Eu me nego a discutir eleições de 2022, porque esse debate tem sido um desserviço ao país neste momento de pandemia. Tenho me manifestado nesse sentido. Precisamos romper com esse olhar obsessivo em direção a 2022. É uma eternidade e, com essa pandemia, ficou ainda mais distante. Nós precisamos é cuidar do país. Defender as instituições democráticas: isso virou um tema prioritário. Mas defender também uma coordenação racional para o país atravessar esta crise, para cuidar das vidas humanas, que é prioridade absoluta, e nós estamos perdendo muitas vidas humanas, excessivamente. E cuidar dos empregos, que também estão sendo destruídos nessa pandemia. Cuidar das atividades econômicas. E ainda precisamos de um olhar pós-crise, porque a crise vai passar. É claro que eu nunca convivi com uma crise dessa magnitude. Esta é a crise mais grave das nossas gerações. Mas convivi com dezenas de crises no país ao longo da minha militância na vida pública. Para lembrar só um exemplo, a crise de 2008/2009, da bolha do mercado imobiliário americano, que foi chamada de “marolinha” [por Lula], e de “marolinha” não tinha nada. Foi um tsunami na economia do país. Mas volto a dizer: nada é igual a esta crise, que é brutal, porque ceifa vidas humanas e “desliga” a economia, pois só há uma estratégia possível de saúde pública, que é o distanciamento social nos diversos níveis, na medida em que não temos remédio nem vacina. Ela é um desligar da economia. É como tirar um eletrodoméstico da tomada. Mas, enfim, se tem uma coisa que aprendi desde cedo, é que toda crise passa. Mesmo esta, que é a pior, vai passar. E, além de cuidar do emergencial, nós precisamos ter força para olhar para o pós-crise. Que Brasil vai sair no pós-crise? Um país se arrastando de joelhos ou um país de pé, com energia e tração, para voltar a prover oportunidades no pós-crise? A preço de hoje, eu digo sem nenhuma chance de errar: vamos sair nos arrastando, vamos sair de joelhos. Mas tem tempo para corrigir essa rota. Tenho batido nesta tecla: nós temos que sair dessa obsessão por 2022 e colocar foco agora nestas duas missões que temos: cuidar do emergencial na crise (salvar vidas, empregos, atividades econômicas e empresas) e preparar o Brasil para o pós-crise. Precisamos ancorar o endividamento que estamos fazendo na crise, que é grave, mas necessário. É preciso ancorá-lo, para que o país não derreta no pós-crise. Precisamos dinamizar a economia. Vou dar só um exemplo: essa falta de esgoto e de água tratada que se evidenciou com a pandemia. Esse é um espaço que, se acertarmos no Congresso Nacional o marco regulatório do saneamento básico, isso tem uma grande capacidade de atrair investimentos e de gerar empregos nessa área. São empregos de uma mão de obra desqualificada e intensiva, porque é construir rede de coleta de esgoto, rede de distribuição de água, estação de tratamento de esgoto e de água. Quer dizer, um mundo de empregos Brasil afora. E temos quase 30 milhões de brasileiros sem água tratada e mais 100 milhões sem esgoto. Então é muito serviço que se pode fazer para dar ao Brasil uma capacidade de andar no pós-crise. Mas, a preço de hoje, sairemos nos arrastando.