O aquecimento global vem ocupando manchetes em todo o mundo por conta da preocupação de cientistas e de algumas nações com o futuro do planeta, incluindo as consequências para a humanidade. E esse é o principal debate na Conferência do Clima (COP25) da ONU que ocorre na cidade de Madrid, Espanha, após as desistências do Brasil e do Chile em sediar o evento.
Como se sabe, o aumento da temperatura do planeta decorre da emissão de gases de efeito estufa. No entanto, talvez poucos saibam que a construção civil é responsável por cerca de 30% das emissões, o que demonstra a atenção que tem que ser dada a esse setor produtivo, importante para a sociedade, mas que precisa rever sua lógica construtiva.
De fato, a tendência atual da produção arquitetônica e da construção civil em geral é que sejam adotados sistemas racionalizados, com maior índice de componentes industrializados, tendo como foco a questão da sustentabilidade tanto durante a etapa construtiva como ao longo da vida útil das edificações. Desse modo, as decisões projetuais em relação à racionalização do processo construtivo são determinantes, entre outras coisas, para a redução na produção de resíduos durante as obras, pois eles são altamente poluentes.
Apesar das várias pesquisas buscando dar uso aos resíduos provenientes de obras, que na maioria das vezes resultam em novos materiais construtivos a partir da reciclagem de detritos, ainda se produz, por exemplo, muitas partículas que acabam em suspensão, poluindo o ar que respiramos. Tais partículas, poeira num termo mais coloquial, são produzidas em operações como corte ou furo em elementos como granito, tijolos, madeira etc. Espalhando-se pelo ar, o pó que sai destes materiais tem graves consequências para a saúde não só dos trabalhadores da construção civil, mas também de toda vizinhança das obras.
É o caso da obra da recém inaugurada Avenida Leitão da Silva. Para a instalação dos guarda-corpos da ciclovia – já bastante criticados e até vandalizados – e agora para o plantio de mudas de árvores ao longo da faixa tátil das calçadas laterais, quebraram o piso instalado, gerando resíduos, num processo construtivo totalmente irracional, demonstrando improviso e falta de planejamento dos responsáveis pela obra. Além da sujeira que ficou lá jogada na via, virando lama e escorrendo para os bueiros nos dias de chuva ou sendo carregada pelo vento e empoeirando a vizinhança, trata-se de um retrabalho, afinal o operário teve que quebrar algo que já estava pronto!
Mais precisamente no caso das edificações, já existem diversos institutos e empresas que emitem certificação, avaliando o grau de sustentabilidade de uma obra, em itens como a eficiência energética. Realizado inclusive por meio de auditorias, as certificações são um tipo de selo que garante que o projeto tem uma postura responsável com o nosso mundo, atual e futuro. Porém, apesar da sua importância, uma certificação é ainda algo relativamente caro, sendo na maioria das vezes viável apenas para médias e grandes construções.
Ainda assim, basta que arquitetos e engenheiros, ao desenvolverem seus projetos e suas obras, tomem medidas, muitas delas simples, mas que tenham como objetivo a realização de construções que visem diminuir o impacto da construção civil no aquecimento global.
Na verdade, diversas soluções começam a se popularizar e já são adotadas. Lâmpadas de led, sensores de presença, placas fotovoltaicas para geração de energia, cisternas para reúso de água pluvial, pisos drenantes, são alguns dos exemplos mais usados nas nossas construções.
Mas isso ainda é pouco e será necessário ampliar o uso de construções a seco. Trata-se de um sistema construtivo que dispensa o consumo de água, e que se assemelha a uma montagem. Justamente por esse aspecto, a obra produz menos resíduos (ou quase nenhum resíduo) e é mais rápida do que as construções convencionais.
Do mesmo modo que nossos eletrodomésticos possuem selo de eficiência energética, do mesmo modo que a indústria automobilística busca desenvolver novos modelos menos poluentes, chegou a hora das nossas construções irem pelo mesmo caminho.