O evento do PL em Vitória no último sábado (18) foi marcado
pela troca de declarações de apoio entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lorenzo Pazolini
(Republicanos). Mas serviu, antes de tudo, para consolidar a candidatura de
Maguinha Malta, ungida pelo pai, Magno Malta, ao Senado pelo PL.
Numa espécie de batismo eleitoral para a publicitária, Maguinha
discursou pela primeira vez em um evento daquele porte no período de
pré-campanha – embora o Espaço Patrick Ribeiro não estivesse lotado. E deu uma
precisa amostra do que será sua campanha ao Senado: “Deus (literalmente, a cada
25 segundos), pátria, família e liberdade”.
Em um dos muitos jingles executados, Flávio foi tratado como “o novo capitão”. Se o capitão é “novo”,
a cartilha não é. Nos discursos, na estética e no clima de culto
evangélico/eleitoral, estavam lá todos os elementos mais tradicionais do bolsonarismo,
com destaque para a velha sobreposição entre religião e política, com o evento político convertido em espécie de ato de fé e a campanha eleitoral, numa cruzada “do bem
contra o mal”, em nome de um Deus cujo nome foi pronunciado à exaustão.
A coluna gravou a fala de Maguinha, ouviu-a de novo e contou.
Num discurso de 18 minutos, a pré-candidata ao Senado pronunciou a palavra “Deus” 43
vezes – além de “Cristo” uma vez e “Jesus” mais três vezes. Em média, a filha
de Magno usou o substantivo próprio uma vez a cada 25 segundos de fala. Isso
porque não incluímos na contagem o pronome Ele.
O próprio Flávio chegou a declamar três versículos da
Bíblia, em momentos diferentes do discurso. Magno pregou como um pastor. O
mestre de cerimônias de todo o evento, com duração total de três horas, foi um
pastor que entrava e falava ao público em cada momento do show para apresentar quem
falaria a seguir.
O discurso inteiro de Maguinha, diante de uma plateia
amistosa e predominantemente evangélica, teve esse teor religioso. Segundo a
pré-candidata, ela decidiu entrar na política para ser “um instrumento de Deus”
e atendendo a um chamado direto d’Ele, assim como a Rainha Ester, no Velho Testamento
– a comparação foi feita por ela.
Falando em reis e rainhas, em seus quase 20 minutos com o microfone na mão,
Maguinha só mencionou um compromisso concreto, caso realmente chegue ao Senado:
ajudar a derrubar Alexandre de Moraes, por ela chamado de “imperador”: “O único
em um país do Ocidente”.
“O povo de bem vai dar uma resposta aos tiranos desta nação,
àqueles que acham que estão acima do bem e do mal, àqueles que acham que são
semideuses: Lula, Alexandre de Moraes e toda essa corja que aprisionou o
Brasil”, disse ela para sua militância.
A ideia de impichar Moraes é de fato prioritária para o PL e o “bolsonarismo raiz” e esteve na ponta da língua de quase todos que discursaram no evento (incluindo Flávio e Magno).
É exatamente por isso que o partido dá
tanta importância à eleição para o Senado desta vez, mais que em qualquer outro
pleito. A Câmara Alta é a única que tem o poder de cassar ministros do Supremo
por crimes de responsabilidade.
Para Maguinha, fazendo eco ao pai, “não existe democracia”
no Brasil. “O Senado é o Poder que reequilibra a balança da democracia.”
“Noites Traiçoeiras”
Muito jovem, Maguinha foi percussionista da banda de pagode gospel
Tempero do Mundo, que tinha o próprio pai como vocalista e gravou álbuns.
Juntos, no palco, os dois cantaram o sucesso “Noites Traiçoeiras” (em playback).
Flávio também cantou com Maguinha
uma canção gospel, mas à capela.
Calma 1
Em muitos momentos, a filha prestou reverências ao pai
diante da plateia. Mas, num deles, exagerou: chamou-o pelo epíteto de “maior
senador da história do Brasil”. Da história do Brasil?!?
