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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Casagrande apoia resolução do PSB por impeachment e frente ampla contra Bolsonaro

Governador está pessoalmente envolvido em articulação desencadeada por dirigentes nacionais de seu partido, em defesa da democracia e contra o "fundamentalismo de extrema-direita de Bolsonaro”. Texto publicado pelo PSB, com seu apoio, define impeachment como prioridade da sigla

Publicado em 19/06/2020 às 05h00
Atualizado em 19/06/2020 às 05h02
Renato Casagrande participa de reunião sobre o socorro aos Estados com o presidente Jair Bolsonaro, outros governadores e os presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre
Renato Casagrande participa de reunião sobre o socorro aos Estados com o presidente Jair Bolsonaro, outros governadores e os presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre. Crédito: Helio Filho/Secom-ES

O governador Renato Casagrande está pessoalmente envolvido em uma articulação desencadeada por dirigentes, parlamentares e outros governadores de sua agremiação política, o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Uma articulação que passa pelo apoio à proposta de impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e pela defesa da formação de uma “frente amplíssima em defesa da democracia brasileira e contra o fundamentalismo de extrema-direita de Jair Bolsonaro”. A expressão é utilizada em matéria produzida e publicada pela assessoria nacional do PSB. Está na página oficial do partido.

De acordo com a mesma publicação, Casagrande participou, no último dia 11, de uma reunião por videoconferência da cúpula nacional do PSB, realizada por meio de um aplicativo e coordenada pelo presidente nacional do partido, Carlos Siqueira. Além de Casagrande e Siqueira, o colegiado foi formado pelo governador Paulo Câmara (Pernambuco), os ex-governadores Rodrigo Rollemberg (DF), Ricardo Coutinho (PB), Márcio França (SP) e João Capiberibe (AP), o vice-presidente de Relações Governamentais do PSB, Beto Albuquerque, deputados federais, senadores, prefeitos e representantes dos seis segmentos sociais do partido.

Dessa reunião, saiu uma resolução oficial da Executiva Nacional do PSB, assinada por Carlos Siqueira, mas que, segundo o próprio texto do documento, conta com o apoio, “especialmente, dos governadores socialistas Paulo Câmara, de Pernambuco, e Renato Casagrande, do Espírito Santo, que, apesar das limitações institucionais dos seus cargos, defendem uma postura ofensiva do PSB nesse quadro”. Antes de assinar a resolução, Siqueira afirma que ela "foi aprovada por unanimidade pela Comissão Executiva Nacional do Partido reunida virtualmente em 11 de junho de 2020". Casagrande, repita-se, participou da reunião, logo foi um dos que aprovou o documento.

Nessa resolução, o partido condena “a trajetória autoritária do governo Bolsonaro” e defende, enfaticamente, “a urgência de uma amplíssima frente em defesa da democracia”, que reúna democratas do país, dos mais diversos matizes, em torno de um objetivo comum: derrotar “o projeto antidemocrático de extrema-direita do governo Bolsonaro”. Na resolução, o partido dá centralidade a “salvar a democracia brasileira”. E define como meta prioritária, de agora em diante, a luta pelo “Impeachment Já” do presidente da República:

“Em consequência do cenário traçado até aqui, a luta pelo IMPEACHMENT JÁ deve ser a principal luta e bandeira do PSB na atualidade. Os esforços do conjunto da estrutura partidária devem estar todos canalizados para o movimento ‘Janelas da Democracia’, como forma de demonstrar a força real do Partido, que é o maior de todos os que integram esse movimento”.

Na resolução, para fundamentar a decisão do partido, o PSB relaciona 18 pontos que têm marcado o governo Bolsonaro, a saber: execução de uma plataforma econômica ultraliberal (1); alinhamento da política externa aos interesses dos americanos (2); descaso com a pandemia causada pelo coronavírus (3); desmonte da legislação e de órgãos de controle ambiental (4); relaxamento do combate ao desmatamento (5); “militarização” da administração federal e da base de apoio governista (6); facilitação da posse de armas (7); revogação do Plano Nacional de Participação Social (8); eliminação da demarcação de terras indígenas (9).

O texto condena, ainda, alterações “anticivilizatórias” no Código de Trânsito Brasileiro (10); o excludente de ilicitude (11); o apoio velado ao motim da Polícia Militar do Ceará, de 19/02/2020 a 01/03/2020 (12); o aparelhamento de instituições de Estado e intervenções na Polícia Federal (13); a participação reiterada em manifestações antidemocráticas (14); a tentativa de criminalizar movimentos de oposição ao governo (15); a produção reiterada de crises institucionais (16); a crise federativa (17); e o “toma lá, dá cá” adotado pelo presidente para impedir o próprio impedimento.

