É comum ouvir que o brasileiro precisa ler mais. A conversa fica difícil quando a pergunta muda para o que estamos fazendo para isso acontecer. Quase sempre a resposta volta para a própria pessoa: falta interesse, falta disciplina, sobra tempo no celular. Explica pouco.
Cada um chega aos livros de um jeito. Tem criança que ouve história antes de dormir, vai à biblioteca e escolhe um livro porque gostou da capa. Tem criança que cresce com quase nenhum livro em casa e vira adulta achando que ler é coisa da escola, uma obrigação que acabou quando acabaram as provas. Discutir formação de leitores sem levar isso em conta é começar pela metade.
E a vida adulta não facilita. Quem passa horas no ônibus, trabalha o dia todo e ainda cuida da casa e de outras pessoas pode chegar à noite sem energia para abrir um livro. Quem quer comprar um e precisa usar o dinheiro em outra coisa não está sem força de vontade. Está fazendo conta.
Se a literatura é um direito, isso precisa aparecer na cidade. Biblioteca aberta em horário em que o trabalhador consegue ir, acervo atualizado, gente preparada para atender, projeto de leitura que dure mais que um mês. Onde nada disso existe, ou existe mal, encontrar um livro passa a depender de quanto se ganha e de onde se mora.
Isso é tarefa do poder público. Campanha em data comemorativa ajuda a lembrar do assunto, mas não substitui orçamento, manutenção e trabalho o ano inteiro. E biblioteca não é só estante. Precisa de alguém que conheça o acervo e converse com quem entra.
Nós, que vendemos livros, também temos o que rever. Uma livraria pode assustar quem não conhece autores, não acompanha lançamentos ou não sabe explicar o que procura. Se a pessoa acha que vai ser julgada, ela não pede indicação. Muitas vezes nem entra.
Famílias e escolas têm um papel grande, só que também precisam de apoio. Muitos pais não tiveram quem lesse com eles e não sabem por onde começar com os filhos. Cobrar que façam isso sozinhos é empurrar a responsabilidade mais uma vez, como acontece em tanta discussão sobre educação.
Claro que ler é também uma escolha pessoal, e ninguém decide pelo outro o que vai despertar interesse. Mas as possibilidades de escolha dependem das oportunidades de conhecer e experimentar.
Neste Dia Nacional do Livro, vale indicar títulos e celebrar autores. Vale também perguntar quem ainda não consegue chegar até eles, e por quê. A resposta passa pelo preço do livro, pelas bibliotecas, pelas escolas e pela rotina de quem a gente vive cobrando.