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Vitor Vogas

O fogo eleitoral de Helder Salomão

“O fogo está aceso! Só que o fogo está crescendo nas bases, e o movimento que estamos fazendo com o apoio do Lula é consistente”, afirma candidato do PT ao Governo do ES

Publicado em 04 de Setembro de 2026 às 05:20

Públicado em 

04 set 2026 às 05:20
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Helder Salomão, candidato ao governo do Espírito santo, durante sabatina de A Gazeta e CBN Vitória. (Da Esq.p/dir.) Os jornalistas Leonel Ximenes, Abdo Filho, Fernanda Queiroz, Leticia Gonçalves, Vilmara Fernandes, e Vitor Vogas.
Helder Salomão, candidato ao governo do Espírito santo, durante sabatina de A Gazeta e CBN Vitória. (Da Esq.p/dir.) Os jornalistas Leonel Ximenes, Abdo Filho, Fernanda Queiroz, Leticia Gonçalves, Vilmara Fernandes, e Vitor Vogas. Carlos Alberto Silva

Pouca gente sabe, mas Helder Salomão (PT) na verdade tem nome de batismo composto: Helder Ignacio Salomão. Pelo segundo nome, é “xará” do seu principal apoiador: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ignacio, ou Inácio, deriva do nome latino masculino Ignatius, cuja raiz etimológica é o termo ignis, que em latim significa... fogo. Daí vem, por exemplo, “ignição”. Ignacio, então, seria o “ardente”, “aquele que traz o fogo”.


“Pegar fogo” é exatamente o que necessita, com urgência, a campanha de Helder Ignacio, o candidato do time do Luiz Inácio a governador do Espírito Santo. O deputado federal e ex-prefeito de Cariacica tem se declarado convencido de que chegará ao 2º turno. Para isso, suas intenções de voto precisam se espalhar como fogo morro acima.


Na última pesquisa Quaest, publicada por A Gazeta há uma semana, Helder apareceu com 10% das intenções estimuladas de voto. Ficou bem atrás do líder, Ricardo Ferraço (35%), e do vice-líder, Lorenzo Pazolini (28%). Para chegar ao 2º turno, precisa tirar 18 pontos.


Por isso, perguntamos a Helder na sabatina de A Gazeta e CBN, na última quarta-feira (2): o que está faltando para a sua campanha efetivamente “pegar fogo”? Helder respondeu com convicção: 

O fogo está aceso! Só que o fogo está crescendo nas bases, e o movimento que estamos fazendo com o apoio do Lula é consistente.

Helder Salomão (PT), candidao a governador do ES

Para esse “fogaréu” pegar, Helder também precisa superar um obstáculo. Até semana passada – quando foi feito o campo da última Quaest –, ele perderia para o governador Ricardo Ferraço até entre eleitores que se declaram lulistas, tanto no primeiro como no segundo turno.


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No primeiro turno, Ricardo alcançaria 41% das intenções estimuladas de voto nesse grupo, contra 32% de Helder.


No segundo, Ricardo o derrotaria por 10 pontos percentuais: 48% para o emedebista, 38% para o petista. Isso, repito, entre eleitores declaradamente lulistas.


Diante desse quadro parcial, perguntamos ao candidato petista: por que o senhor ainda não está conseguindo convencer os próprios eleitores de Lula de que é o melhor candidato a governador do Espírito Santo?


Helder alegou, em primeiro lugar, que a campanha está só começando.


“Trinta e quatro dias para o dia da eleição... Parece pouco tempo, mas é uma eternidade. E é agora que a nossa campanha está chegando às mentes e aos corações dos capixabas.”


Mas há controvérsias...


O período oficial de campanha no 1º turno, até o dia 3 de outubro (véspera da votação), corresponde a um total de 49 dias, precisamente sete semanas. Quando Helder participou da sabatina, estávamos no dia nº 18 de campanha. Hoje é o dia nº 20. Portanto, aproximadamente 40% do período de campanha já foi embora.


Mais importante, porém, foi o segundo argumento do candidato. Astutamente, Helder usou a seu favor outro dado da mesma pesquisa Quaest. “Um outro detalhe que a pesquisa Quaest também revela: mais de 50% do eleitorado capixaba não me conhece.”