Por maior que seja admiração e o amor filial, João Calmon e
Gerson Camata, por exemplo, devem ter se revirado no túmulo, para ficarmos em dois vultos só do Espírito Santo...
Calma 2
Maguinha é o reflexo perfeito do pai (na fisionomia, no timbre de voz
e na ideologia). Precisa tomar cuidado para não assimilar também o antigo
hábito de Magno de lançar números e informações, tiradas não se sabe de onde, pensando que
ninguém vai perceber.
“Proporcionalmente, o Espírito Santo é o estado onde Bolsonaro
mais teve votos”, afirmou a publicitária.
Isso não é verdade.
No 2º turno em 2022, o Espírito Santo
foi só a 10ª unidade da federação onde Bolsonaro alcançou a maior votação
percentual.
Porporcionalmente, ele teve mais votos em Santa Catarina, Paraná, Goiás, Distrito
Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Acre e Roraima.
Magno “lê carta”
Em seu longo discurso (mais de 20 minutos, muito mais que o
próprio Flávio Bolsonaro), Magno na verdade vestiu a pele de pastor e fez praticamente
uma pregação. No início, ele “leu uma carta” para Jair Bolsonaro. As palavras
foram improvisadas, mas o senador falou como se dirigisse ao ex-presidente. Depois,
leu a cartilha do bolsonarismo.
O senador chamou Moraes de lobista e calhorda; Dias Toffoli,
de contraventor. Afirmou que houve fraude nas urnas em 2022, que Lula colocou o
Brasil no “eixo do mal” e que “a esquerda precisa ser extirpada ad eternum”. Pregou contra o aborto e a “ideologia
de gênero”. “O Brasil, com Flávio Bolsonaro, não será um país que aborta, mas
um país que adota”, trocadilhou.
Momento hipnose
Para um público extremamente fiel e majoritariamente
evangélico (ele perguntou quem o era, e os evangélicos levantaram a mão), Magno
mostrou grande domínio de palco e, em dados momentos, pareceu um guru espiritual
ou hipnotizador de plateias. Mandou as pessoas repetirem o que ele dizia. E todos
assim fizeram, obedientemente.
“Digam: ‘A primeira eleição é Senado’.” Todos repetiram.
“Falem comigo: ‘Deus tirou a tampa da fossa’.” Idem.
“E mostrou toda a sujeira”. Idem.
Catequização.
Comentarista
esportivo
Magno também expôs algumas exóticas teses conspiratórias
futebolísticas. Na véspera da final da Copa, defendeu que era preciso torcer
pela Argentina “porque Milei tem que se reeleger” (faltou
combinar com os espanhóis).
O senador afirmou que o jogador Neymar (recuperando-se de lesão em
plena Copa, sem ritmo e sem condições físicas de suportar a intensidade de uma
partida inteira) “foi privado de entrar em campo por ser cristão e conservador”.
“Ele paga um preço, paga até hoje a perseguição por ser cristão!” (Ancelotti não deve passar de um comunista, descendente dos partigiani).
Superando-se, Magno declarou que “Gilmar Mendes já tomou até
a Fifa”.
Exército de pitbulls sem vacina
Segundo Magno, durante a campanha eleitoral, o PL precisa ter “45 pitbulls que nunca foram vacinados e que mordem”. É, aproximadamente, o número de candidatos a deputado estadual e a deputado federal que o partido terá no Espírito Santo (o número preciso é 42, sendo 31 na chapa estadual e 11 na federal).
Cachorro não vacinado corre o risco de contrair raiva, mas
imunização não é mesmo o forte nesse segmento ideológico...
Recados para o
mercado político
“Ninguém põe faca na minha garganta”, avisou Magno ao
mercado político e, inclusive, a aliados e correligionários.
O prefeito Lorenzo
Pazolini e o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, estavam presentes, sentados ao palco, e ouviram tudo de perto.
Meta eleitoral
Segundo Magno, o PL tem condições de eleger três dos 10 deputados federais do Espírito Santo. Será difícil. Mas, se Gilvan da Federal conseguir ser candidato (a depender da decisão final do TSE), será plausível chegar a dois.
