O empresariado capixaba tem um dia decisivo nesta quinta-feira (30). Em votação marcada para o meio-dia, em sistema semipresencial, representantes de 33 sindicatos patronais escolherão quem vai comandar a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), no lugar de Léo de Castro, pelo próximo triênio. Em jogo, poder político e muito poder econômico.
O presidente da Findes responde pela entidade máxima de representação da indústria capixaba na interface com o governo estadual, com prefeituras municipais e outras instituições. Além disso, administrará um orçamento próximo a R$ 270 milhões só este ano (o número poderá ser revisto em função da pandemia do novo coronavírus). A cifra supera o orçamento total da Assembleia em 2020 e a receita total de 66 dos 78 municípios capixabas no ano de 2018, incluindo Anchieta e Viana.
No páreo, há dois candidatos. De um lado, representando a atual gestão, temos a diretora comercial da Grafitusa, Cristhine Samorini, 41 anos, apoiada pelo atual presidente, Léo de Castro, como ela mesma confirma à coluna. No outro córner, temos o “desafiante”: Egidio Malanquini, 62 anos, fundador e acionista majoritário da Vista Linda Indústria e Comércio de Cafés Especiais Ltda.
Em comum, ambos são referências muito fortes nos respectivos ramos de negócios, com atuação marcante nos respectivos sindicatos patronais. Cristhine é a atual presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas do Espírito Santo (Siges), enquanto Egidio presidiu por quatro mandatos o Sindicato da Indústria do Café do Espírito Santo (Sincafé), de 1998 a 2008 e de 2014 a 2018. Ele também chegou a ser o 1º vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria do Café.
Outro ponto em comum a destacar é que os dois concorrentes têm história extensa e respeitável de atuação na própria Findes. A herdeira de Túlio Samorini participa da gestão da entidade há mais de 20 anos. Como diretora da Findes, fez parte de todas as administrações desde a presidência de Lucas Izoton, passando pelos mandatos de Marcos Guerra e de Léo de Castro. Na gestão atual, até licenciar-se para concorrer à presidência, era a vice-presidente do Centro da Indústria do Espírito Santo (Cindes), uma das seis casas que compõem a Findes hoje.
Por sua vez, Egidio se declara "militante da Findes há 32 anos", já tendo sido, inclusive, vice-presidente da federação por dois mandatos. Também já foi presidente do Centro de Apoio aos Sindicatos e fez parte dos conselhos do Sesi, do Senai e do IEL no Espírito Santo. De 1992 a 1995, foi superintendente estadual do Sebrae (tinha 34 anos e, segundo ele, foi o mais jovem da história a ocupar o cargo em qualquer Estado).
Na última eleição interna, em 2017, Egidio por pouco não disputou a presidência da Findes pela primeira vez, contra Léo de Castro. Numa composição com o então presidente, Marcos Guerra, acabou retirando a candidatura e apoiando o filho de Sérgio Rogério de Castro. Na atual gestão, liderada por Léo, o empresário da indústria de café foi presidente do Conselho de Assuntos Legislativos da Findes até o fim de 2019, quando se afastou da diretoria justamente para lançar sua campanha.
Mas as “interseções” entre Cristhine e Egidio param por aí. Olhando-se de dentro e de fora, essa é uma disputa muito claramente demarcada entre a candidata da situação e o candidato da oposição – se bem que Egidio evita o termo e prefere se definir como um “candidato alternativo”. Ok.
De todo modo, ninguém tem a menor dúvida: Cristhine Samorini (ou Cris, como prefere ser chamada) é a candidata de Léo de Castro. Em nenhum momento o atual presidente chegou a apontar o dedo para ela e anunciar o apoio publicamente, com todas as letras. Mas nem seria preciso. Os dois pertencem ao mesmo grupo e estão juntos o tempo todo, em uma série de agendas em nome da Findes. A entrevista da empresária à coluna (na sequência) deixa muito clara a sintonia entre ambos, muito embora ela enfatize os pontos em que pretende avançar em relação ao mandato do aliado.