De fato, o levantamento prova que, dos três principais candidatos, ele é o menos conhecido. Helder interpretou esse dado positivamente, como “potencial de crescimento”: se ele ainda é o menos conhecido, é o que tem a maior margem para crescer, à medida que as pessoas (e aqui também podemos incluir lulistas) tomarem conhecimento de sua candidatura.


A propaganda em meios de comunicação de massa ajuda nesse sentido, é claro. E, para sermos justos, é preciso ponderar que só faz uma semana que ela está indo ao ar. Aliás, quando o campo da Quaest foi realizado (de 23 a 26 de agosto), o horário eleitoral ainda não havia estreado (o que só ocorreu no dia 28, sexta-feira passada).


“Esse dado é um dado bom para mim. Pode parecer estranho eu dizer isso, mas é bom para mim, porque isso mostra o tanto que eu tenho condições de crescer, mostra o meu potencial de crescimento.”

“É pra valer!”

Na mesma toada, minha colega Letícia Gonçalves também perguntou a Helder: seria a candidatura dele tão somente, ou precipuamente, uma estratégia para garantir a Lula um palanque próprio no Espírito Santo (algo que ele não teve, por exemplo, em 2022) e para fortalecer a campanha do presidente à reeleição no Estado?


Vale lembrar – como também já destacou aqui Letícia – que esta é apenas a segunda vez na história em que Lula concorre à Presidência enquanto o PT disputa o Governo do Espírito Santo. E é a primeira desde Vitor Buaiz, na já distante eleição de 1994.


Em todas as outras campanhas de Lula ao Planalto (1989, 1998, 2002, 2006 e 2022), o PT não teve candidato a governador do Espírito Santo.


À pergunta da colega, Helder respondeu com a mesma afirmação que tem reiterado desde que passou a admitir publicamente a ideia de deixar de emendar um quarto mandato na Câmara para disputar o Palácio Anchieta, em encontro da Federação Brasil da Esperança realizado há cerca de um ano, em Cariacica: sua candidatura “é pra valer”.


Se assim não fosse, segundo Helder, ele nem teria entrado nessa – até porque seu deslocamento, sabidamente, comprometeu as chances eleitorais da chapa de federais da Fe Brasil no Espírito Santo.


Tendo feito dois federais (Helder e Jack Rocha) em 2022, a federação de esquerda trabalha para reeditar o feito. Mas, sem Helder na chapa, será difícil repetir a dose. Chances há, mas é mais provável que a chapa eleja um (João Coser ou Jack, com Iriny correndo por fora), a menos que o voto de legenda seja despejado com força nas urnas.


“Eu disse para o presidente: ‘Eu só serei candidato se for para valer. Se for só para ser palanque do presidente, a gente encontra um outro nome que possa disputar, até porque é fundamental a governabilidade e o número de deputados’”, disse Helder.

Helder Salomão, candidatos ao governo do Espírito Santo, durante sabatina de A Gazeta e CBN Vitória.
Helder Salomão, candidatos ao governo do Espírito Santo, durante sabatina de A Gazeta e CBN Vitória. Carlos Alberto Silva

Helder levou Apex para a entrevista

Assim como fizera Pazolini na véspera, Helder deu um jeito de levar para a sabatina, espontaneamente, o tema da crise financeira atravessada pela empresa Apex Partners. E o fez de um modo particularmente “maroto”.


A colunista Letícia Gonçalves lhe perguntou se ele defende a renúncia ou até a cassação de Alexandre de Moraes, em razão das conversas pouco republicanas mantidas pelo ministro do STF com o banqueiro Daniel Vorcaro.


No meio da resposta, virando a mesa, o candidato passou a falar diretamente sobre a situação da Apex. Fez isso de modo até mais direto que Pazolini, pois citou o nome da empresa, sem rodeios. O ex-prefeito de Vitória introduziu o tema na conversa, também respondendo a uma questão que versava sobre outro tema, mas inicialmente sem citar a empresa pelo nome. Só foi mais específico quando a âncora, Fernanda Queiroz, lhe perguntou se ele se referia à Apex, o que Pazolini, então, confirmou.


