“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” Todo mundo, até o evangelista João, está careca de ouvir o presidente Jair Bolsonaro evocar essa passagem do livro bíblico escrito pelo apóstolo preferido de Cristo. Mas vamos dizer a verdade: quanto mais o presidente repete isso, menos real soa a citação bíblica em sua boca.
Se você que me lê ainda crê, de verdade, que Bolsonaro tem algum interesse verdadeiro em que as pessoas “conheçam a verdade”, passou da hora de compreender: a verdade é que o presidente, por todos os sinais que dá, não quer verdadeiramente que ninguém conheça verdade alguma. Muito menos quando se trata da gravidade da pandemia do novo coronavírus no Brasil e do estrago humanitário que ela tem causado sobre a nossa gente.
Nesta sexta-feira (5), sem nenhuma explicação técnica plausível, o governo decidiu retardar, das 19h para as 22h, a atualização oficial do número de óbitos por Covid-19 e de novos casos confirmados de infecção pelo coronavírus nas últimas 24 horas. Num típico sincericídio, a motivação verdadeira partiu do próprio Bolsonaro: “Acabou matéria do Jornal Nacional”, debochou.
Já parecia absurdo o bastante, não? Porém, como já escrevi aqui, na Era Bolsonaro, “nada mais deve ser considerado absurdo o bastante. [...] O que outrora seria logo descartado como hipótese delirante agora é fato e notícia do dia a dia, estampada em todos os jornais e sites.”
Como também já anotei aqui, “em se tratando de Jair Bolsonaro, não há limite do absurdo atingido num dia que não possa ser ainda mais alargado no dia seguinte, por novo ato ou declaração do presidente”. Dito e feito, mais uma vez. Neste sábado (6), como se o descompromisso com a transparência já fosse pouco, o governo federal anunciou uma decisão inacreditável: parou de divulgar, diariamente, o total acumulado de mortes por Covid-19 no país.
Após dois dias seguidos com recorde de mortes e divulgação tardia dos números, o presidente confirmou, pelo Twitter, a mudança na metodologia de divulgação sobre vítimas da Covid-19 – o que pode significar, na prática, a divulgação de números de mortes menores –, engrossando as críticas de que o governo pretende manipular dados da pandemia.
O novo modelo já começou a ser usado no boletim da noite desta sexta-feira, quando foi divulgado que o país registrou 1.005 óbitos nas 24 horas precedentes. O boletim do Ministério da Saúde não informou o total de mortes nem o total de casos confirmados da Covid-19 desde o início da pandemia.
A pasta também deixou de divulgar o total de casos em investigação para a doença, que até quinta-feira (4) era de 4.159. O portal do Ministério da Saúde com as informações consolidadas saiu do ar. O temor de especialistas e parlamentares é que, na prática, o governo passe com isso a maquiar os números reais (passando maquiagem de palhaço na cara do cidadão).
É o caso de se perguntar: se os números são ruins, a culpa é dos números ou de quem está fazendo pouco, ou nada, para mitigá-los? Se a divulgação dos números entristece, envergonha, deprime, derruba os brios da população, a solução é suprimir a divulgação ou trabalhar para atenuar as mortes de modo que os números dos próximos anúncios venham menos ruins? Acabar de vez com a transparência vai acabar com a pandemia? Como é que não informar os dados vai diminuir o número de óbitos?
O povo tem o direito de saber. Essas informações não atendem a emissora A ou B, a jornal X ou Y, e sim ao interesse público. Numa democracia moderna, informação pública transparente, em qualquer circunstância normal, é essencial para que todos os cidadãos possam saber o que se passa no país onde vivem e que cada um de nós ajuda a manter, além de embasar a nossa tomada de decisões. Agora, no momento ímpar que vivemos, em plena travessia da mais grave pandemia em um século de história, multiplique-se por 10 a importância de assegurar a transparência na divulgação dos dados.
Esconder ou maquiar os números verdadeiros da pandemia no Brasil não vai torná-la menos grave nem diminuir o tamanho real do seu estrago, que já é enorme e só tende a crescer. Houvesse responsabilidade e organização mínima por parte da autoridade federal, esse estrago poderia ter sido minimizado.
Em vez disso, só tem sido maximizado pela obscena indiferença de alguns governantes, a começar pelo próprio presidente, e pela falta clamorosa não só de uma coordenação nacional de esforços (que caberia à Presidência da República) mas também de interesse verdadeiro por parte de Jair Bolsonaro em assumir a liderança, o protagonismo e aseriedade que competiriam a ele, e a mais ninguém, na guerra diária por cada vida humana desde que a tal “gripezinha” chegou ao Brasil.
ENVERGONHA, MAS NÃO SURPREENDE
Envergonha, mas não chega a surpreender. Amor à transparência nunca foi bem o forte de Jair Bolsonaro. Manifestando, como de praxe, o germezinho autoritário incutido em sua mente, o presidente já deu inúmeras demonstrações de pouco apreço pelo princípio constitucional da transparência e da publicidade nos atos do poder público.
Em última análise, seu desprezo pela transparência combina perfeitamente com seu pouquíssimo apreço pelos pilares democráticos de modo geral, já que é ela, a transparência, um dos princípios basilares de toda democracia que se preze. É ela o que permite, por exemplo, que a imprensa e a sociedade em geral fiscalizem os atos do governo e dos seus governantes, conhecendo, verdadeiramente, a tal verdade que nos libertará
A passagem bíblica está certíssima: informação verdadeira e correta realmente liberta e emancipa o indivíduo, na medida em que lhe permite compreender a realidade, refletir criticamente sobre ela, compará-la com outras e, eventualmente, trabalhar para mudá-la.
Mas talvez seja justamente isso que o presidente não queira de verdade.
É BRIGA ATRÁS DE BRIGA, ATRÁS DE BRIGA...
Causando a revolta dos secretários estaduais de Saúde no Brasil inteiro, o novo secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard, declarou que os secretários estaduais estariam inflando números de mortes por Covid-19 para obter mais verbas do governo federal no combate à pandemia.
Brigam "para baixo" (com os Estados) e brigam para cima: a última do presidente foi com a OMS! Em vez de continuar caçando briga com Estados, governadores e secretários estaduais de Saúde, o governo federal poderia se perguntar: O que estamos fazendo aqui? Por que estamos no terceiro ministro (interino) em plena pandemia?!?
ACEFALIA
O Ministério da Saúde está acéfalo. O governo, idem.
LIBERTAÇÃO, NA VERDADE, VEM COM ARMAS
Bolsonaro não acredita de verdade que as pessoas se libertem com a verdade ou com informação. Nem com o pensamento crítico – que de fato pode emancipar pessoas, como defendi acima, mas do qual, notoriamente, não é fã. Na verdade, como o próprio Bolsonaro já frisou a seus ministros na reunião do dia 22 de abril, o que liberta as pessoas de verdade, para ele, é a... posse de armas de fogo.