Publicado em 29 de julho de 2021 às 11:35
A onda de frio que chegou ao Brasil traz consigo uma ameaça que tira o sono de agricultores. Trata-se da geada, prevista para áreas do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. >
A preocupação ocorre porque o fenômeno pode provocar prejuízos em plantações diversas. O tamanho de eventuais perdas depende da intensidade da geada e do estágio em que se encontram as lavouras. >
Em linhas gerais, o fenômeno é caracterizado pela formação de camadas finas de gelo sobre superfícies, incluindo plantas. Para sua formação, é necessária uma combinação de fatores. >
Essa combinação inclui temperatura baixa (perto de 0ºC), céu aberto e ventos calmos, segundo os meteorologistas Wallace Figueiredo Menezes, professor do Departamento de Meteorologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e Naiane Araujo, do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). >
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"Com a geada, há um congelamento das células das plantas. Essas células são rompidas. O tamanho dos prejuízos vai depender da intensidade da geada", diz o engenheiro agrônomo Alencar Rugeri, diretor técnico da Emater-RS. >
"É como colocar uma garrafa de cerveja em um freezer. Se ficar por muito tempo, o líquido congela, o tamanho aumenta, e pode destruir a garrafa." >
Nesta semana, a onda de frio intenso põe em alerta sobretudo quem aposta em culturas como café, frutas em período de brotação e hortaliças. >
No caso do café, a ocorrência de geada já trouxe prejuízos para agricultores de Minas e São Paulo na semana passada. Com mais um período de frio, a preocupação continua. >
A Emater-MG projeta que a geada da semana passada tenha afetado 156,3 mil hectares de café em Minas. A estimativa sinaliza que 9.500 produtores tiveram áreas atingidas. >
"O café até gosta do frio, mas não de tanto frio. É muito sensível à geada, já que há um congelamento nas plantas", diz Ana Carolina Alves Gomes, analista de agronegócios do Sistema Faemg (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais). >
Segundo Ana Carolina, apontar as medidas necessárias para recuperar os cafezais já danificados é uma tarefa que requer tempo. A espera é necessária para ver como as plantas vão conseguir reagir após o fenômeno climático. >
De acordo com a analista, o nível de comprometimento de cada cafezal varia conforme a intensidade do frio ao qual cada um foi exposto. Nesse sentido, geadas mais intensas podem danificar completamente as plantas, atingindo folhas, ramos e caule. Ou seja, o prejuízo é mais elevado. Aquelas menos intensas tendem a gerar um efeito menor, prejudicando apenas as folhas, por exemplo. >
"A geada pode impactar duas, três safras ainda, porque vai depender do manejo a ser adotado daqui para frente. Só é possível diagnosticar o manejo adequado com o passar do tempo", diz Ana Carolina. >
"Dependendo da queimadura com a geada, algumas plantas vão precisar de poda, outras de procedimentos mais extensos. Em casos mais trágicos, toda a planta é arrancada." >
Produtores de cana no oeste paulista também acompanham de perto as previsões para os próximos dias. É que, nessa região do estado, o cultivo da cana já foi prejudicado pelo registro de geada em junho e na semana passada. >
André Bosch Volpe, engenheiro-agrônomo da Canaoeste (Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo), diz que o fenômeno abala a safra deste ano e a do próximo. A cana costuma ser plantada entre fevereiro e abril, e a colheita fica para o ano seguinte. >
No caso das hortaliças, a geada pode causar prejuízos imediatos à cadeia produtiva, diz o engenheiro-agrônomo Sergio Neres da Veiga, coordenador de fruticultura da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), vinculada ao governo catarinense. >
Expostos ao frio sem nenhum tipo de proteção, esses produtos podem ser completamente danificados. Mas, como as hortaliças têm ciclo curto de produção, o agricultor pode voltar a produzi-las em um período mais rápido. >
"Em hortaliças, o efeito da geada é imediato. Os produtos vão logo para o mercado. Sem algum tipo de prática de proteção nas plantações, a perda pode comprometer a renda do agricultor no mês. Ele pode ter novas colheitas em um mês ou dois", aponta. >
No caso de frutas como o pêssego, que está em etapa de brotação, os prejuízos com o frio só podem ser recuperados um ano depois, na próxima safra. Se serve de consolo, a geada tende a prejudicar só as frutas, e não a planta inteira, como é o risco de uma cultura tropical como o café. >
"Cada ponto de uma planta tem nível diferente de resistência ao frio. No caso do pêssego, a geada pode matar a fruta, mas não a planta como um todo, a não ser que seja muito nova. O produtor não perde a plantação como pode ocorrer no café", diz Veiga. >
Alencar Rugeri, diretor técnico da Emater-RS, pondera que culturas de inverno não são ameaçadas pela geada neste momento, já que as plantações estão em fase vegetativa. Contudo, se o fenômeno voltar a aparecer em agosto ou setembro, quando o cultivo estará em fase mais avançada, haverá chance de prejuízos.>
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