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Luiz Fernando Mello Leitão

Artigo de Opinião

É diretor da Ene Inteligência Empresarial
Luiz Fernando Mello Leitão

Cultura, internacionalização e o desafio de fazer negócios em Portugal

Quem trabalha com expansão para outros países lida com diferenças culturais entre empresas, mercados, consumidores, órgãos públicos e parceiros locais
Luiz Fernando Mello Leitão
É diretor da Ene Inteligência Empresarial

Publicado em 05 de Novembro de 2026 às 10:00

Publicado em 

05 nov 2026 às 10:00

Cultura é o conjunto de hábitos, valores e costumes de um grupo social. São comportamentos aprendidos por observação, muitas vezes sem reflexão consciente. Quem cresceu dizendo “bença, Vó” não costuma questionar o “poder” da avó de abençoar alguém; apenas repete o gesto e, mais tarde, tende a esperar o mesmo dos próprios netos.


Esse mecanismo se repete em todos os grupos: família, escola, amizades e, depois, nas empresas em que trabalhamos e com as quais fazemos negócios.


Cada organização tem seu jeito de se comunicar, suas hierarquias formais e informais, rituais, estilos de liderança e regras silenciosas sobre o que “pega bem” ou “pega mal”. Entender essa cultura e ajustar a forma de atuar a ela costuma ser decisivo para o sucesso. Negociar com uma empresa familiar do interior é muito diferente de negociar com uma multinacional alemã; a estratégia de relacionamento, o ritmo da negociação e até o tom dos emails mudam.

Portugal Crédito: Divulgação

Na internacionalização, essa complexidade se multiplica. Quem trabalha com expansão para outros países lida com diferenças culturais entre empresas, mercados, consumidores, órgãos públicos e parceiros locais. Não é só o “o quê” se vende que muda, mas principalmente o “como”: a abordagem a potenciais clientes, o peso dado ao contrato escrito versus à palavra, o nível de formalidade nas reuniões, o tempo entre a primeira conversa e o fechamento, o valor da reputação local e das indicações pessoais.


Pequenos gestos de respeito – ou sinais de descuido cultural – podem abrir portas ou fechálas de vez. Detalhes como vestimenta, uso de primeiro nome ou tratamento formal, mistura de temas pessoais e profissionais e o grau de objetividade na conversa tornamse parte da estratégia.


A prática mostra que esses fatores comportamentais são tão importantes quanto preço, produto ou tecnologia. Uma proposta tecnicamente perfeita pode ser recusada se o estilo for percebido como agressivo, informal ou distante demais do padrão local. Já empresas com soluções medianas, mas boa leitura cultural, constroem relações de confiança que garantem posição privilegiada no médio e longo prazo.


Portugal é um bom exemplo desse desafio. A língua em comum cria uma sensação de proximidade que muitas empresas brasileiras consideram o pais como simples extensão do Brasil. Na prática, não é assim. Mesmo compartilhando o idioma, Brasil e Portugal diferem na forma de se comunicar, nas expressões do dia a dia, na intensidade emocional da conversa, no humor, na maneira de dar feedback e na forma de tomar decisões. Há diferenças de hábitos de consumo, de expectativas sobre prazos e qualidade, de postura em reuniões e de formalidade nas relações profissionais.

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Até dentro da própria língua existem armadilhas: palavras iguais com sentidos diferentes, expressões que soam naturais em um país e inadequadas no outro, nuances de respeito ou ironia na entonação. Somam-se a isso características da cultura corporativa portuguesa, em que a confiança costuma ser construída de forma gradual, a decisão pode ser mais centralizada e a comunicação tende a ser mais contida. O profissional de internacionalização precisa aprender a ler esses sinais, respeitar o tempo do outro e ajustar o ritmo da abordagem.


Ao mesmo tempo, Portugal vive um momento especialmente atraente. O país se consolidou como um dos ecossistemas mais dinâmicos da Europa em serviços e tecnologia, atraindo centros de desenvolvimento, startups, nômades digitais e investimentos estrangeiros.

 

Lisboa e Porto aparecem com frequência em rankings internacionais de inovação, ambiente de negócios e qualidade de vida. O fluxo de capital estrangeiro cresce, apoiado em estabilidade política, infraestrutura digital, incentivos setoriais e custos competitivos em relação a outros países da União Europeia.


Para empresas brasileiras, o cenário é ainda mais promissor. Além da afinidade histórica e linguística, Portugal oferece acesso direto ao mercado europeu, com segurança jurídica e boa integração logística, além de fuso horário alinhado com os principais centros do continente. Ao mesmo tempo, o país precisa de novos serviços, tecnologias e modelos de negócio para sustentar esse ciclo de crescimento. Negócios que fazem o “dever de casa” cultural encontram um ambiente receptivo e aberto a parcerias de longo prazo.


No fim, quem trabalha com internacionalização aprende que cultura não é detalhe, é estratégia. Em países que falam a mesma língua, as diferenças aparecem justamente nas entrelinhas: nas palavras que parecem familiares, mas significam outra coisa; na forma de dizer “sim”, “não” ou “talvez”; nos códigos não escritos de cada reunião. Internacionalizar, portanto, é aprender a dizer “bença, Vó” em cada mercado, não copiando o que se faz em casa, mas descobrindo, em cada país, quais gestos constroem respeito, confiança e vontade genuína de fazer negócios juntos.

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