O Brasil atingiu, em 2026, o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic): em abril, 80,9% das famílias declararam possuir algum tipo de dívida, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Do lado das empresas, o cenário não é menos alarmante. O Brasil encerrou o primeiro trimestre de 2026 com mais de 5,9 mil empresas operando sob regime de recuperação judicial, uma alta de 21,5% em comparação ao ano anterior.
O número de empresas que saíram de processos de recuperação judicial para a decretação de falência está crescendo: o percentual saltou de 29% no segundo trimestre de 2025 para 37% no terceiro, segundo o Monitor RGF.
Um dos principais motivos é o diagnóstico tardio. "Empresários adiam o pedido de socorro e chegam ao processo sem ativos livres para garantir dinheiro novo", explica especialista da RGF. A resistência cultural em admitir a crise faz com que a busca pela proteção judicial ocorra tarde demais. Quando a empresa finalmente entra em recuperação, já está sem reservas financeiras e sem garantias a oferecer. Os bancos, por sua vez, negam novos créditos.
Esse padrão não é exclusivo das empresas. 42% dos brasileiros que estão inadimplentes em 2026 já estavam nessa condição há dez anos, o equivalente a cerca de 34 milhões de pessoas. Além do aumento no número de inadimplentes, o valor total das dívidas cresceu 176% no período, enquanto a dívida média por consumidor avançou 12,2%, já considerando valores corrigidos pela inflação.
Juros elevados, crédito restrito e decisões empresariais adiadas são alguns dos fatores centrais para a explosão de pedidos de recuperação judicial registrada em 2025. Apenas as companhias que ingressaram com pedidos no último trimestre de 2025 somaram R$ 40 bilhões em passivos, mais que o dobro do valor registrado no trimestre anterior.
O fio que une consumidores endividados e empresas em recuperação judicial é o mesmo: a decisão chega depois que as opções já se esgotaram. Quem espera o problema explodir para agir perde justamente o que mais importa nesse momento, a margem de manobra. Reservas, garantias e linhas de crédito só existem enquanto ainda não são urgentes. Assim que a crise se instala, são as primeiras coisas a desaparecer. A lição que os números de 2026 deixam é direta: diagnosticar cedo, mesmo quando o sintoma ainda parece pequeno, é o que separa uma reestruturação bem-sucedida de um processo que termina em falência.
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