Conhecido colecionador de polêmicas, o senador Magno Malta
colecionou vitórias políticas na temporada que antecedeu o período eleitoral (a
chamada “pré-campanha”). Entre todos os políticos do Espírito Santo que não
disputam pessoalmente algum cargo, o presidente estadual do Partido Liberal
(PL) pode ser considerado o maior vencedor. Hoje com locomoção limitada, devido
a uma série de cirurgias, o senador deitou e rolou.
Após mais de um ano “ameaçando” lançar candidatura própria
do PL ao Palácio Anchieta (chegou a dizer que ele mesmo poderia concorrer), por
não ver outro candidato de direita genuinamente comprometido com os valores e
as causas do bolsonarismo, Magno conseguiu deixar à sua feição a chapa liderada
pelo ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini, candidato a governador agora
oficialmente apoiado pelo PL e pelo próprio senador.
Dizendo-o de modo bem direto: Magno conseguiu botar na chapa
quem ele queria. Mais que isso: conseguiu retirar da chapa, ou garantir a não
inclusão, daqueles com quem não queria dividir o palanque de Pazolini.
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A coligação em questão, de oposição ao atual governo e ao
núcleo de Ricardo Ferraço (MDB) com Renato Casagrande (PSB), é formada por três
partidos: o Republicanos de Pazolini, o PL de Magno e o Democrata. Este último
é muito pequeno. Os dois pilares da coligação são o Republicanos e o PL,
partidos de grande porte nacionalmente.
O Republicanos é uma sigla conservadora de centro-direita
para direita, que deita raízes na Igreja Universal do Reino de Deus. O PL é o
partido bolsonarista por excelência, agremiação de direita com um pezão na
extrema-direita (como o próprio Magno).
O desenho final da chapa ficou assim:
Candidato a
governador: Pazolini (Republicanos)
Candidata a
vice-governadora: Bispa Eliane Leal (PL)
Candidatos ao Senado: Evair de Melo (Republicanos) e Maguinha Malta (PL)
À primeira vista, pode-se argumentar que a divisão ficou
meio a meio: dois candidatos majoritários para cada, com vantagem para o Republicanos,
que ocupa a cabeça da chapa. Dois partidos igualmente fortes, com espaços divididos
entre eles. Isso se nos ativermos ao retrato final.
Mas, quando analisamos o filme, o percurso que nos trouxe
até aqui, chama a atenção o poder acumulado por Magno nessa coligação e o grau
de concessões feitas por Pazolini ao senador, a fim de atender ao PL e garantir
a presença do partido dos Bolsonaro em seu palanque.
Aceitar absorver Maguinha e declarar apoio à filha de Magno?
Check!
Não abraçar a candidatura de Sérgio Meneguelli ao Senado?
Check!
Declarar apoio a Flávio Bolsonaro e incorporar em seu
discurso de campanha, ainda que moderadamente, algumas das pautas do PL? Check!
Aceitar, no fim das contas, que o PL emplacasse não só
Maguinha, mas também a candidata a vice-governadora? Check, check, check!
Por sua vez, Magno chega ao umbral do período oficial de
campanha ostentando, no mínimo, uma tripla conquista:
1) Impôs Maguinha na coligação;
2) Barrou Meneguelli (e, de quebra, Paulo Hartung),
afugentando o PSD;
3) Ainda por cima emplacou a vice, uma quase total
desconhecida até mesmo no meio político, oriunda do séquito dele.
Vice-governadora: a concessão
mais importante
A concessão mais evidente diz respeito à escolha da
companheira de chapa de Pazolini. Tudo bem sopesado, o que pode ser mais
importante, para um candidato a governador, do que a escalação de seu
companheiro ou companheira de chapa? Ora, em caso de vitória nas urnas, será ela
a substituta imediata e a primeira na linha sucessória. De uma semaninha de
férias à eventual impossibilidade de dar sequência ao mandato, é ela quem
estará ali, na cara do gol...
Ninguém espera que fatalidades ou imprevistos ocorram, mas o
conceito de “imprevisível” é exatamente este: algo inesperado, que ninguém
poderia ter previsto e a que todos nós estamos sujeitos. Qualquer
vice-governador(a) pode realmente assumir
o governo. Por isso, para o titular, deve ser alguém em quem ele possa confiar
cegamente, com quem mantenha excelente diálogo e entrosamento político. Isso no
plano ideal.