INFLUÊNCIA E ESPECULAÇÕES POLÍTICAS
Evidentemente, a disputa pelo comando de uma instituição tão politicamente influente e economicamente poderosa como a Findes não fica de todo imune a interesses e interferências externas, mais ou menos explícitas. Dessa vez, segundo relatos de empresários colhidos pela coluna, a percepção é a de que o processo eleitoral foi bem menos contaminado pela “política externa” do que disputas anteriores da Findes. O que não quer dizer que não tenha havido uma série de especulações.
As principais delas: nos bastidores, Cristhine contaria com o apoio, discretíssimo, do ex-governador Paulo Hartung (sem partido) e do grupo político deste; Egidio, por sua vez, gozaria da preferência, igualmente velada, do governador Renato Casagrande (PSB).
Cristhine rechaça enfaticamente qualquer associação com o ex-governador e classifica essa especulação como nada além de uma tentativa de prejudicar a sua campanha. Já Egidio afirma que acredita gozar da simpatia do atual governador e de atores do atual governo, mas reconhece que não recebeu o apoio formal de Renato Casagrande.
Isso e muito mais, como as propostas principais de ambos, você pode conferir abaixo, na minientrevista que acompanha o miniperfil que traçamos de cada um. Que vença o melhor!
CRISTHINE SAMORINI: “ASSOCIAÇÃO COM PAULO HARTUNG É JOGO POLÍTICO”
Com graduação em Administração pela UVV, pós-graduação em Gestão de Negócios pela Dom Cabral e em Marketing pela FGV, Cristhine Samorini, 41 anos, trabalha desde os 17 na empresa da família, a Grafitusa, que nesse mês de maio completa 100 anos em atividade. Como diretora comercial, responde há cerca de 20 anos pelos setores de marketing, comunicação e relações públicas da gráfica. “É claro que a empresa tem muito a minha cara hoje em dia.”
Cristhine é a primeira mulher na história a concorrer à presidência da Findes. Se vencer, será a única mulher, segundo ela, a presidir uma federação estadual das indústrias em todo o Brasil, no que a própria empresária considera um “ambiente completamente masculinizado”.
A senhora tem o apoio do atual presidente da Findes, Léo de Castro?
Sim. A gente partilha das mesmas ideias, principalmente no que se refere à modernização. Mas é o que sempre falo: não sou fruto do Léo de Castro. Sou a construção de um plano a longo prazo. Precisamos ter cuidado para não criar esse vínculo de sucessão. Não é isso que estamos construindo. Estamos construindo uma entidade com ética, que preza pelo desenvolvimento, com geração de oportunidade. Não é “o grupo do Léo de Castro”. Não trabalhamos dessa forma internamente. O grupo todo defende essa necessidade de renovação, senão você não cria um ambiente real de troca de experiência. Hoje, assim como o Léo, sou uma pessoa de referência do grupo. Mas hoje temos um plano de trabalho que é muito mais importante.
A senhora diria que representa a atual gestão?
Eu tô dentro da atual gestão. Defendo o que a gestão do Léo faz. E tenho as minhas considerações, que serão ajustadas à minha gestão. Temos muitos projetos que não conseguiram tomar velocidade durante a atual gestão, por causa de alguns ajustes que se precisou fazer. Temos, por exemplo, que fazer de fato a transformação digital das indústrias capixabas, algo em que não conseguimos avançar na atual gestão. Inovação precisa se solidificar mais no Espírito Santo. E queremos que a sociedade capixaba entenda cada vez mais qual é o papel da Findes. Há projetos que foram previstos e não foram implementados. Entro num ritmo mais interessante do que o Léo pôde entrar em 2017, um ritmo de transição positiva. A tendência é entrarmos num ritmo mais acelerado. Gosto de execução e gosto de resultado.
