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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Pazolini tem muito mais a perder que Coser em um debate ideológico

Pesquisa Ibope/Rede Gazeta traz candidatos tecnicamente empatados na intenção de voto (48% a 43% para o delegado), mostrando que tem sido eficaz a estratégia do petista de tratar Pazolini como bolsonarista não assumido

Publicado em 23/11/2020 às 18h32
Atualizado em 23/11/2020 às 18h32
Pazolini e Coser disputam o 2º turno da eleição a prefeito de Vitória
Pazolini e Coser disputam o 2º turno da eleição a prefeito de Vitória. Crédito: Lissa de Paula e Facebook de João Coser / Montagem: Vitor Vogas

O deputado Lorenzo Pazolini (Republicanos) tem muito mais a perder que o ex-prefeito João Coser (PT) em uma disputa travada no campo ideológico. É a primeira conclusão tirada dos resultados da primeira pesquisa Ibope/Rede Gazeta sobre o 2º turno em Vitória. Tendo largado quase 16 mil votos atrás, o petista equilibrou em jogo e, passada a primeira semana do 2º turno, chega à semana decisiva em igualdade de condições com o adversário, em uma eleição totalmente aberta. Na intenção estimulada de votos, os dois estão tecnicamente empatados, no limite da margem de erro (de 4 pontos percentuais para mais ou para menos): o delegado tem 48%, contra 43% do ex-prefeito.

Esses números mostram, em primeiro lugar, que, se a disputa eleitoral for levada para o campo ideológico – como efetivamente tem sido pela campanha de Coser, sobretudo nas redes sociais –, Pazolini tem muito mais a perder que o candidato do PT. A potencial eficácia dessa estratégia, de levar a eleição para o embate ideológico, não parece uma via de mão dupla. Em outras palavras, tem potencial para dar muito mais certo para Coser (tirando votos de Pazolini) do que o contrário. Explico.

POR QUE COSER NÃO TEM MUITO A PERDER?

Se quisesse fazê-lo, Pazolini até poderia carimbar na testa de Coser a estrelinha vermelha, sublinhar o petismo genético do adversário (cofundador do partido no Espírito Santo), resgatar os múltiplos esquemas de corrupção do qual o PT foi protagonista em nível federal, durante os governos Lula e Dilma, revelados sobretudo pela Operação Lava Jato. Qual seria o resultado disso?

Acentuaria, é claro, a rejeição a Coser pelo viés ideológico, do antipetismo. Poderia tirar mais alguns votos dele. Mas, a bem da verdade, tenderia a ter efeito limitado, pois quem não vai votar em Coser por ser ele o candidato do PT provavelmente já tem isso bem claro e muito bem definido desde que o ex-prefeito resolveu lançar a candidatura. Difícil explorar mais o antipetismo do que já foi explorado nos últimos anos.

Uma evidência muito forte disso é que, ao longo da série de três pesquisas Ibope/Rede Gazeta publicadas durante o 1º turno, a taxa de rejeição a Coser manteve-se, do início ao fim, rigorosamente no mesmo patamar: 35%. A tática de minar um candidato petista por ser um candidato petista parece ter se exaurido.

Tanto é que Coser não veio para essa campanha renegando nem seu partido nem Lula (como chegou a fazer em campanhas anteriores). Ao contrário, demonstra-se tão à vontade nesse terreno do embate ideológico que, em sua propaganda de rádio e TV, chegou a parabenizar Lula no aniversário deste e a exibir uma declaração de apoio por parte do ex-presidente, a poucos dias da votação em 1º turno – em um óbvio movimento para atrair o voto útil das esquerdas, que parece ter funcionado, haja vista as votações irrisórias de candidatos como Namy Chequer (PCdoB) e Gilbertinho Campos (PSOL), agora apoiadores declarados do candidato do PT.

Em entrevista para A Gazeta, já no 2º turno, Coser chamou Lula de amigo e recusou-se a renegar sua amizade com o ex-presidente. Ok, a “estrela vermelha” propriamente dita não está lá, maquiada de roxo e laranja pela equipe de marketing da campanha. Mas a postura de Coser pode ser traduzida mais ou menos assim: “Olha, sou o candidato do PT, mas não o candidato só do PT, todo mundo sabe que sou petista, que fui petista a vida inteira, que fui prefeito pelo PT, que sou amigo de Lula e, bem, ciente disso, quem quiser vir que venha, mas não vou renegar o que sou”.

POR QUE PAZOLINI TEM MUITO A PERDER?

