Um país que deixa de ler não perde apenas leitores. Perde oportunidades de formar cidadãos capazes de interpretar sua história e questionar o presente. No dia 29 de outubro foi comemorado o Dia Nacional do Livro e a data nos convida a uma reflexão que vai muito além da literatura: o que acontece com uma sociedade quando a leitura deixa de fazer parte da vida das pessoas? A resposta não está apenas nas estantes vazias ou nos livros esquecidos, mas também na maneira como compreendemos o mundo, construímos nossas opiniões e exercemos nossa cidadania.
A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, revelou que 53% dos brasileiros não leram nem sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Pela primeira vez na série histórica, os não leitores se tornaram maioria no país. Entre 2019 e 2024, o Brasil perdeu aproximadamente 6,7 milhões de leitores. Os números preocupam não apenas pelo distanciamento da literatura, mas pelo que representam para a formação intelectual e cultural da população.
Existe, porém, um paradoxo no cenário literário brasileiro. Enquanto a pesquisa revela uma queda no número de leitores, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo encerrou sua edição de 2026 com o maior público de sua história: 760 mil visitantes. O evento também registrou crescimento de 57% na média diária de faturamento dos expositores em comparação com 2024.
Os números mostram que os livros continuam despertando interesse, movimentando a economia e reunindo multidões. Mas também provocam uma pergunta: se somos capazes de lotar uma bienal, por que ainda encontramos tantas dificuldades para transformar a leitura em parte da nossa rotina?
Um país que lê pouco compromete muito mais do que seus índices de leitura. Compromete oportunidades de desenvolver o pensamento crítico, conhecer a própria história, interpretar informações e questionar aquilo que lhe é apresentado como verdade.
A leitura não é a única forma de adquirir essas habilidades, mas é uma das ferramentas mais importantes para construí-las. Quando deixamos de ler, também corremos o risco de nos tornar mais vulneráveis à desinformação, aos discursos simplistas e às opiniões prontas que circulam diariamente pelas redes sociais.
Uma sociedade que não desenvolve o hábito de interpretar textos, confrontar ideias e compreender diferentes perspectivas encontra mais dificuldades para exercer plenamente sua cidadania. Afinal, como questionar uma informação que não conseguimos interpretar? Como compreender o presente sem conhecer o passado? Como construir opiniões próprias quando nos acostumamos apenas a reproduzir o que os outros dizem?
É curioso pensar que nunca tivemos tantas possibilidades de acessar informação. Carregamos bibliotecas inteiras no bolso, encontramos respostas em segundos e consumimos diariamente uma quantidade imensa de palavras.
Lemos mensagens, legendas, notícias, comentários e publicações nas redes sociais. Mas será que consumir tantas palavras significa, necessariamente, que estamos lendo melhor?
A leitura de um livro exige algo que parece cada vez mais raro: permanência. É preciso aceitar o ritmo de uma narrativa, acompanhar um pensamento, passar páginas que nem sempre oferecem respostas imediatas, mas pede paciência. Diferentemente da lógica das redes sociais, em que um movimento dos dedos nos leva rapidamente ao próximo conteúdo, um livro nos convida a ficar.
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Não se trata de transformar a tecnologia em vilã. Ela ampliou o acesso a obras, aproximou autores de leitores e criou novas possibilidades para a literatura. O problema começa quando nos acostumamos tanto com a velocidade que qualquer atividade que exija concentração passa a parecer cansativa.
Também seria injusto atribuir a queda da leitura apenas à falta de interesse. Em um país marcado por desigualdades, jornadas extensas de trabalho e dificuldades de acesso à cultura, ler não depende exclusivamente de vontade.
Já no Espírito Santo, os dados de 2024 mostram que 53% da população capixaba foi classificada como leitora, percentual superior à média nacional de 47%. Ainda assim, o indicador mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer.
Precisamos nos perguntar como transformar o contato com os livros em um hábito duradouro, que ultrapasse as exigências escolares e faça parte da vida adulta.
As políticas públicas de incentivo à leitura, bibliotecas vivas, escolas que apresentem os livros desde a primeira infância, tudo isso é importante. Mas também precisamos recuperar, individualmente, a disposição de dedicar alguns minutos do dia a uma história. Simplesmente pelo prazer de ler.
E um dos maiores poderes dos livros está justamente na possibilidade de nos apresentar a vidas que nunca viveremos, lugares que talvez nunca conheceremos e sentimentos para os quais ainda não encontramos palavras. A literatura nos permite experimentar outras perspectivas sem abandonar a nossa própria história.
Em um mundo que valoriza respostas rápidas, produtividade e resultados, a literatura nos oferece perguntas. Nem sempre saímos de um livro sabendo mais sobre determinado assunto. Às vezes, saímos apenas enxergando a vida de outra maneira. E isso também é uma forma de conhecimento.
Talvez o maior risco de um país que lê cada vez menos não seja apenas a perda de leitores, mas a diminuição das oportunidades de imaginar outras realidades, confrontar ideias e reconhecer a complexidade da experiência humana.
Os livros não oferecem soluções para todos os nossos problemas. Mas nos ajudam a formular perguntas melhores.
E, em tempos de tantas respostas prontas, talvez seja justamente disso que mais precisamos.