A ideia de transformar ativos do mundo real (imóveis, recebíveis, títulos públicos) em “tokens” digitais deixou de ser um experimento de nicho para entrar no radar de bancos, gestoras e reguladores. Mas, longe do entusiasmo fácil do mercado cripto, a tokenização de ativos (RWA, na sigla em inglês) precisa ser analisada com o pé no chão: o que realmente muda na economia real?
Na prática, tokenizar um ativo significa registrar sua existência e suas regras em uma infraestrutura digital programável. Isso permite fracionar investimentos, automatizar pagamentos e facilitar a negociação. Segundo uma das maiores consultorias estratégicas do mundo, a McKinsey & Company, esse mercado pode alcançar entre US$ 2 trilhões e US$ 4 trilhões até 2030, um número relevante, mas ainda pequeno diante do sistema financeiro global. Ou seja, há potencial, mas não se trata de uma revolução imediata.
O ponto mais interessante não está na “digitalização” em si, mas na reorganização da infraestrutura financeira. Relatórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) e da Organização Internacional das Comissões de Valores Mobiliários (IOSCO) destacam que a tokenização pode reduzir etapas intermediárias, encurtar liquidações e integrar ativos com dinheiro digital, criando transações quase instantâneas. Em tese, isso reduz custo, erro operacional e necessidade de reconciliação, problemas reais enfrentados por bancos, fundos e empresas.
No mundo real, os primeiros casos relevantes estão longe de NFTs e especulação. Fundos de renda fixa tokenizados, títulos públicos e crédito privado são os principais usos. Um exemplo emblemático é o fundo BUIDL, da gestora de ativos BlackRock, que ultrapassou US$ 1 bilhão ao operar com ativos tokenizados. Além disso, dados da plataforma RWA.xyz indicam que o volume de ativos reais representados em blockchain já passa de dezenas de bilhões de dólares, com destaque para Treasuries americanos (títulos do Tesouro dos EUA).
No Brasil, o movimento também avança, ainda que de forma cautelosa. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já deixou claro que tokenizar não muda a natureza do ativo: se for valor mobiliário, continua sendo regulado como tal. Isso evita uma ilusão comum de que a tecnologia “escapa” da regulação. Ao mesmo tempo, iniciativas como o Drex, do Banco Central, e os testes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) com debêntures tokenizadas mostram que o país está olhando para a infraestrutura do futuro.
Mas é aqui que entra o ponto crítico: a tokenização não resolve problemas estruturais por si só. Um recebível ruim continua ruim, mesmo que esteja em blockchain. Um contrato mal estruturado continua arriscado, ainda que automatizado. O valor real está na combinação entre tecnologia, governança e modelo de negócio.
Para empreendedores e investidores, o impacto mais concreto pode vir da democratização do acesso. Imagine um pequeno empresário conseguindo investir em frações de crédito privado ou um motorista financiando seu carro via tokens lastreados em ativos reais.
A tokenização, portanto, não é uma revolução mágica, mas uma evolução da infraestrutura financeira. E como toda infraestrutura, seu sucesso dependerá menos do discurso e mais da execução. Quem entender isso cedo terá vantagem, não por usar blockchain, mas por construir melhores negócios sobre ela.
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