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Netflix recria experimento controverso de Stanford: estudo abusivo pode virar reality show?

O serviço de streaming transformou o Experimento de Aprisionamento de Stanford, controverso estudo de 1971 do psicólogo americano Philip Zimbardo, em uma série de reality show de seis episódios, reacendendo um antigo debate.

Publicado em 02 de Novembro de 2026 às 18:33

BBC News Brasil

Publicado em 

02 nov 2026 às 18:33
Imagem BBC Brasil
No 'Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford', 30 voluntários são divididos entre guardas e prisioneiros numa ala desativada de uma prisão real Crédito: Netflix

Mais de meio século depois de um dos estudos mais famosos e controversos da psicologia ter sido encerrado prematuramente em meio a alegações de abuso e grave sofrimento emocional entre os voluntários, o Experimento de Aprisionamento de Stanford foi recriado em uma série de reality show da Netflix com seis episódios.

No Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford, 30 voluntários são divididos entre guardas e prisioneiros numa ala desativada de uma prisão real, prometendo uma versão moderna do estudo de 1971 do psicólogo americano Philip Zimbardo.

O lançamento, ocorrido em 21 de outubro, reacendeu o debate sobre o experimento original e levantou novas questões sobre a linha tênue entre ciência e entretenimento.

Zimbardo, então professor da prestigiada Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, queria explorar como as pessoas reagiam à autoridade e ao confinamento.

Ele recrutou 24 jovens, designando-os aleatoriamente para interpretar prisioneiros ou guardas em uma prisão simulada no porão do departamento de psicologia de Stanford.

Previsto para durar duas semanas, o experimento foi interrompido após apenas seis dias.

De acordo com Zimbardo, alguns guardas tornaram-se cada vez mais autoritários e abusivos, enquanto vários prisioneiros sofreram graves problemas emocionais.

Imagem BBC Brasil
No experimento original de Zimbardo, os prisioneiros eram obrigados a usar batas curtas com números de identificação Crédito: PrisonExpo.org

As conclusões foram amplamente consideradas prova de que pessoas comuns podiam se comportar de forma cruel em posições de poder e em ambientes opressivos.

O estudo entrou para os livros didáticos de psicologia e inspirou filmes e documentários. Mas os críticos dizem que ele era falho e não deve ser tratado como evidência confiável.

Segundo alguns, os participantes foram influenciados pelas expectativas dos pesquisadores, conhecidas como "características da demanda", em vez de se comportarem espontaneamente.

Também surgiram questionamentos sobre o papel duplo de Zimbardo como pesquisador principal e superintendente da prisão, e até que ponto os guardas eram incentivados a se comportar de certas maneiras.

Mas Scott Plous, aluno de Zimbardo em Stanford e agora professor de psicologia na Universidade Wesleyan, nos Estados Unidos, afirma que as alegações de que Zimbardo influenciou indevidamente o comportamento dos participantes foram "desmentidas há muito tempo".

No entanto, muitos estudiosos contestaram essa interpretação. E mesmo Plous, que permaneceu amigo próximo de Zimbardo até sua morte, em 2024, concorda que a ética do estudo era profundamente falha.

Imagem BBC Brasil
Os guardas no experimento original submeteram os prisioneiros a várias humilhações Crédito: PrisonExpo.org

"O experimento da prisão de Stanford sofreu de duas falhas cruciais em relação à ética de pesquisa moderna, ambas reconhecidas publicamente pelo próprio Professor Zimbardo", disse ele à BBC.

"Os prisioneiros e guardas simulados não foram totalmente informados sobre os riscos da participação... e foram levados a acreditar que não podiam abandonar o estudo."

A Universidade de Stanford reconheceu que o experimento não seria aprovado segundo os padrões de pesquisa modernos.

O próprio estudo da BBC sobre prisões, conduzido em 2002 pelos psicólogos sociais Alex Haslam e Stephen Reicher e transmitido como uma série documental, também atribuiu aos participantes os papéis de guarda e prisioneiro, mas chegou a conclusões diferentes.

Em vez de os guardas se tornarem inevitavelmente opressores e os prisioneiros submissos, os pesquisadores descobriram que a identidade de grupo, a liderança e a ação coletiva moldavam o comportamento.

Eles sugeriram que a tirania não era uma consequência automática do poder, mas surgia apenas sob certas condições sociais.

Imagem BBC Brasil
De modo geral, as críticas da imprensa especializada sugerem que o 'Novo Experimento da Prisão de Stanford' é mais eficaz como entretenimento social do que como experimento de ciência comportamental Crédito: Netflix

Plous afirma que as comparações entre os dois estudos são frequentemente enganosas.