A senhora é apoiada ou incentivada pelo ex-governador Paulo Hartung e pelo grupo dele?
Não confirmo isso. Há uma tentativa, a todo momento, de se fazer um vínculo que não é real. Isso é uma insistência de um jogo político, que não faz o menor sentido para a minha candidatura. É jogo político mesmo. Respeito muito o Paulo Hartung por sua trajetória política no Espírito Santo, mas ele está até distante do Estado. Isso não existe.
EGIDIO MALANQUINI: "SEI QUE O GOVERNADOR TORCE POR MIM"
“Filho de Linhares”, como se denomina, Egidio Malanquini, 62 anos, mora em Vitória desde 1974. Também cafeicultor (tem plantações na cidade natal), ele atua na indústria do mesmo produto desde 1988. Com muito orgulho, fundou a Vista Linda Indústria e Comércio de Cafés Especiais Ltda., da qual é o acionista majoritário.
Nesta eleição, apresenta-se como alternativa ao grupo de Léo de Castro, representado por sua adversária.
O senhor diria que representa a oposição à atual gestão?
Veja bem, fiz parte da situação. Apoiei o Léo em 2017 e fui presidente do Conselho de Assuntos Legislativos da Findes na gestão dele. Por questão de ética, tive que me licenciar dessa função para participar da eleição. Vejo que a administração do Léo, como toda administração, tem os lados bons e os lados que precisam ser melhorados. Sou o candidato alternativo ao modelo que aí está. Tenho relacionamento com todos que lá estão. Mas não sou da situação. Coloquei-me como alternativa porque lideranças e eleitores estavam cobrando uma posição da minha parte, se eu poderia liderar esse processo. Mas não gosto dessa palavra “oposição”, porque oposição não contribui muito. Alternativa contribui mais, porque cria um debate melhor no processo.
O senhor fala em “lados que precisam ser melhorados”. Quais são as suas principais propostas para a entidade?
Quando inciamos essa caminhada, em setembro de 2019, pela primeira vez na história da Findes um candidato procurou desenvolver um programa de gestão compartilhado com os empresários e com a sociedade capixaba. Visitamos todas as lideranças empresariais e várias indústrias, e fechamos o nosso programa em janeiro. Trata-se do Plano de Gestão 20-23 Findes, que é dividido em cinco eixos: associativismo; interiorização; fortalecimento da educação profissionalizante e gerencial, respectivamente por meio do Senai e do IEL; competitividade/inovação; e valorização dos produtos capixabas.
Nesse processo eleitoral, a sua candidatura é apoiada ou foi incentivada de algum modo pelo governador Renato Casagrande e pelo grupo dele?
Quero deixar bem clara uma coisa: sou amigo pessoal do Renato há trinta e poucos anos. Do governador eu não sou amigo. O governador é Estado. Ninguém é amigo do poder. Tenho convicção de que ele é simpático ao nosso projeto porque nós envolvemos o governo do Estado em vários setores na construção desse projeto. No passado, especulou-se que, pelo nosso relacionamento, o governo dele me apoie. Mas nunca fui ao governador pedir o apoio dele. Jamais faria isso com um amigo. Eu sei que ele é simpático, sei que ele torce, mas Renato tem uma postura muito republicana e jamais pegaria um candidato pelo braço. Particularmente, sou fã do Renato e do governo dele. Mas ele nunca falou nem comigo nem em público: “Meu candidato é o Egidio”. O que sinto é que ele tem simpatia por nossa candidatura e por nosso caminhar. E tenho vários amigos e parceiros dentro do governo que tenho certeza que torcem pela nossa conquista. Em qualquer ambiente tem que ter política. A política faz parte. A política é necessária. Agora, é uma política do bem. Uma federação não pode jamais ser submissa a um processo político. Pelo contrário: a federação tem que ser uma aliada propositiva dentro de um processo de desenvolvimento do Estado.