Ora, a Bispa Eliane não era o plano A de Pazolini. Nem o B
ou C... Os dois mal se conhecem. Policial militar da reserva, pastora e
pregadora evangélica, da Igreja Tabernáculo de Adoração, em Colatina, a Bispa
pode ser entendida como um aceno de Pazolini ao eleitorado feminino e ao
evangélico. Mas o que preponderou, de verdade, foi o fato de ser a indicação
pessoal de Magno.
A vice preferencial para Pazolini, efetivamente convidada
por ele, era a oncologista Lívia Vasconcelos, primeira-dama de Colatina. Não só
pelo perfil dela, mas porque traria com ela o PSD, outro partido de grande
relevância. Ora, se pararmos para pensar, qual foi o real motivo, a origem da
não vinda de Lívia senão... Magno Malta?!?
Ao se unir à coligação de Pazolini, o senador deu um chega
para lá no PSD, vetando a candidatura de Meneguelli ao Senado... Sem espaço, o
PSD espirrou para fora da coligação. E assim, jogada para escanteio, Lívia
ficou impossibilitada de ser a vice de Pazolini (como ambos gostariam).
Mesmo que indiretamente, Magno impediu Pazolini de ter ao
seu lado a vice priorizada por ele... e, como se não bastasse, o senador ainda emplacou
a vice de sua inteira confiança, feita
da sua costela política. Nesse caso, para o ex-prefeito de Vitória, a distância
entre a expectativa e a realidade foi a distância entre a Doutora Lívia e a
Bispa Eliane, entre a médica e a pastora.
A Bispa é um calço para Magno. Se Pazolini vencer e por qualquer
eventualidade precisar transmitir o cargo, quem governará de fato o Espírito
Santo? É uma pergunta legítima.
Vice de Pazolini não
terá “Bispa” no nome de urna
Eliane Leal Vieira, 50 anos, já disputou uma eleição na
vida: em 2024, foi candidata a vice-prefeita de Luciano Merlo em Colatina, na
chapa puro-sangue do PL. O pleito foi vencido por Renzo Vasconcelos (PSD),
marido da já citada Lívia.
Nesta eleição, a pastora seria candidata a deputada estadual
na chapa do PL e assim chegou a ser registrada pelo partido.
Como candidata a deputada, ela foi inscrita com o nome de
urna Bispa Eliane Leal, conforme consta no site do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE).
Entretanto, por decisão da campanha de Pazolini, ela não foi
registrada como candidata a vice-governadora com o mesmo nome de urna. O Republicanos
cortou o título “Bispa”, deixando só Eliane Leal. É assim que consta agora nos
registros do TSE, no programa de governo de Pazolini e no material de campanha
do candidato.
A explicação que recebemos de uma fonte do QG republicano é
que encurtar o nome de urna era melhor para a produção do material (atrasada,
dada a demora na definição), pois “Bispa Eliane Leal” seria muito longo.
Pode ser...
Mas também não deixa de ser uma maneira de suprimir do material
de campanha o título e a “aura religiosa” da companheira de chapa. O termo “Bispa”
poderia gerar estranhamento e até afastar potenciais eleitores de outros credos
e crenças.
Cumpre lembrar que o próprio Republicanos, partido de
Pazolini, mantém profunda relação histórica e institucional com a Igreja
Universal do Reino de Deus (IURD), fundada pelo Bispo Edir Macedo.
A legenda também abriga familiares diretos de Macedo, como o
ex-prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella (o Bispo Crivella), pastor da
IURD, e outras figuras proeminentes dessa denominação evangélica, como o
deputado federal Marcos Pereira, presidente nacional do partido e bispo
licenciado da mesma igreja.
Enfim, a vice de Pazolini não tem mais “bispa” no nome de urna, mas o partido do candidato é o “partido dos bispos”.
À sua feição
No início deste texto, escrevi que Magno conseguiu deixar a
chapa de Pazolini à sua feição.
Por curiosidade, no dia 1º de agosto, durante a convenção
estadual do PL, o próprio senador disse o seguinte a respeito do aliado:
“É quem mais se parece conosco neste momento, tem mais traços,
parece mais as rugas conosco, parece muito mais com as nossas orelhas e tal...
Então, nós vamos nos aproximar e estar juntos com quem parece um pouco mais
conosco. E, neste momento, ele parece mais conosco”.
Mas a chapa também ficou com os traços e as orelhas de Magno... uma de cada lado da cabeça da chapa (Pazolini).
To be continued...
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