No evento, o deputado profetizou que será o federal mais votado no Estado.
Flávio: salmo e
versículos
Bem mais curta, a fala de Flávio também foi entremeada por passagens bíblicas. Ele leu dois versículos (Josué 1:9 e Romanos 12:19) e recitou o salmo “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. “Não sou pastor, não”, explicou-se. Mas até pareceu.
Flávio sobre Moraes
O senador do Rio de Janeiro também centrou fogo em Alexandre
de Moraes, a quem chamou de “tirano”, “sem alma” e “demônio”. “Peço a Deus que
possa resgatar aquela alma.”
“Sangue de Bolsonaro”
e palavrão
Ainda no tópico Moraes, o senador
foi da “oração” pelo ministro a um palavrão. Batendo com uma mão no pulso do outro
braço, gritou: “Aqui tem sangue de Bolsonaro nesta p****!”
“Sou conhecido na política como
uma pessoa ponderada, que busca construir pontes. E vou continuar sendo assim.
Mas não vou baixar a cabeça para um tirano, que se acha acima da lei,
enterrando a Constituição!”
Flávio sobre Lula
O filho de Bolsonaro ainda chamou o
presidente Lula (PT) de “bandido”. “Está tudo de pernas pro ar no Brasil. O
inocente está preso, e o bandido está presidindo o país.”
Ameaça velada a federais
Como de hábito, Flávio prometeu
anistia aos “perseguidos do 8 de janeiro”. E fez uma ameaça velada a parcela
dos policiais federais. “Quem tá cumprindo ordens ilegais, a lei vai valer pra
vocês!
Propostas para segurança
No quesito “propostas objetivas”
que têm a ver com a vida dos cidadãos, não houve muitas. Flávio
concentrou-se na segurança pública.
Prometeu “combater a criminalidade com
pulso firme”, “dobrar o número de presídios federais” e “fazer mudanças na
legislação penal pra mudar a pena pra quem é violento”.
Acenos para as mulheres
Flávio também fez acenos para o
eleitorado feminino – que precisa mesmo ser conquistado por ele, pois hoje, em
sua maioria, prefere votar em Lula, de acordo com institutos de pesquisa.
“A defesa das mulheres é pauta da
direita”, sustentou o filho 01, que se comprometeu de público a incluir em seu plano de
governo iniciativas da Prefeitura de Vitória voltadas ao combate ao feminicídio,
a pedido de Lorenzo Pazolini.
“Compartilho as tarefas de casa
com minha esposa”, informou o presidenciável. “Os homens são mais fortes. As
mulheres são mais inteligentes”, disse, em outro momento, em visível esforço para
ganhar a simpatia do “sexo oposto”.
Não era preciso tanto esforço, já
que as mulheres que estavam no evento, se estavam ali, é porque já votam nele. E o fariam mesmo que ele dissesse não lavar uma louça em casa e admitisse que, na média, homens e mulheres têm a mesma capacidade intelectual.
De impostos e impostores
Muito de passagem, Flávio também
defendeu o fim da reeleição para presidente e a redução de impostos (com um
trocadilho duvidoso): “Vamos reduzir impostos. O atual governo é o mais ‘impostor’”.
“Fica aí, Magno!”
Último a discursar, após quase
três horas de espera, Flávio não escondeu seu desconforto com a demora de Magno ao
microfone. No ápice do próprio discurso, quando chamou Maguinha para cantar com
ele, pediu a Magno para não fazer o mesmo:
“Fica aí, Magno, que você já
falou muito! Se você voltar aqui, vai querer falar mais...”
No desfecho, ainda alfinetou: “Não
vou fazer igual ao Magno que se despediu três vezes antes de devolver o
microfone”.
Tornozeleira eletrônica
Durante parte do evento, o
vereador de Vitória Armandinho Fontoura (PL) circulou entre a plateia com a
tornozeleira eletrônica à mostra, acima da bainha da calça. O dispositivo é
usado por ele, desde dezembro de 2023, por ordem de Moraes.
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