Hoje juntos no Partido Social Democrático (PSD), o ex-governador Paulo Hartung e o deputado estadual Sérgio Meneguelli não têm muito em comum e jamais tiveram grande proximidade política.
Uma cena marcante,
contudo, os uniu fisicamente oito anos atrás: no último ano do governo de
Hartung, em um evento na sede da Secretaria de Estado de Esportes, em Bento
Ferreira, a banda musical da PMES executou o clássico “Para bailar la bamba”. Lado a lado, o então governador e o então
prefeito de Colatina arriscaram alguns passos de dança.
Como diz a letra da canção, “yo no soy marinero, soy capitán, soy capitán”... Oito anos depois,
às vésperas da eleição estadual, o PSD não quer (nem pode) ser capitán da barca eleitoral que une
partidos de direita e de oposição ao governador Ricardo Ferraço (MDB). Mas
tampouco quer se contentar em ser um reles “marinero”...
muito menos deseja ser tratado como um marujo de segunda classe.
Isso explica la buemba arremessada, na manhã desta segunda-feira (20), pelo presidente estadual do PSD, Renzo Vasconcelos.
O prefeito de Colatina já havia declarado seu apoio pessoal
e o do PSD a Lorenzo Pazolini, pré-candidato a governador na referida coligação
de direita. Agora, porém, Renzo fala em jogo zerado e que “nada está descartado”.
Diz que o PSD conversará com outros pré-candidatos a governador, incluindo
Ricardo Ferraço (MDB), e que pode até lançar uma chapa própria, com Hartung
candidato a governador e Meneguelli ao Senado.
O PSD, enfim, pelo menos nas aparências, deu alguns pasitos para fora da barca de Pazolini.
Por quê?
Para compreendermos os motivos, somos nós que precisamos, primeiro,
dar dois ou três passinhos para trás.
A nave eleitoral em questão é capitaneada pelo Republicanos,
especificamente por Pazolini, tendo como contra-almirante Erick Musso, o
presidente estadual da sigla do ex-prefeito de Vitória.
No último sábado, o Partido Liberal (PL) também se juntou a
esse navio, com outro pretenso capitão: Magno Malta.
O presidente estadual do PL costuma ter voz de comando em
suas articulações políticas. E já chegou buscando redefinir os rumos dessa
coligação. Virou o leme na direção que mais lhe agrada.
Para apoiar o ex-prefeito de Vitória, Magno exigiu um lugar
privilegiado para a filha Maguinha Malta (PL) na cabine de Pazolini, como primeira
candidata ao Senado dessa coligação. Também pediu que Pazolini apoie Maguinha
na disputa ao Senado. As condições foram
cumpridas por Pazolini, no último sábado (18), durante evento com o
presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) em Vitória.
Mas isso não é tudo. Magno também tem atuado nos bastidores
para que o segundo candidato ao Senado da mesma coligação seja o melhor
possível para Maguinha, aquele que mais a ajude a se eleger.
Tendo em mente o favoritismo do ex-governador Renato
Casagrande (PSB) para ficar com a primeira vaga no Senado pelo Espírito Santo,
Magno deseja um caminho mais aberto para a filha competir pela segunda vaga,
sem concorrentes perigosos no espectro da direita e dentro da própria
coligação. Ou, no mínimo, alguém comprometido a pedir o segundo voto para ela.
Nesse caso, quem mais sai prejudicado é o PSD. De cara, são
jogados ao mar, justamente, os dois possíveis candidatos do partido ao Senado:
Sérgio Meneguelli e Paulo Hartung.
Meneguelli é candidato declarado ao Senado desde a eleição passada, em 2022. Reitera que, desta vez, não aceita outra possibilidade.
Quanto a Paulo Hartung, embora não o declare, também é
tratado nos bastidores como possível candidato a senador, se lhe abrirem espaço
para isso. O ex-governador apoia Pazolini a governador.
Meneguelli é adversário declarado de Magno. Na já citada entrevista, renovou suas críticas ao senador do PL, disse que jamais dependeu dele e que não pedirá votos para Maguinha Malta, pois é um melhor candidato.
Quanto a Hartung, mesmo que apoie Pazolini, a distância
entre ele e Magno é tão abissal que fica até difícil visualizar os dois juntos,
no mesmo palanque. Ainda mais difícil é imaginar o ex-governador ajudando na
campanha de Maguinha...
Desse modo, se Pazolini e seu Republicanos atenderem a essa
pretensão de Magno, o PSD ficará com espaço muito reduzido em tal coligação.
Nessa configuração, o partido de Renzo, Hartung e Meneguelli
não terá a menor chance de emplacar um candidato a senador. Terá de se contentar
em indicar a candidata a vice-governadora de Pazolini – que poderia ser a
médica Lívia Vasconcelos, mulher de Renzo e primeira-dama de Colatina.
A reação do PSD
O PSD considera pouco. Primeiro, por seu porte político. Com
a quarta maior bancada na Câmara dos Deputados (atrás de PL, União Progressista
e PT), o partido, pelas contas de Renzo, terá mais de 50 segundos em cada bloco
de 10 minutos no horário eleitoral gratuito (a partir de 28 de agosto).
