A cena é comum no ônibus, na sala de espera do consultório, no restaurante e em vários outros espaços: pessoas com seus celulares em mãos, alternando o uso entre diversos aplicativos e postagens nas redes sociais. Em uma realidade na qual o aparelho se transformou em uma extensão da vida pessoal, um ambiente foi diretamente afetado pelo excesso de informação, a sala de aula.
Afinal, na era da economia da atenção, em que essa função se torna cada vez mais escassa em meio ao volume massivo de conteúdos disponíveis on-line, professores e gestores escolares têm encontrado desafios para reter a concentração de alunos no modelo de escola tradicional, com carteiras enfileiradas, quadro à frente, professor falando e alunos sentados, apenas ouvindo.
Para a professora Cleonara Schwartz, do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a transformação está relacionada também ao ambiente em que crianças e adolescentes estão inseridos. Segundo ela, estudantes que cresceram expostos a vídeos curtos, notificações, jogos e outros estímulos digitais chegam à escola acostumados a uma dinâmica de respostas rápidas e recompensas imediatas.
“A necessidade de reinventar o ensino surge porque os estudantes atuais, nascidos após os anos 2000, apresentam uma funcionalidade cerebral moldada por estímulos digitais rápidos e interações mediadas pela tecnologia. Acostumados a recompensas imediatas e telas, eles enfrentam a economia da atenção, em que plataformas digitais disputam seu foco. Isso cria uma atenção fragmentada e superficial, dificultando tarefas que exigem esforço cognitivo prolongado, como leituras complexas”, pontua Cleonara, também doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).
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Para driblar essa realidade no Espírito Santo, escolas têm buscado caminhos para tornar o processo de aprendizagem mais dinâmico. Aulas de campo, cultura maker, jogos, debates, projetos, ferramentas digitais e até espaços específicos para ensinar os alunos a estudar passaram a fazer parte das estratégias.
No Centro Educacional Leonardo da Vinci, a aposta passa pela diversificação das experiências. A escola utiliza recursos digitais de forma intencional, mas procura evitar que a tecnologia seja um fim em si mesma: na educação infantil, há ateliês multifuncionais, cozinha experimental e oficinas; no ensino fundamental, uma Estação Biológica reúne aquário, borboletário e herbanário; no ensino médio, o espaço maker Bottega permite desde o uso de ferramentas tradicionais até impressoras 3D.
A instituição também promove iniciativas que envolvem pesquisas de campo, viagens acadêmicas, robótica, realidade virtual, inteligência artificial, gamificação e estudos de caso. A ideia é associar diferentes ferramentas a situações reais e ao debate, aumentando o envolvimento dos estudantes.
“Em termos de metodologia de avaliação, a novidade mais recente é o Cycle Test, que consiste em avaliações reduzidas, as quais alunos fazem semanalmente, mantendo-os sempre engajados em ritmo de estudo. Oferecemos aqui também aulas de Mindfulness, para estimular a atenção plena e aumentar a memória e o raciocínio. Também damos muita atenção aos aspectos socioemocionais, que ajudam a controlar a ansiedade, comum especialmente na adolescência”, cita Mário Broetto, diretor do Centro Educacional Leonardo da Vinci, do grupo Inspired Education.
No Centro Educacional Primeiro Mundo, em Vila Velha, a resposta também tem sido colocar o estudante mais vezes como protagonista da aula. A diretora Juliana dos Santos explica que a orientação é combinar momentos de exposição com experimentações, debates, trabalhos em dupla ou grupo e projetos que envolvam efetivamente os alunos.
“Pesquisas atuais asseguram que a perda de atenção acontece a cada cinco a sete minutos. Por isso, as aulas totalmente expositivas deram lugar a um planejamento que preveja tempo de exposição, ação dos alunos e outras metodologias que os envolvam, como júri simulado, pesquisa e debate de resultados, entre outros ", exemplifica.
Se o excesso de estímulos tornou mais difícil sustentar a atenção, outro movimento ganha espaço: ensinar a estudar. Para Cleonara Schwartz, essa é uma necessidade da escola contemporânea. Segundo ela, não é possível pressupor que o aluno já saiba estudar, pois, em meio ao excesso de informação, ele precisa aprender a selecionar, organizar e avaliar conteúdos.
“Hoje, ensinar o aluno a estudar significa exatamente desenvolver nele funções como a capacidade de planejar, de iniciar uma tarefa, de manter o foco de atenção, de eliminar as distrações, o que requer dele uma capacidade de autorregulação emocional”, salienta.
No Leonardo da Vinci, isso começa a partir do 6º ano, com disciplinas voltadas à organização dos estudos, em que os alunos aprendem a planejar a rotina, criar hábitos de estudo, utilizar mapas mentais, fazer resumos, fichamentos e pesquisas e identificar quais métodos funcionam melhor para cada um.
“Ensinar o aluno a ter autonomia de estudo, às vezes, é até mais importante do que um conteúdo específico. Ele levará para a vida toda”, pontua Mário Broetto.
No Primeiro Mundo, o foco é direcionar os alunos para que conheçam seu processo de aprendizagem. “Embora tenhamos heterogeneidade nas turmas, a orientação individual para isso é constante. Além das ações cotidianas internas, trazemos especialistas que colaboram nesse processo de aprender a aprender”, finaliza Juliana dos Santos.
1. Organize uma rotina de estudos
Defina horários, distribua as tarefas ao longo da semana e estabeleça metas possíveis. Ter uma rotina ajuda a organizar o tempo e a assumir gradualmente a responsabilidade pelo próprio aprendizado.
2. Descubra quais estratégias funcionam melhor para você
Não existe uma única maneira de estudar. Fazer resumos, mapas mentais, pesquisas e exercícios e explicar o conteúdo para outra pessoa são algumas possibilidades. O importante é experimentar estratégias e perceber quais ajudam de fato a compreender e lembrar o conteúdo.
3. Estabeleça objetivos antes de começar
Em vez de simplesmente “estudar matemática”, defina o que precisa aprender: compreender determinado conceito, resolver uma quantidade de exercícios ou revisar um conteúdo específico.
4. Monitore o próprio aprendizado
Depois de estudar, tente verificar o que realmente aprendeu, e não apenas o que reconheceu ao ler. Faça perguntas para si mesmo, tente explicar o conteúdo sem consultar o material e identifique os pontos que ainda precisam ser retomados.
5. Proteja o momento de estudo das distrações
Celular e outras interrupções dificultam a manutenção da atenção. Criar um ambiente adequado, estabelecer períodos de concentração e fazer pausas planejadas pode ajudar a sustentar o esforço necessário para aprender.
Fonte: Cleonara Schwartz, professora do Centro de Educação da Ufes; Mário Broetto, diretor do Centro Educacional Leonardo da Vinci; e Juliana dos Santos, diretora do Centro Educacional Primeiro Mundo