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Vitor Vogas

Helder Salomão perdeu ganhando e sai fortalecido das eleições no ES

Parece-me fora de contestação que o deputado federal Helder Salomão, prestes a encerrar seu terceiro mandato seguido na Câmara, foi quem mais “perdeu ganhando” nas últimas eleições gerais no Espírito Santo. Saiba por quê

Publicado em 01 de Novembro de 2026 às 05:00

Públicado em 

01 nov 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Ricardo Stuckert

Em toda eleição, logicamente, há eleitos e não eleitos, vencedores e derrotados. Mas há também quem “ganhe perdendo”. E há, ainda, aqueles que “perdem ganhando”.


Parece-me fora de contestação que o deputado federal Helder Salomão, prestes a encerrar seu terceiro mandato seguido na Câmara, foi quem mais “perdeu ganhando” nas últimas eleições gerais no Espírito Santo.


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E não me refiro aqui, certamente, à votação individual do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) a governador. No primeiro turno – no qual todo mundo, penso que até ele, sabia desde o início que ele foi para o sacrifício –, o petista alcançou 323.483 votos (15,32% dos válidos).


A “vitória na derrota” de Helder vai muito além disso. Tem a ver com o modo como conduziu sua campanha e, acima de tudo, com sua coordenação da campanha de Lula no Espírito Santo no segundo turno.


Antes de tudo, é preciso destacar: Helder fez uma campanha limpa e digna.


Mais de uma vez, nas sabatinas e debates, perguntei-me se ele não estaria sendo “sincerão” até demais, em prejuízo dele mesmo.


Não sei se lhe custou alguns votos, mas, em mais de uma ocasião, Helder fez afirmações muito pouco usuais na boca de um candidato. Querem ver um exemplo?


Duas das propostas mais importantes do programa de governo de Helder (das poucas que realmente se ouviram, na campanha, sobre o futuro do Espírito Santo) dizem respeito à mobilidade urbana: a possível implantação progressiva da tarifa zero no Transcol e a possível reativação do projeto do metrô de superfície não só em Vitória, mas cortando a Região Metropolitana.


Entretanto, em primeiro lugar, desde a apresentação do plano de governo, Helder fez questão de deixar claro duas coisas: 1) sua proposta era apenas a de “estudar” os estudos sobre tais propostas; 2) estas, se fato encampadas, não seriam executadas em quatro anos, no período do próximo governo. Nada de promessas mirabolantes e fantasiosas.


A propósito, dos três principais candidatos, Helder foi o único que se preocupou em promover um evento de apresentação de seu plano de governo, pouco antes do início oficial da campanha (em 16 de agosto), aberto à imprensa e a quem mais quisesse aparecer.


Além disso, como “candidato azarão”, Helder desferiu críticas sinceramente cabíveis e pertinentes tanto ao governador Ricardo Ferraço (MDB) como ao prefeito Lorenzo Pazolini (Rep) – eleito no último domingo (25).


Sobre Pazolini, Pazolini, denunciou a aliança dele com a extrema-direita (“o que há de pior na política brasileira”), bem como a perda de protagonismo econômico de Vitória nos últimos anos (dois fatos).


Sobre Ricardo, apontou a falta de protagonismo do governador no projeto representado por ele e os acenos feitos por ele também à extrema-direita (fato e fato).

A campanha de Lula no segundo turno

No princípio do segundo turno, Helder assumiu a coordenação da campanha de Lula no Estado.


Segundo vários relatos – e o testemunho deste colunista –, teve um papel realmente preponderante na organização da mobilização popular, nas ruas e nas redes, fundamental para a incrível recuperação de Lula contra Flávio Bolsonaro (PL). Isso no Espírito Santo, em linha direta com a coordenação nacional da campanha do PT.


Helder não agiu sozinho, é claro. Mas esteve à frente de tudo, do início da rearticulação até a histórica marcha popular (sem o próprio candidato!) com dezenas de milhares de pessoas atravessando a Terceira Ponte da Praça do Papa para o Parque da Prainha, culminância desse grande movimento.


Assim como no resto do país, aqui no Espírito Santo, a esquerda em geral (do mais radical lulista até o só simpatizante) conseguiu ocupar as ruas como não se via há décadas, puxando ainda para dentro quem nem sequer é lulista ou nem mesmo é de esquerda, mas não admitia a volta do extrema-direita ao poder.


Quem viu o que ocorreu, organicamente, na véspera do segundo turno, entendeu que alguma coisa muito forte estava em marcha: um “estalo” que fez tremer a Terceira Ponte. E Helder estava por trás disso.


Aqui deixo um depoimento pessoal que ilustra a importância do deputado na campanha de Lula. No domingo anterior ao “milagre”, dia 18 de outubro, houve outra manifestação: uma passeata em trajeto mais curto, pela Beira-Mar, da Assembleia Legislativa à Praça do Papa, à tarde. Sabendo que ele se encontraria lá, fui à concentração, em frente à Ales, com um propósito específico: entrevistar Helder Salomão.


Eu queria saber se ele declararia ou não apoio explícito a Ricardo, como fizera, horas antes, em um post, o deputado federal eleito João Coser, presidente do PT no Espírito Santo. Dito e feito: assim que cheguei ao local, divisei Helder no alto do trio, cuidando dos preparativos finais. 


A assessoria dele me deixou subir, sem dificuldades, para o entrevistar. Lá em cima, ele me 

atendeu. Foi rápido: quatro minutinhos.