"O estudo da BBC sobre prisões foi amplamente mal interpretado como uma tentativa de replicar o experimento da prisão de Stanford", afirma ele.

Para combater essa interpretação errônea, pesquisadores de ambos os projetos emitiram uma declaração em 2018 afirmando que o estudo da BBC "não é uma replicação direta do estudo anterior".

Mas tanto o estudo da BBC quanto a série da Netflix são inevitavelmente moldados pelo legado do experimento original, afirma Noah Cohen, professor associado de estudos policiais na Western Sydney University, na Austrália.

"O simples fato de essas recriações terem sido modeladas a partir de um estudo tão conhecido prejudicará qualquer variação futura", afirma ele.

Atribuir poder arbitrário aos participantes em um ambiente prisional também pode gerar "frustração e tensão", dificultando a obtenção de resultados científicos significativos.

As críticas da imprensa também sugeriram, de modo geral, que o Novo Experimento da Prisão de Stanford funciona melhor como entretenimento social do que como ciência comportamental.

O programa "pretende ser científico", mas "trata-se de um reality show condescendente", afirma o jornal britânico The Guardian, com os participantes "atuando para as câmeras" em vez de se comportarem naturalmente.

Imagem BBC Brasil
No experimento original, os prisioneiros eram alojados em celas estéreis Crédito: PrisonExpo.org

O americano New York Times, por sua vez, chama a série de "uma sentença dura".

"Você é basicamente condenado ao tédio, assistindo a um programa que não é tão escandaloso quanto você poderia temer, nem tão edificante quanto seus criadores gostariam", ironiza o jornal.

Apresentado em seu episódio de estreia como uma melhoria em relação ao experimento de 1971, prometendo "nenhuma interferência, nenhum viés, apenas observação", na verdade envolve muito mais interferência do que o original, diz Plous - entrevistas com prisioneiros e guardas realizadas enquanto as filmagens estavam em andamento, câmeras e microfones de boom à vista de todos e "intervenções" encenadas destinadas a provocar "medo, humilhação, raiva e ressentimento".

Em todo caso, qualquer tentativa de recriar o experimento de Stanford enfrenta um problema fundamental.

"Se aceitarmos o princípio ético de que as pessoas devem sempre ter a liberdade de interromper sua participação em um estudo, inclusive um estudo exibido na TV, torna-se impossível simular com precisão a experiência de um prisioneiro que está realmente encarcerado", afirma Plous.

Imagem BBC Brasil
Diferentemente do experimento original, a série da Netflix conta com um elenco composto por homens e mulheres Crédito: Netflix

Os participantes da Netflix podiam sair a qualquer momento dizendo a palavra de segurança "abacaxi", que um detento descreveu como uma opção para "sair da prisão". Em 1971, no entanto, os participantes foram levados a acreditar que não podiam sair.

"Essa diferença significa que os prisioneiros da Netflix não foram realmente presos de uma forma significativa", diz Plous.

Cohen afirma que a Netflix aproveitou pouco do trabalho de Zimbardo, além do uso do nome do experimento da prisão de Stanford e de algumas diretrizes básicas.

"Foi intencionalmente orientado para o envolvimento e a audiência", diz ele, "concebido não para fins de estudo, mas para entretenimento."

Suas fases estruturadas, a dinâmica de poder em constante mudança e o foco no "discurso e na discórdia entre grupos" são concebidos para "amplificar a tensão" em vez de gerar descobertas científicas significativas.

'Fracassou espetacularmente'

Segundo a Netflix, os participantes foram submetidos a avaliações psicológicas e tiveram acesso a psicólogos durante toda a filmagem.

A produtora executiva Jane Lipsitz afirma que sua equipe passou mais de um ano desenvolvendo o projeto e criando medidas de segurança que não constavam no estudo original.

"Quando a série foi anunciada pela primeira vez, houve muita indignação com a ideia de alguém sequer tentar repetir o experimento da prisão de Stanford - e, considerando o que aconteceu com a versão original, eu entendo completamente essa reação", disse ela à Netflix.

"Se estivéssemos simplesmente recriando o experimento original, isso seria inconcebível."

Plous não está convencido.

"No geral, achei que a série da Netflix funcionou bem como reality show", disse ele.

"Mas quando se tratou de 'repetir a experiência', como o programa alegou ter feito, falhou espetacularmente."

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