O mês de janeiro de 2020 chegará marcado por condições e expectativas econômicas melhores do que ocorreram em outros janeiros - embora nem tudo sejam flores. Os pontos que mais chamam a atenção afetam o dia a dia dos cidadãos. São inflação e juros baixos (que se combinam para dar maior poder de compra ao dinheiro) e volume de recursos extra circulando na praça, sacado do FGTS por 10 milhões de brasileiros. Cada um desses trabalhadores pode embolsar até R$ 998, a partir da próxima semana. O comércio aguarda ansioso. Espera que parte desse dinheiro injete gás nas vendas do início do ano, apesar do endividamento que sempre surge após o impulso consumista do Natal e Réveillon.
De acordo com empresários do setor, o varejo do Espírito Santo deve encerrar 2019 com alta de vendas em torno de 5% a 6% (média entre segmentos). É uma boa dinâmica para começar o ano seguinte, também animado pela crença de que a queda do desemprego ganhará maior velocidade.
No acumulado em 2019, de janeiro a novembro, a economia capixaba abriu cerca de 20 mil novos postos de trabalho. Um avanço muito bom, sem dúvida, mas espera-se que esse número cresça significativamente em 2020, em função da carteira de projetos, em andamento e previstos, no Estado.
O otimismo que enxerga um bom começo de ano não se baseia apenas no dinheiro FGTS (que logo estará esgotado), e nem em condições mais confortáveis, como juros reduzidos e inflação amena (apesar da carne e da pressão do dólar sobre o preço de muitos produtos). Não nos esqueçamos de outros ingredientes presentes na preparação da economia para 2020.
Veja: a aprovação da reforma da Previdência foi seguida por um ambicioso leque de Projetos de Emenda Constitucional (PECs) enviados ao Congresso, abrangendo desde a contenção das despesas obrigatórias do governo (para viabilizar o cumprimento do teto dos gastos nos próximos anos) até uma ousada reforma do Estado brasileiro. São pontos fundamentais para melhorar o ambiente de negócios e despertar confiança na economia, contribuindo para intensificar o investimento do setor privado.
Merece menção especial a taxa básica de juros no patamar de 4,5% ao ano, cujo efeito será sentido a partir de 2020. Trata-se do menor percentual desde 1999, quando começou o regime de metas de inflação, estabelecido pelo Banco Central. Observe a diferença entre os janeiros anteriores; em 2016, a Selic cravava 14,25% ano (travando o consumo); em janeiro de 2017, o patamar permanecia altíssimo, em 13%; em janeiro de 2018, alcançava 7%.
Essa sequência de quedas, relativamente rápida, foi permitida pelo recuo da inflação e ajudou o Brasil a sair da sua pior recessão, utilizando as portas do consumo. Inflação e juros historicamente baixos foram os legados do governo Temer, e impulsionaram a concessão de crédito - para pessoas físicas e empresas - no primeiro ano da era Bolsonaro. Espera-se que os efeitos sejam potencializados em 2020.
Levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio, com base em dados do Banco Central, mostra que entre janeiro e setembro de 2019, em termos reais (quando se exclui a inflação), a concessão de crédito para pessoa física aumentou 11% - o melhor resultado desde 2012. Isso tem sido fundamental para o consumo. Obviamente, o benefício teria sido maior se a diferença entre a taxa básica e os juros praticados nos balcões dos bancos não permanecesse tão grande. Houve recuo dos juros em várias linhas, é verdade, e isso melhorou o acesso a financiamentos. Pesquisas mostram maior disposição de pequenas empresas de buscar empréstimos. Mesmo assim, o custo (de modo geral) do dinheiro alheio ainda está alto - apesar de as fintechs estarem revolucionando o mercado financeiro, por meio da concorrência.
Mas nem tudo são flores, conforme assinalado no início desta coluna. Para a economia do Espírito Santo, dois aspectos preocupam para 2020. Um, a herança ruim deixada pela indústria em 2019, com queda de 14% na produção física acumulada até outubro. Outro, é o cenário de incerteza do comércio internacional, que influencia fortemente o PIB capixaba.