Preso em 2016 pela Polícia Civil na Operação Efeito Colateral, sob suspeita de participação em esquema de venda ilegal de anabolizantes, o professor de Educação Física Márcio Flávio Vago foi nomeado pelo prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) para exercer o cargo comissionado de assessor técnico da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Sesport). A nomeação foi publicada no Diário Oficial de Vitória nesta segunda-feira (25). Porém, em edição extraordinária já publicada nesta terça-feira (26), o prefeito anulou a nomeação do servidor. A prefeitura alegou que não sabia do episódio da prisão.
Formado em Administração de Empresas e em Educação Física, Márcio Flávio Vago foi uma das oito pessoas presas em 2016 pelo Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e à Corrupção (Nuroc) – portanto, por colegas de Pazolini na Polícia Civil – na Operação Efeito Colateral, que investigou um suposto esquema de comércio ilegal de substâncias anabolizantes na Grande Vitória e no interior do Estado (em linguagem popular, "venda de bomba"). À época, os investigadores trataram o caso como tráfico de drogas praticado por organização criminosa, com a participação de professores de Educação Física, fisiculturistas, empresários e profissionais da área médica, como nutricionistas.
De acordo com as investigações do Nuroc, conforme A Gazeta noticiou à época, Márcio Flávio Vago, então com 46 anos, era proprietário de uma farmácia localizada no bairro Itapoã, em Vila Velha. No local, os responsáveis pela unidade manipulavam medicamentos controlados sem receita, segundo informou a polícia no dia do cumprimento do mandado de prisão. Com Vago, também conhecido pelo apelido Toroba, a polícia encontrou e apreendeu uma grande quantidade de substâncias anabolizantes.
Em nota enviada à coluna, a assessoria da Prefeitura de Vitória informou que, para poder ser nomeado para o cargo comissionado na Sesport, Vago apresentou atestado de antecedentes criminais, além de todas as certidões negativas exigidas para a posse no cargo.
“Após assumir o mandato como prefeito de Vitória, Pazolini publicou um decreto que exige de todos os servidores a apresentação de atestado de antecedentes criminais e certidões negativas de 1º e 2º instância das justiças estadual e federal, como forma de cumprir a Lei da Ficha Limpa, que na gestão anterior não era cumprida. A Prefeitura de Vitória não tinha conhecimento do fato ocorrido no ano de 2016, uma vez que o senhor Márcio Flávio Vago apresentou atestado de antecedentes criminais, onde não consta nenhuma ocorrência envolvendo o seu nome, e também todas as certidões negativas exigidas para posse no cargo. Vale ainda destacar que Márcio Flávio Vago tem duas formações de nível superior em Educação Física e Administração de Empresas, tendo sido o critério técnico o motivo de sua nomeação.”
A prefeitura ressalta ainda que, após a deflagração da Operação Efeito Colateral, o inquérito da Polícia Civil foi arquivado e não houve denúncia nem acusação formal em face de Márcio Flávio Vago. “Segundo informações repassadas pelo senhor Márcio Flávio Vago, não existe nenhum processo ao qual esteja respondendo e o inquérito policial a que respondeu à época foi arquivado, não tendo o mesmo sequer sido denunciado formalmente.”
Até a publicação desta coluna, nós não conseguimos contato com o próprio Márcio Flávio Vago, que não atendeu aos nossos telefonemas.
CASO SIMILAR: OUTRO PRESO
Esta não é a primeira vez que o prefeito Lorenzo Pazolini nomeia para cargo comissionado (de livre provimento) um assessor que já esteve preso e, no dia seguinte, anula o ato de nomeação. No dia 15 de janeiro, conforme publicamos aqui, o prefeito nomeou o enfermeiro Thiago Waiyn para o cargo de diretor da unidade de saúde Raul Oliveira Neves, em Jardim Camburi. No dia seguinte (um sábado), em edição extraordinária do Diário Oficial de Vitória, ele tornou a nomeação sem efeito, após questionamentos da coluna à assessoria da prefeitura.
Em janeiro de 2018, Waiyn chegou a ser preso, também pelo Nuroc, no curso da Operação Lama Cirúrgica, que apurou a ação de uma quadrilha formada para adulterar materiais cirúrgicos visando à obtenção de lucros. O enfermeiro não chegou a ser denunciado na Justiça. O nome dele só consta como testemunha no processo criminal resultante da Lama Cirúrgica, que corre em uma vara criminal do município da Serra.
O QUE FOI A OPERAÇÃO EFEITO COLATERAL?
As investigações da Operação Efeito Colateral se iniciaram no início de 2016 no intuito de apurar a existência de uma organização criminosa especializada no comércio ilegal de substâncias anabolizantes na Grande Vitória e no interior do Estado. De acordo com informações do Nuroc quando da deflagração da operação, os crimes eram cometidos por empresários com atuação no ramo de venda de suplementos alimentares, profissionais da área de saúde e pessoas ligadas à prática de musculação.
Ainda de acordo com o Nuroc, durante as investigações foi possível identificar a existência de dois grupos distintos com práticas criminosas semelhantes, com a comercialização ilegal de medicamentos utilizados como esteroides anabolizantes, comercialização de suplementos alimentares adulterados, falsificação e/ou adulteração de notas fiscais e prescrição indevida de medicamentos.
O suposto grupo criminoso atuava com a participação de empresários do ramo de academias de ginástica, médicos, farmacêuticos e nutricionistas, devidamente organizados na comercialização de substâncias anabólicas.
Parte das substâncias comercializadas pelos investigados era de origem contrabandeada, sendo a maioria delas do Paraguai. A outra parte era adquirida em farmácias regularizadas, por meio de receitas médicas emitidas indevidamente por médicos e nutricionistas, sem que o paciente se submetesse à consulta médica que comprovasse a necessidade de uso das drogas. Além disso, os donos das farmácias vendiam as substâncias sem exigir os receituários médicos, em conluio com os profissionais da saúde envolvidos no esquema.
Em 10 de junho de 2016, dia da operação para desbaratar a quadrilha investigada, os policiais do Nuroc apreenderam farta quantidade das substâncias anabolizantes, além de outros medicamentos de uso controlado e uma arma de fogo. Os materiais foram encontrados em estabelecimentos comerciais regulares e nas residências dos investigados. Vários dos produtos eram de uso veterinário (usados como anabolizantes), o que pode oferecer grave risco à saúde dos usuários.