Segundo, por ter embarcado no navio de Capitão Pazola muito
antes do PL. Já em fevereiro, Renzo e Lívia receberam o então prefeito e Erick
em Colatina. Fizeram e publicaram nas redes aquela típica foto de “tamo junto”,
com todos se dando as mãos. Isso enquanto as conversas do PL com o Republicanos
iam frias.
Como costuma repetir o próprio Magno, citando um ditado popular, “quem chega primeiro bebe a água limpa”. Ora, o PSD chegou muito antes do
PL, mas agora pode ser obrigado a navegar em águas turvas (e nos fundos da
embarcação).
No momento, o PSD está totalmente espremido entre o
Republicanos, o PL e as aspirações de Magno. Ficou desvalorizado. Procurador
dos interesses de Pazolini, Erick Musso nunca escondeu que sua prioridade
máxima, na montagem da chapa, era atrair o PL de Bolsonaro, por tudo o que isso
representa para a campanha de Pazolini (os muito ganhos para ele estão detalhados aqui).
Para isso, todavia, o custo pode ser sacrificar o primeiro
aliado, PSD.
O tamanho do problema para Renzo
Nesse cenário, embora não seja pré-candidato a nada, quem
também perde muito é Renzo. No momento, o prefeito de Colatina vê-se
encurralado entre seu compromisso com Pazolini e aquele que firmou com Meneguelli.
Renzo já tinha declarado apoio a Pazolini para governador.
Mas também já deu várias declarações no sentido de que, no PSD, Meneguelli
teria legenda garantida para ser candidato a senador. Meneguelli agora cobra de
público o cumprimento desse acordo verbal.
Na entrevista dada à coluna, o deputado e ex-prefeito disse, mais de uma vez, confiar na palavra empenhada por Renzo. É uma forma de pressionar o dirigente do PSD a cumprir
a promessa que lhe fez.
Vale lembrar que Renzo tem uma dívida política e de gratidão
com Meneguelli, um player fundamental
para que ele chegasse aonde está.
Em 2024, literalmente nos últimos dias da campanha a
prefeito de Colatina, uma das mais acirradas dos maiores municípios capixabas,
o deputado entrou na campanha de Renzo. Gravou com ele para o horário eleitoral
e pediu votos para ele no alto do trio elétrico.
Graças a Meneguelli, Renzo conseguiu derrotar o então
prefeito Guerino Balestrassi. Também por isso, Renzo filiou o deputado ao PSD e
lhe deu garantias de legenda para concorrer ao Senado. E agora?
Agora, se Renzo quebrar sua palavra, já há quem diga que
Meneguelli pode até vir candidato contra o atual prefeito no próximo pleito
municipal, numa campanha revanchista e visceral em 2028. A ideia, obviamente,
assusta Renzo.
Problemão também para Pazolini
Enquanto isso, Pazolini também está com esse problemão nas
mãos para resolver. No evento de Flávio Bolsonaro no sábado, ao chegar ao
cerimonial, o ex-prefeito deu uma brevíssima entrevista à coluna. A quase todas as perguntas, respondeu com
um resoluto “com certeza”. Na última, tergiversou.
Perguntamos justamente quem será o segundo candidato ao
Senado em sua coligação.
“Vamos dar tempo ao tempo”, respondeu o pré-candidato do
Republicanos.
Ceticismo:
como o movimento foi recebido no Palácio Anchieta
Enquanto isso, no bunker de Renato Casagrande e de Ricardo
Ferraço, a aparente guinada dada por Renzo no jogo eleitoral é encarada com
extrema cautela e ceticismo.
À primeira vista, pode ter sido um tremendo recado do PSD ao
próprio Pazolini e ao Republicanos, indicando que o partido não aceitará de
modo algum ser desprestigiado, preterido, sacrificado em benefício do PL e de
Magno Malta. Uma tentativa de se revalorizar nas tratativas com o Republicanos,
tipo “olhem, se não nos derem o devido valor, podemos até ir parar em outro
barco...”.
Mas Ricardo, Casagrande e aliados não acham que seja por aí.
Veem esse movimento como um blefe, inclusive combinado com Pazolini, não com o objetivo
de ameaçar de verdade o ex-prefeito – mas endereçado a Magno.
Seria, assim, uma reação às pressões internas exercidas pelo
próprio Magno. Pazolini, logicamente, não quer perder o PSD, com todo o tempo
de propaganda e recursos aportados pela sigla de Renzo.
No fundo, Magno tampouco pode se dar ao luxo de ver o PSD ir
embora, pois também precisa desse tempo aportado pelo PSD para a propaganda de
Maguinha (ilustre desconhecida fora da bolha ideológica do bolsonarismo).
À medida que ameaça pular fora do barco, o PSD confere a
Pazolini o argumento de que ele necessita para arrazoar com o PL na mesa de negociações:
“Olha só, já demos espaço para Maguinha, mas não pode ser mais do que isso...
Precisamos contemplar o PSD”.
Para o Palácio Anchieta, Renzo se trai e explicita que tudo
não passa de um blefe ao dizer estar disposto até a abrir conversas com Helder
Salomão (PT).
Por ti seré, por ti
seré...
Os próximos 15 dias dirão por quem realmente será o PSD no
Espírito Santo.
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