Por outro lado, como político bem mais jovem (38 anos contra mais de 60), em início de trajetória, e como novidade nesse processo eleitoral, Pazolini tem muito mais a perder se cair nessa armadilha e aceitar levar a campanha e o debate eleitoral para o campo ideológico.

Diferentemente de Coser, até por sua curtíssima história política (que não chega a dois anos de mandato, contra mais de três décadas do ex-prefeito), Pazolini não desperta, ou não despertava até então, no imaginário coletivo, uma associação direta com o partido A ou B, ou, o que é ainda mais importante, com determinados aliados e líderes políticos estaduais e nacionais.

Ao longo de todo o primeiro turno, o delegado passou incólume nesse aspecto. Ninguém explorou o possível vínculo ideológico – ainda que por aderência de ideias – entre o jovem candidato de direita e figuras políticas como Magno Malta, Damares Alves e Jair Bolsonaro. Estava ali quicando dentro da área, mas ninguém ainda tinha testado isso.

Assim, do ponto de vista da estratégia de uma campanha para minar a outra, o fato novo que vejo, o vácuo que passou a ser preenchido, é justamente a tentativa de associação de Pazolini com Bolsonaro – inferida –, com Magno Malta – resgatada – e com Damares Alves – inegável, haja vista que o deputado chegou a homenagear, na Assembleia, a ex-assessora parlamentar de Magno.

Por isso, parece-me muito evidente que a Coser tem muito mais a ganhar se sua campanha, de maneira orquestrada, ou se apoiadores dele, espontaneamente, passarem a colar em Pazolini – como, aliás, já estão fazendo desde a véspera do 1º turno – um vínculo ideológico com algo que ele renega (o bolsonarismo e o damarismo, expressão mais fundamentalista do primeiro). A eficácia dessa estratégia tende a ser diretamente proporcional à rejeição a Bolsonaro e à rejeição dos eleitores de Vitória ao bolsonarismo.

Vale lembrar que, na pesquisa Ibope/Rede Gazeta de 2 de novembro, mais da metade dos entrevistados (52%) avaliaram o trabalho do presidente como ruim ou péssimo. E, no último dia 15, bolsonaristas declarados foram varridos pelas urnas no espírito Santo.

OS DOIS ESTÃO JOGANDO BEM

Pazolini “chegou chegando” à Assembleia no início do ano passado, mostrando uma inteligência política acima da média para um recém-chegado. Não tardou a se destacar nas articulações de bastidores e nos embates contra a base de Casagrande dentro do plenário. Ninguém precisa dizer isso a ele, mas vale reforçar para os leitores: ele pode colocar a perder uma eleição na qual hoje é favorito se topar entrar num duelo de fundo político-ideológico.

Consciente disso e bem treinado por sua equipe de campanha, o candidato tem se esquivado, habilidosamente, de toda e qualquer pergunta que contenha, já na formulação, algum traço de disputa ideológica, que trate de direita ou esquerda, de Bolsonaro, de Damares Alves etc. Foi assim na entrevista concedida a A Gazeta, na qual se demonstrou altamente escorregadio. Também em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o representante da direita nesse pleito recusou-se a responder diretamente a qualquer pergunta que rescendesse a embate ideológico. Parece que na mente dele Pazolini acende um alarme e ele, em outras palavras, diz “próxima pergunta” ao entrevistador.

Na sua propaganda eleitoral, mesma coisa. O delegado está se apresentando melhor ao público, falando de sua história, trazendo sua vice, Capitá Estéfane (Republicanos), para o centro do palco e apresentando suas propostas. Está jogando bem, enfim.

Mas Coser também está jogando bem. No horário eleitoral, não fez menção, pelo menos até agora, de levar a disputa para o campo ideológico. Numa campanha bem “pra cima”, está enfatizando seu legado, prometendo o resgate do orçamento participativo e apresentando novas propostas, como o projeto de revitalização da orla da Grande São Pedro e da Grande Santo Antônio.

Mas, aos poucos, em entrevistas, também começa a dar as suas alfinetadas. Naquela concedida à Folha, afirmou que Pazolini esconde Bolsonaro só por estratégia, porque sabe que teria a perder com isso.

Tudo isso somado, vale muito a pena conferir a postura e a estratégia com as quais virão Pazolini, mas, principalmente, João Coser, no debate de logo mais de A Gazeta e CBN Vitória, marcado para começar às 19 horas e com transmissão ao vivo em nossos canais.

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