Rolar o feed virou o novo modo de espera, e sustentar a atenção em qualquer outra tarefa ficou cada vez mais difícil. Para especialistas, o problema não é a redução da capacidade de aprendizagem das novas gerações, mas a forma com que as plataformas digitais exploram sinais primitivos do cérebro para manter o usuário rolando sem parar. A boa notícia é que, assim como qualquer habilidade física, a atenção pode ser treinada com prática diária.
Luana Bastos do Nascimento Rosa, coordenadora do curso de Pedagogia da Multivix Vitória, explica que a dificuldade em manter o foco na era digital vem de um conflito de lógicas. “O scroll não tem ponto de chegada. Já o estudo é uma ponte que precisa ser construída pelo jovem. Por isso, é tão exaustivo para o cérebro migrar de uma tela de entretenimento infinito para seguir uma rota fixa”, analisa.
A explicação ajuda a elucidar outro mito, o da “multitarefa”. Na realidade, o cérebro apenas alterna rapidamente entre tarefas, o que desgasta a capacidade de concentração.
“Dar uma ‘olhadinha’ no Instagram enquanto estuda é um roubo de combustível mental. Isso mostra que o novo paradigma não mudou a inteligência dos jovens, e sim a tolerância deles ao tédio, ao descanso dos estímulos”, observa.
Para que a tolerância ao tédio possa ser reconstruída, é necessário entender, primeiro, por que o cérebro cede com tanta facilidade à tela. Kelly Guimarães Tristão, doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), aponta que o objetivo do scroll (do inglês, rolar ou rolagem) é mexer diretamente com os nossos botões de sobrevivência.
“Um exemplo está nos próprios ícones de notificação do celular. A maioria é vermelha, cor que representa urgência em nosso instinto primitivo de alerta”, pontua a especialista, que também é membro da Comissão de Psicologia Clínica do Conselho Regional de Psicologia da 16ª Região (CRP-ES).
O autoplay, função de reprodução automática de mídia em plataformas digitais, é outro vilão do foco. “Antigamente, uma página na internet tinha fim. O scroll é feito para que o cérebro do usuário nunca encontre um fim, uma meta”, afirma a psicóloga. Esse design, complementa, encontra terreno fértil na adolescência: “A tela vira um refúgio, e a rolagem automática age como anestesia, que não cura, apenas aprisiona as dores dos jovens.”
Apesar da gravidade desse quadro, a especialista é otimista. “A atenção pode ser treinada, como passar de uma fase difícil no videogame. Com prática diária, você recupera o controle do seu próprio tempo”, aconselha.
Fisioterapia da atenção: métodos para reeducar o foco
- Mapeie o uso do celular: sem julgamento, observe quantas vezes você pega no aparelho ao estudar.
- Elimine os gatilhos: para se concentrar melhor, silencie as notificações e deixe o celular em outro cômodo ou no modo avião.
- Trabalhe em blocos: faça sprints curtos, com pausas entre eles, aumentando o tempo aos poucos.
- Seja realista: evite cortes radicais para não criar frustração.
- Priorize o descanso: durma bem para organizar memórias e restaurar o cérebro.
- Treine o autocontrole: sentiu vontade de olhar o celular? Respire e volte à atividade.
- Fixe horários: reserve momentos específicos do dia para as redes sociais.
- Procure ajuda: um psicoterapeuta pode ajudar a organizar e processar os sentimentos.
Fonte: Luana Bastos do Nascimento Rosa, coordenadora do curso de Pedagogia da Multivix Vitória; e Kelly Guimarães Tristão, doutora em Psicologia pela Ufes
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