A propósito, ele não declarou voto em Ricardo – o que também avalio como um acerto, pois não se comprometeu após ter trocado muitas farpas com o emedebista no primeiro turno, e não se tornou sócio, ainda que bem minoritário, da derrota do atual governador.


Um detalhe que me chamou atenção: entre os principais líderes estaduais do PT, Helder era o único no trio elétrico. O único. Na apoteose do ato, na Praça do Papa, outros subiram ao palco. 


No trio elétrico, porém, durante todo o percurso, só estava Helder.

Os resultados de Lula no ES, sobretudo na Grande Vitória

Helder também saiu maior desse processo pelos resultados numéricos de Lula no Espírito Santo. Na já citada entrevista (aquela do trio elétrico), o deputado também precisou a meta de votação estabelecida por eles para Lula em solo capixaba: 45% dos votos válidos. “Pelo menos”, frisou ele.


A meta foi atingida? Não, não foi atingida. Com 1.001.965 votos, Lula ficou com 43,63% dos válidos no Espírito Santo. É um resultado aquém do idealizado? Sim. Flávio ganhou (e ganhou bem) no Espírito Santo? Ganhou.


Mas o desempenho de Lula no Estado foi ruim? Não, de jeito nenhum!


Sinceramente, 43,6% dos válidos, na minha avaliação, ficou entre razoável e bom para a Lula, considerando as especificidades da realidade político-eleitoral do Espírito Santo, estado que, desde 2014, consolidou-se como um colégio eleitoral predominantemente antipetista.


Em poucas unidades da federação, o mix de Lava Jato com impeachment de Dilma Rousseff e prisão de Lula foi mais avassalador que no Espírito Santo. Foi um negócio muito sério... Teve líder que caiu em depressão (depois conseguiu se reerguer e deu a volta por cima, politicamente inclusive).


O resultado concreto foram anos de “terra arrasada”, retratada principalmente nas subsequentes eleições municipais. Em 2016, o PT elegeu um prefeito no Espírito Santo (Alencar Marim, em Barra de São Francisco). Em 2020, nenhum prefeito. Em 2024, nenhum prefeito. Vou repetir: desde 2020, o PT não tem nem sequer um prefeito no Espírito Santo, num universo de 78 municípios.


E ainda assim, mesmo em condições tão adversas, Lula conseguiu obter 43,6% dos válidos e melhorar todas as suas métricas.


Em primeiro lugar, ultrapassou 1 milhão de votos no ES (o que ele mesmo não conseguiu em 2022, muito menos Haddad em 2018).


Em segundo lugar, o percentual cresceu em relação aos últimos dois pleitos. Em 2018, com Lula preso e inelegível, Haddad, no sacrifício, conseguiu apenas 37% dos válidos no segundo turno por aqui. Em 2022, Lula obteve 42%. Agora, 43,6%. Encurtou a prevalência do antipetismo.


Em terceiro lugar, é preciso pôr um asterisco – dos mais importantes – sobre o resultado de Lula na Região Metropolitana da Grande Vitória, exatamente onde Helder é mais forte.


Quando analisamos o “mapa da votação” no Espírito Santo, verificamos que Lula foi muito mais bem votado em “grotões” – cidades muito pobres do extremo sul e especialmente do extremo norte – e, também, nas maiores cidades da Grande Vitória, onde se concentram os moradores de baixa renda das periferias, a juventude universitária e eleitores mais escolarizados que votam com força no 13, não por depender de benefícios sociais do governo, mas por um conjunto de princípios.


A bem da verdade, essa vantagem de Flávio se explica por conta de sua votação esmagadora em cidades maiores do interior que são muito conservadoras, como Colatina e Cachoeiro, e por conta da vantagem absurda em toda a Região Serrana – um caso a ser estudado: conservadorismo ítalo-capixaba?


Todavia, isolando-se a Grande Vitória, o jogo foi bem mais equilibrado. Nos quatro maiores municípios, Lula chegou a 46,43%. Senão vejamos:


. Cariacica (cidade de Helder): Flávio 53,37% x 46,63% Lula


. Vila Velha (exceção): Flávio 57,82% x 42,18% Lula


. Vitória: Flávio 51,82% x 48,18% Lula


. Serra: Flávio 50,84% x 49,16% Lula


. Saldo: Flávio 53,57% x 46,43% Lula

Conclusão

Por esse conjunto de bons resultados, Helder acaba de cair num paradoxo: em seu melhor momento em muitos anos, desde que encerrou o segundo mandato de prefeito de Cariacica, em 2012, o deputado está prestes a ficar se mandato. E assim será, pelo menos, até 2028, nas próximas eleições municipais.


Reza uma máxima política que capital político conquistado não pode ser desperdiçado. O que fará Helder do seu?


Passará a liderar, sem mandato, uma oposição à esquerda ao futuro governo Pazolini? Assumirá alguma função no próximo governo Lula? Cogitará voltar a disputar a Prefeitura de Cariacica em 2028, 16 anos após ter encerrado seu segundo mandato?


Vale lembrar que Euclério Sampaio estará finalizando seu governo, não poderá se reeleger e não tem um(a) “sucessor(a) natural”... O PT voltou a crescer em Cariacica, inclusive com a eleição para a Assembleia da vereadora Açucena, que poderá servir de “enganche” à oposição de Helder, seja a Euclério na prefeitura, seja a Pazolini no governo.


Valerá a pena acompanhar. 

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Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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