Inglês avançado que não sustenta duas perguntas. Domínio de uma determinada ferramenta, mas que nunca foi utilizado na prática. Facilidade para trabalhar em equipe, mas aprensenta histórico de conflitos. E, como mentira tem perna curta, é bom ficar atento para não ressaltar no currículo uma habilidade que não se possui, pois isso pode prejudicar a imagem profissional.
Para a especialista em carreiras e em recrutamento e seleção de pessoas da Jobz RH, Luciana Roberty, a mentira não costuma surgir por má-fé isolada, mas sim como reflexo de pressão, insegurança e desalinhamento entre expectativa e realidade.
Segundo ela, os casos ocorrem por três motivos. O primeiro deles é a necessidade de aprovação, pois há uma percepção equivocada de que existe um perfil ideal que precisa ser atendido.
“O candidato, então, ajusta seu discurso para se encaixar na vaga, mesmo que isso signifique distorcer sua experiência”, complementa.
Outra razão está relacionada à insegurança sobre a própria trajetória. Luciana Roberty comenta que isso ocorre quando profissionais que não reconhecem seus pontos fortes ou não sabem comunicar suas vivências tendem a “inflar” competências como forma de compensação.
Por fim, o terceiro motivo está relacionado à pressão por resultado imediato. Isso acontece quando, em cenários de urgência financeira ou de transição de carreira, a prioridade deixa de ser o encaixe correto e passa a ser a conquista da vaga a qualquer custo.
A especialista explica que, para um entrevistador identificar inconsistências, é necessário ressaltar que um processo seletivo bem conduzido não depende de intuição, mas de um método consistente e comprovado.
A identificação de possíveis distorções ocorre, principalmente, por meio do aprofundamento com base em evidências. É possível solicitar exemplos, como: ‘Me conte uma situação em que você aplicou isso’ ou ‘Qual foi o resultado?’. Discursos genéricos tendem a se fragilizar quando confrontados com a necessidade de detalhamento
A ausência de veracidade também pode ser identificada por meio da análise da coerência narrativa durante a entrevista. Ou seja, a observação não está apenas no conteúdo, mas na consistência ao longo da conversa. A especialista observa que mudanças de versão, lacunas ou respostas vagas indicam desalinhamento.
“Os recrutadores também fazem uma leitura comportamental. Sem caráter acusatório, observamos o nível de segurança do candidato ao falar, o tempo de resposta, o nível de clareza e a congruência entre fala e comportamento. Não se trata de pegar o candidato na mentira, mas de entender a veracidade e a maturidade do discurso”, comenta Luciana.
É importante ressaltar que a mentira, no processo seletivo, compromete o principal ativo de um profissional: a credibilidade. A especialista destaca que, mais do que impactar a contratação, a falta de transparência pode gerar desalinhamento de expectativas, baixa performance e, consequentemente, desligamentos precoces.
“Do ponto de vista estratégico, tanto para empresas quanto para candidatos, o objetivo não deve ser apenas passar na entrevista, mas garantir aderência real entre perfil, cultura e desafio. É isso que sustenta relações profissionais consistentes e resultados de longo prazo”, salienta Luciana Roberty.