Abaixo, reproduzimos, na íntegra, uma passagem da resolução do PSB. O texto é autoexplicativo, e a leitura não admite dúvidas: o partido de Renato Casagrande, em documento discutido e apoiado pelo governador do Espírito Santo, decidiu radicalizar na oposição ao governo Bolsonaro e priorizar a luta política em prol do impeachment do presidente, canalizando todos os seus esforços doravante para o cumprimento desse objetivo estratégico. Confira:

A listagem não exaustiva de medidas antipopulares e antidemocráticas do atual governo permite traçar um quadro claro sobre a plataforma política que o anima. Não se trata, como dizem seus seguidores e parte da mídia nacional, de "rompantes”, de ações e reações de um presidente de "personalidade forte”.

O governo atual procura instalar no Brasil um regime autoritário, com base na cartilha da extrema-direita, que vem se espalhando mundo afora. Tentativas de armar a população civil, subordinar funcional e ideologicamente polícias e parte das Forças Armadas, especialmente ferindo a autonomia da Polícia Federal. Observa-se (sic) também favorecimentos anticivilizatórios nas regras de trânsito, limitações severas às políticas assistenciais e aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, ataques sistemáticos às verdades e aos fatos, com o objetivo de criar bolhas de opinião nas redes sociais – em contraposição à atuação da imprensa e ao jornalismo – fazem parte dessa estratégia.

A rigor, os democratas precisam se conscientizar definitivamente de que o primeiro mandatário do país tem uma plataforma de ações que compreende os planos estratégico, tático e operacional, ou seja, um nível de organização expressivo, que põe objetivamente sob risco a democracia e as instituições próprias ao Estado Democrático de Direito.

É neste contexto que se apresenta a criação de uma frente amplíssima em defesa da democracia e de resistência a quaisquer iniciativas arbitrárias do governo. Esta concertação precisa envolver atores de todas as áreas da sociedade civil, artistas, intelectuais, partidos políticos, governadores e prefeitos, sindicatos e confederações de trabalhadores, instâncias representativas democráticas das polícias, órgãos de imprensa, cientistas e autoridades de saúde, na defesa de um programa majoritário e robusto de defesa da democracia.

Registra-se que a criação dessa frente ampla em defesa da democracia tem apoio de inúmeros governadores do estado mais (sic), especialmente, dos governadores socialistas, Paulo Câmara de Pernambuco e Renato Casagrande do Espírito Santo, que apesar das limitações institucionais dos seus cargos defendem uma postura ofensiva do PSB nesse quadro [grifo nosso].

Esta tarefa é URGENTÍSSIMA, porque não se pode dizer, infelizmente, que o presidente da República e o seu grupamento ideológico estejam sendo mal sucedidos no intento de impor sua plataforma política fundamentalista à sociedade civil. Além disso, estão melhores organizados neste momento do que as forças democráticas, e têm sob seu controle a máquina federal.

O engajamento do Partido Socialista Brasileiro - PSB à causa de uma frente democrática ampla se dá neste cenário, e o partido envidará todos os esforços a seu alcance para organizar esta instância representativa e de resistência da sociedade civil, além de apoiar movimentos com (sic) o Basta e o Somos 70%.

Chegamos efetivamente ao ponto da ação, da práxis, e os verdadeiros democratas não podem se furtar a agir segundo a urgência do momento; não devem se deixarem (sic) levar por veleidades, cálculos e conveniências eleitorais, pretensões hegemônicas em meio às forças progressistas. É ESSENCIAL SALVAR A DEMOCRACIA, sem a qual os brasileiros não terão chances de escrever um futuro diferente, tanto deste presente, quanto dos descaminhos históricos produzidos [pelo] arbítrio, que, como regra, têm se inclinado a proteger os favorecidos e aprofundar progressivamente mais as desigualdades existentes em nossa sociedade.

CONCLUSÃO

O silogismo é simples:

Premissa 1: A resolução do PSB apoia declaradamente o impeachment.  Mais que isso: define a destituição do presidente como meta maior, no momento, da "luta política" do partido; 

Premissa 2: Casagrande apoia a resolução (e participou da reunião que a originou);

Conclusão: Logo, mesmo que indiretamente, podemos inferir que Casagrande está apoiando o impeachment. Ou, pelo menos, apoiando a "postura ofensiva" (nos termos do documento) adotada por seu próprio partido na perseguição do impeachment. 

Por intermédio da Superintendência Estadual de Comunicação, pedimos uma entrevista ou uma manifestação do governador sobre as deliberações da reunião dos caciques socialistas no último dia 11. Não houve manifestação por parte dele. O espaço segue aberto para isso.

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