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Quer o impeachment

Partido de Casagrande, PSB tem sido a pomba no telhado de Bolsonaro

Entre os partidos do centro para a esquerda do espectro político nacional, mais até que o PT, o PSB tem sido um dos protagonistas da oposição ao governo, com ações como pedido de impeachment e defesa de "frente ampla" contra o bolsonarismo

Publicado em 20 de Junho de 2020 às 06:00

Públicado em 

20 jun 2020 às 06:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Presidente Jair Bolsonaro
Presidente Jair Bolsonaro Crédito: Isac Nóbrega/PR
Partido Socialista Brasileiro (PSB), ao qual pertence o governador Renato Casagrande, tem por símbolo uma pomba. Essa pomba montou ninho no Palácio da Alvorada, naquele vão existente entre o teto e o telhado, bem acima da suíte presidencial. Fixou residência ali. De madrugada, fica arrulhando sem parar e não deixa dormir direito o inquilino temporário do imóvel (que não tem a quem reclamar). É por isso que a Michelle sumiu de cena: não quer aparecer com olheiras. E é óbvio que, no momento, não faltam preocupações ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), mas talvez isso ajude a explicar por que, ultimamente, ele parece sempre com semblante cansado, ainda mais nervoso que o habitual até para ele.
Brincadeiras à parte, a verdade seriíssima é a seguinte: um apanhado das notícias e iniciativas mais recentes nos leva à constatação de que o partido de Casagrande tem sido, obstinadamente, uma pedra no sapato (ou do coturno) bolsonarista. Entre os partidos do centro para a esquerda do espectro político nacional, mais até que o PT, o PSB tem sido um dos protagonistas da oposição no Congresso, ao lado da Rede Sustentabilidade (só que esta, ao contrário do PSB, tem pouquíssimos parlamentares, sendo um deles Fabiano Contarato).
Essa conclusão é ditada por uma rápida compilação de iniciativas recentes de parlamentares, dirigentes e líderes do PSB, no plano nacional, em relação ao governo Bolsonaro e ao bolsonarismo: pedido de impeachment assinado por 16 deputados socialistas (não por Rigoni e Ted Conti); notícia-crime no STF contra Bolsonaro por ter incitado a invasão de hospitais de campanha, no dia 11 de junho; a coalizão de esquerda recém-formada no Rio de Janeiro, ao lado da Rede e do PDT, chamada de “frente progressista”, para derrotar o bolsonarismo encarnado por Marcelo Crivella, Flávio e Carlos Bolsonaro, na eleição à prefeitura da capital fluminense; a ampliação do movimento “Janelas da Democracia” e o apoio a outros na mesma linha, como o “Somos 70%” e o “Basta”.
Outro exemplo: O deputado Alessandro Molon (PSB) é líder não só do partido, mas também da oposição na Câmara Federal. Deputado pelo Estado do Rio (onde os Bolsonaros se radicaram), é um dos mais combativos parlamentares na “resistência” ao governo. Nesta quinta-feira (18), em entrevista à CNN, no contexto da demissão de Abraham Weintraub e da prisão de Fabrício Queiroz, voltou a defender com veemência o impedimento de Bolsonaro. E disse: “Queiroz ser preso na casa do advogado de Bolsonaro mostra que o presidente está envolvido até o pescoço nesta história".
Para culminar, como relatamos nesta sexta-feira (19), a cúpula nacional do PSB acaba de aprovar resolução oficial que lança o impeachment como meta prioritária da “luta do partido”, com o envidamento de todos os esforços dos socialistas e o direcionamento de toda a estrutura partidária para essa finalidade. A mesma resolução também prega a formação não de uma “frente ampla”, mas de uma "frente amplíssima contra o fundamentalismo de extrema-direita" (assim mesmo, no superlativo), que “ainda não se realizou em nenhum outro lugar do mundo”, “em defesa da democracia” e a fim de parar “a trajetória autoritária do governo Bolsonaro”.
Assinada pelo presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira (segundo ele, com adesão de Casagrande), e datada de 12 de junho, a resolução foi tirada de reunião virtual, realizada na véspera, com participação de outros dirigentes, parlamentares, prefeitos, ex-governadores e dos dois atuais governadores do partido: Paulo Câmara (PE) e Casagrande. O texto foi aprovado por unanimidade.
De acordo com matéria elaborada pela assessoria nacional do PSB e disponível no site do partido, “os socialistas também reafirmaram o engajamento no movimento pelo Impeachment Já do presidente da República. Durante quatro horas, os socialistas analisaram a conjuntura política, econômica e social do país e aprovaram também propostas voltadas para a área econômica e social no período pós-pandemia”.
O colegiado (de novo: Casagrande incluído) também aprovou uma manifestação em desagravo ao STF e ao STJ, “em reconhecimento à firme atuação de seus integrantes na defesa do Estado Democrático de Direito e das garantias constitucionais”.
Ainda segundo a matéria e os termos da resolução, “para o PSB, Jair Bolsonaro busca implantar no país um regime autoritário, com uma estratégia que inclui, por exemplo, a tentativa de armar a população civil e de envolver polícias e Forças Armadas; o desmonte da legislação e órgãos de controle ambiental; o descaso com a pandemia do coronavírus e o uso de fake news contra governos prejudicando o combate à doença; as limitações às políticas assistenciais e aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres; e os ataques sistemáticos à verdade e aos fatos pelas redes sociais – em contraposição à atuação da imprensa”.
Para o PSB, a formação dessa “amplíssima frente democrática” é “tarefa urgentíssima” (de novo o superlativo) e, “para fazer frente ao atual governo”, deve ser baseada “em um programa ‘majoritário e robusto’ em defesa da democracia e de suas instituições”. Além disso, “o partido se propõe somar esforços com movimentos da sociedade civil que se opõem ao governo, como #Somos70%, #EstamosJuntos e #Basta”.

