Para muitos candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), é só na última semana que "a ficha cai". Mas o que torna esses últimos dias tão diferentes?
A reportagem de A Gazeta conversou com a especialista em Educação e Psicanálise Clínica Lívia Scheiner para entender como a mente dos candidatos reage nesta época do ano. De acordo com a psicanalista, a aproximação da prova é o que causa que o corpo reaja antes da mente.
"O quanto antes, os jovens podem prestar atenção à reação do corpo, mesmo sem compreender, ainda, o porquê reagem daquela forma. É fundamental que a pessoa comece a perceber as sensações que as reflexões a respeito da prova vão produzindo no próprio corpo. Algumas delas podem ser mãos e pés frios, frio na barriga durante os aulões e simulados, desconforto gástrico, dor de cabeça, insônia, perda de apetite ou comer por impulso", afirma.
A psicanalista identifica três origens principais para os picos de ansiedade nesta fase:
- a cobrança por desempenho, como a autoexigência, comparação com colegas, pressão da família e da escola, e até a expectativa de seguir uma tradição profissional familiar;
- a “falsa expectativa” de que a entrada na faculdade vai definir o resto da vida;
- e a sensação de nunca estar suficientemente preparado, quadro que Lívia compara à síndrome do impostor.
A orientação dada pela especialista, nesses casos é, tratar o Enem como uma oportunidade não única, em vez de encará-lo como uma sentença. “De forma realista, o Enem é uma oportunidade que se repete a cada ano, não é a última nem a única. Ter isso em mente já é meio caminho andado. Além disso, vale se policiar para trocar a lógica da cobrança pela lógica do desejo: pensar na faculdade como a entrada em um universo de experiências novas, não apenas como uma obrigação para o mercado de trabalho", explica.
Para Lívia, parte da pressão sobre o candidato vem da própria família, que deveria rever as próprias expectativas.
Às vezes, não é o jovem que precisa alinhar suas expectativas, mas a família. O entorno desse jovem deve rever o sentido do sucesso, para que esse adolescente se sinta menos pressionado a ser um 'superestudante' ou um 'superprofissional' lá na frente
Lívia Scheiner, especialista em Educação e Psicanálise Clínica
A orientação para pais e responsáveis é focar o bem-estar de seus filhos, e não só o desempenho; e garantir não apenas horas de estudo sem distração, mas também sono, alimentação e momentos de lazer. Nesse sentido, acrescentou, respeitar as escolhas acadêmicas e profissionais é fundamental.
"É preciso que o contexto familiar comece a pensar em respeitar as escolhas [do aluno], confiando que ele tem em si uma potência de agir pelo seu próprio desejo. O jovem pode ter mais sucesso escolhendo pelo seu próprio desejo do que fazendo escolhas determinadas por outros", diz.
A psicanalista também explica que o “branco”, como popularmente é chamado o esquecimento de uma informação durante a prova, funciona como um mecanismo de defesa. Diante de uma sensação de ameaça, o corpo libera cortisol e noradrenalina, o que reduz a atividade do córtex pré-frontal, que é a região responsável por raciocínio complexo.
“Sob ameaça, o cérebro entende que não é o momento de fazer cálculos ou raciocínios complexos; é o momento de fugir. É por isso que vem o branco: ele é, na verdade, uma tentativa de nos proteger de um perigo”, detalha.
Para retomar o controle, algumas técnicas de respiração, feitas em poucos minutos, podem avisar ao corpo que não há perigo real e ele pode relaxar.
Para os momentos de pico de ansiedade, inclusive dentro da sala de aula, Lívia Scheiner ensina duas técnicas simples:
1) Técnica 4-2-6: inspirar pelo nariz por quatro segundos, segurar o ar por dois segundos e soltar lentamente pela boca em seis segundos.
“A expiração lenta é mais importante até do que a inspiração. Se o aluno conseguir simplesmente encher os pulmões, segurar alguns segundos e soltar o ar devagar pela boca, isso já ajuda bastante."
2) Ancoragem: sentar-se firme na cadeira, sentindo as pernas em contato com o assento e as costas contra o encosto. Isso “informa aos nossos circuitos neurais que estamos seguros”. Ela recomenda praticar essas técnicas ao longo da última semana antes da prova, com apoio de aplicativos de respiração guiada ou meditações curtas de cinco a 10 minutos.