Gringa (entre elas Carol Castro e Danielle Winits) idealizam um fantástico plano com a ajuda de uma trupe circense.

O texto é baseado na peça argentina de mesmo nome, escrita por Jorge Accame, que Falabella encenou anteriormente tendo Arlete Salles como protagonista. A premiada atriz Norma Aleandro (de "O Filho da Noiva" e "A História Oficial") era a primeira opção para viver gringa na telona. De acordo com Falabella, a diva do cinema argentino, aos 83 anos, não se sentiu à vontade para fazer o papel. Surgiu, então, o nome de Carmem Maura.

Cena do filme
Cena do filme "Veneza". Crédito: Imagem Filmes

"É uma atriz obstinada, que abraçou o projeto. Ficava horas ensainhando o 'portunhol' da personagem. Seu companheirismo e segurança envolveu os atores que participaram do filme", relembra.

"Enviei o roteiro para ela, meio descrente. Fiquei surpreso quando me telefonou dizendo aceitar o papel. Carmem venceu todos os desafios, até a dificuldade de vir para participar das filmagens."

TALENTO

Um dos destaques da trama, Carol Castro tem uma de suas melhores atuações como a prostituta Madalena, que sonha sair da vida difícil - que ela chama de "desgraçada' - usando o amor de um doce rapaz, Julio (Caio Manhente), que deseja vestir-se de mulher e sofre com a homofobia do pai, interpretado por Roney Villela.

"Tinha acabado de ser mãe (as gravações ocorreram em 2018) e passava por um momento muito sensível, pois não me via como mulher, mas sim como mãe. No filme, Madalena quer viver um amor sem rótulos, materno, com uma ânsia enorme de viver seus sonhos", aponta a intérprete, que, pelo papel, venceu o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Gramado/RS, em 2019.

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Em "Veneza", Carol Castro interpreta a prostituta Madalena. Crédito: Mariana Vianna

De acordo com Miguel Falabella, a relação de Madalena e Julio nasceu de uma história presenciada por ele. "Uma vez conheci uma prostituta que era casada com uma travesti, em uma relação de muita cumplicidade. Ao mesmo tempo, resgatar essa relação no filme nos leva a refletir que o Brasil é um dos países onde mais se mata transsexuais e travestis. Achei importante levar esse questionamento para as telas", enfatiza.

Muito emocionado, Edu Moscovis afirmou que participar de "Veneza" foi uma espécie de resistência da classe artística, que, de acordo com ele, sofre vários ataques por parte de uma parcela da sociedade.

Miguel Falabella dirige elenco de
Miguel Falabella dirige elenco de "Veneza". Crédito: Imagem Filmes

“Nós artistas sabemos da dificuldade que é sobreviver da arte e das nossas crenças. Ao contrário do que muitos pensam, nossa vida não é fácil. Não temos dinheiro sobrando, não roubamos o dinheiro de ninguém. Tudo o que fazemos é para levar um sopro de possibilidade, esperança e beleza à sociedade", desabafou, sem esconder as lágrimas. 

Miguel afirma estar cheio de projetos. Entre seus próximos trabalhos, estão a série "O Coro", para a Disney+, sobre jovens talentos que buscam o estrelato no teatro musical, e o espetáculo "Marrom - O Musical", sobre a vida de Alcione.

"Adoro fazer cinema, mas é complicado, pois demanda muito do meu tempo. Também é difícil captar recursos. Os patrocinadores me veem como um homem de comédias populares. Se o projeto não é do gênero, ninguém quer investir", lamenta, afirmando que pretende fazer um filme sobre guerrilhas no Brasil. "Mas vai ser com pouco dinheiro. Vamos ver como vai sair", complementa. 

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