“Espertamente”, Helder fez questão de falar dos filhos dele e dos ensinamentos que sempre lhes transmitiu... uma maneira, enviesada (mas nítida) de associar a crise da Apex a Ricardo Ferraço e seu filho Pedro Chieppe, um dos sócios acionistas da empresa.


“Recorrendo aos meus pais de novo, o meu pai falava comigo: ‘Não faça nada errado, meu filho, porque a gente não pode apoiar o erro do filho’. Eu falo isso para a Sofia e para o Pedro: não pratiquem nenhum ato que possa desabonar a sua conduta, porque eu, como pai, não poderei passar a mão na cabeça de vocês. Está acontecendo aqui no Estado... Eu não quero falar especificamente da questão da... dos filhos de ninguém, mas há um claro conflito de interesses no caso da Apex. E o que me preocupa não é se tem filho de A ou B, mas os impactos na economia capixaba do que aconteceu em relação à Apex. Isso me preocupa.”


Até o momento, não há indício de participação ou envolvimento de Pedro Chieppe nas “inconsistências financeiras” detectadas por sócios da Apex.


Na própria sabatina, na última segunda-feira (31), Ricardo afirmou que seu filho tem cerca de 3% das ações da companhia e que essa é uma “crise do setor privado”, pois só envolve dinheiro privado. Segundo o governador, não há dinheiro do contribuinte capixaba investido na Apex.


“E a minha relação: de fato, o meu filho tem 3%, aproximadamente 3% dessa empresa, mas eu pessoalmente defendo que a investigação possa alcançar os responsáveis. Está tudo sendo devidamente investigado. CVM, Ministério Público, Justiça Federal, Justiça Estadual. E, por certo, eu acredito na inocência do meu filho, na boa-fé do meu filho, mas ele, assim como todos, está submetido às mesmas regras de investigação. Mas reitero: não há dinheiro público nessa crise que envolve a Apex. Essa, portanto, é uma crise do setor privado, assim como outras crises que nós vimos acontecer em outros estados, como o caso das Lojas Americanas.”

Corrupção do PT e alfinetada em Pazolini

A sabatina de Helder já quase chegava ao fim quando lhe fiz uma pergunta sobre o histórico de esquemas e escândalos de corrupção em governos anteriores do PT (Lula e Dilma no Planalto). O candidato tem dito que, se eleito, terá “tolerância zero” com corrupção. Como pode garantir isso? Seu próprio partido lhe dá lastro para fazer tal afirmação?


Helder respondeu que sua própria história de vida lhe dá lastro para afirmar isso, pois nunca se envolveu em nada errado e, em 30 anos emendando mandatos, não enriqueceu com a política.


“A minha história me credencia a isso. Estou no sétimo mandato. Eu não tolero e não tolerarei corrupção, porque para mim dinheiro público é mais sagrado que o dinheiro do meu salário. Eu zelo pela coisa pública. É claro que teve pessoas do meu partido envolvidas em corrupção. É verdade. Agora, há muitas investigações que foram concluídas e que depois se mostraram artimanhas político-eleitorais. Volto a dizer: seja do meu partido, seja de qualquer partido, se estiver envolvido em corrupção, eu não passo a mão na cabeça de ninguém. E digo para os meus filhos: não errem, porque eu não vou passar a mão na cabeça de vocês. Sejam justos, ganhem dinheiro honestamente.”


Helder ainda deu uma alfinetada em Flávio Bolsonaro (PL) – e, por tabela, em Pazolini:


“Quem quer ganhar dinheiro não devia estar na política. Devia ser empreendedor. Eu sei que não é fácil ser empreendedor, mas quem fica rico na política... eu tenho sete mandatos e não estou rico. Se a pessoa ficar rica na política, é porque fez coisa errada. Tem gente que, com um mandato, já tem mansões, já tem 41 imóveis, já comprou empresas... E tem até loja de chocolate nesse meio todo, nesse meio tempo aí, né?”

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Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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