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Tarifaço: indústria do cacau fala em prejuízo de R$ 190 milhões e paralisação no setor

Câmara setorial estima que, com sobretaxa de 50%, exportadores de matéria-prima do chocolate ficam com negócios inviabilizados com os EUA, podendo chegar à paralisação de 70 mil pessoas

Publicado em 06 de Agosto de 2025 às 12:03

Agência FolhaPress

Publicado em 

06 ago 2025 às 12:03
BRASÍLIA - A imposição da sobretaxa de 50% sobre a exportação dos produtos de cacau brasileiro pelos Estados Unidos — que passou a valer a partir desta quarta-feira (6) — deve provocar, já em 2025, uma perda mínima de US$ 36 milhões, o equivalente hoje a R$ 190 milhões, para essa indústria no Brasil. A estimativa é da Câmara Setorial de Cacau e Sistemas Agroflorestais do Ministério da Agricultura (Mapa).
O impacto medido pelo próprio governo, conforme informações obtidas pela reportagem, mostra que a sobretaxa atinge em cheio as exportações de produtos como amêndoas de cacau in natura, pasta de cacau, manteiga de cacau e pó de cacau, todos usados, de maneira direta ou indireta, para fazer chocolate.
O Espírito Santo é o terceiro maior produtor de cacau no Brasil, tendo agregado R$ 162,5 milhões ao agronegócio capixaba em 2021 (Seag)
A estimativa é de que existam aproximadamente 93 mil produtores de cacau no país Crédito: Shutterstock
A cadeia do cacau no Brasil conta com cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos, abrangendo desde produtores rurais até a indústria de transformação e comercialização. A estimativa é de que existam aproximadamente 93 mil produtores, a maior parte pequenos agricultores familiares.
"O impacto sobre a indústria nacional será imediato: a ociosidade média do parque processador, hoje já elevada devido à escassez de amêndoas, poderá saltar para até 37%, comprometendo empregos, investimentos e a manutenção das operações", diz a divisão do Mapa. Na prática, isso equivale a comprometer as atividades de aproximadamente 70 mil pessoas.
Somente no primeiro semestre de 2025, o Brasil exportou US$ 64,8 milhões desses produtos para os EUA, valor que representou mais de 25% de todo o volume exportado pelo setor no período.
Em 2024, as vendas para o mercado americano somaram US$ 72 milhões, o que expõe o peso dos Estados Unidos para a indústria brasileira de cacau. Com a nova alíquota, a competitividade dos produtos nacionais, segundo a Câmara Setorial do Cacau, é praticamente anulada, tornando inviável a manutenção das exportações.
A avaliação é de que a situação também compromete a atração de novos investimentos e a viabilidade operacional de unidades localizadas principalmente na Bahia, no Pará e em São Paulo. A indústria nacional, que já enfrentava uma conjuntura desfavorável marcada pela escassez de amêndoas de cacau, pela alta nos preços internos e pela queda da moagem, agora perde um de seus principais canais de escoamento externo.
"O fechamento do canal de exportação para os EUA, sem alternativas comerciais imediatas, tende a ampliar a ociosidade da indústria e comprometer empregos e investimentos nas regiões produtoras", relata a análise técnica.
Essa retração no mercado comprador nacional deverá resultar em pressão sobre os preços pagos ao produtor, desestímulo ao cultivo e riscos à sustentabilidade econômica do setor. "Trata-se de uma retaliação comercial que prejudica não apenas o setor empresarial, mas milhares de trabalhadores e comunidades que dependem da cacauicultura no Brasil."
O documento da Câmara Setorial alerta ainda para o risco de paralisação em diversas plantas industriais, o que comprometeria não apenas grandes exportadores, mas também comunidades inteiras que dependem do cacau.
O caso da Bahia ilustra bem o cenário. Principal Estado processador e um dos maiores produtores de cacau do país, a Bahia registrou um crescimento de 63,3% nas exportações de manteiga e pó de cacau no primeiro semestre de 2025, em relação ao mesmo período de 2024. O cacau responde por 13,2% da balança comercial baiana, segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia.
A Câmara Setorial pediu ao Mapa e ao Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) uma resposta articulada e urgente para evitar a paralisação das exportações aos EUA. Além da abertura de diálogo com os Estados Unidos para tentar reverter ou mitigar a medida, pede a criação de um programa emergencial de apoio à indústria e aos produtores, com linhas de crédito e compensações tributárias.
O vice-presidente e ministro do Mdic, Geraldo Alckmin, disse que o governo trabalha em um plano de contingência que prevê, entre diversas ações, medidas de crédito e de compras governamentais e que isso será resolvido "em questão de dias".
Os dados do Mdic apontam que os Estados Unidos são o segundo maior comprador de cacau em pó, manteiga ou pasta de cacau do Brasil. Ficam só atrás da Argentina, que respondeu por 52,1% do mercado internacional entre janeiro e junho deste ano, enquanto os EUA responderam por 20,3%.
A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, disse acreditar na possibilidade de o governo dos Estados Unidos recuar da aplicação da sobretaxa de 50% a alguns itens que foram inclusos no tarifaço, destacando a carne e o café. Tebet disse que essas perspectivas vieram de uma série de conversas com empresários do setor.

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