CASAGRANDE E PAULO HARTUNG: SEPARADOS, MAS JUNTOS

Cabe registrar uma ironia: como mostramos aqui há duas semanas, em entrevista publicada no dia 6 de junho. um dos integrantes e signatários do manifesto seminal do “Estamos Juntos” é o ex-governador Paulo Hartung (sem partido). Assim, mesmo que bem distantes, e de modo bem indireto, ele e Casagrande podem se juntar nesse movimento, ou “frente ampla democrática”. Não espanta: “separados, mas juntos” é mesmo o “novo normal” nestes tempos de pandemia.

"JANELAS PELA DEMOCRACIA"

O “Janelas pela Democracia” consiste em lives pelas redes sociais, organizadas por cinco partidos de centro-esquerda (Rede, PDT, PV e Cidadania, além do PSB), reunindo dezenas de personalidades e líderes do mundo político, social, artístico, cultural e intelectual “dispostos a defender a democracia”. A segunda edição ocorreu na última quinta-feira (18).

SE ALGUÉM TEM ALGUMA DÚVIDA...

Se alguém tem alguma dúvida de que o PSB está com os dois pés bem fincados na oposição ao governo Bolsonaro, um exercício válido é acessar a página oficial do partido na internet e checar a lista de notícias mais recentes publicadas pela assessoria de comunicação, além dos artigos firmados por líderes da agremiação. Dê só uma olhada na lista de publicações dos últimos oito dias: 
Vice-governadora do ES [Jaqueline Moraes] e oficial da Unicef discutem projetos para crianças e adolescentes negros (19/06)
PSB vai ao STF contra compartilhamento de dados de brasileiros com Abin (19/06)
Na 2ª edição, Janelas pela Democracia se amplia em defesa do impeachment de Bolsonaro (19/06)
Por uma agenda antirracista, por Bira do Pindaré (18/06)
PSB, PDT e Rede lançam frente progressista para concorrer à Prefeitura do Rio (18/06)
Danilo Cabral solicita informações sobre presença militar no Governo Federal (16/06)
PSB vai ao STF contra compartilhamento de dados de brasileiros com Abin (16/06)
A hora da renda básica, por João Campos (16/06)
NOTA DE SOLIDARIEDADE AO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (15/06)
Tempos de altercação, por Fábio Maia (15/06)
O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL É UM DOS PILARES DA DEMOCRACIA BRASILEIRA E NÃO PODE SER ATACADO IMPUNEMENTE (15/06)
Live pela democracia, nesta quinta (18), reúne líderes de 6 partidos, movimentos sociais e artistas (14/06)
PSB irá apresentar notícia-crime contra Bolsonaro por incitar invasão a hospitais de campanha, afirma líder Alessandro Molon (12/06)
PSB aprova resoluções sobre fundo eleitoral, escolha de candidatos e prorrogação de mandatos em diretórios (12/06)
Povos indígenas temem extermínio por coronavírus e pedem socorro (12/06)
Vitória da democracia: Congresso devolve MP que autoriza Weintraub a nomear reitores (12/06)
Executiva Nacional defende "amplíssima" frente para enfrentar "fundamentalismo" de extrema-direita de Bolsonaro (12/06)

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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