Em toda eleição, logicamente, há eleitos e não eleitos,
vencedores e derrotados. Mas há também quem “ganhe perdendo”. E há, ainda,
aqueles que “perdem ganhando”.
Parece-me fora de contestação que o deputado federal Helder Salomão,
prestes a encerrar seu terceiro mandato seguido na Câmara, foi quem mais
“perdeu ganhando” nas últimas eleições gerais no Espírito Santo.
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E não me refiro aqui, certamente, à votação individual do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) a governador. No primeiro turno – no qual todo mundo, penso que até ele, sabia desde o início que ele foi para o sacrifício –, o petista alcançou 323.483 votos (15,32% dos válidos).
A “vitória na derrota” de Helder vai muito além disso. Tem a
ver com o modo como conduziu sua campanha e, acima de tudo, com sua coordenação
da campanha de Lula no Espírito Santo no segundo turno.
Antes de tudo, é preciso destacar: Helder fez uma campanha
limpa e digna.
Mais de uma vez, nas sabatinas e debates, perguntei-me se
ele não estaria sendo “sincerão” até demais, em prejuízo dele mesmo.
Não sei se lhe custou alguns votos, mas, em mais de uma
ocasião, Helder fez afirmações muito pouco usuais na boca de um candidato.
Querem ver um exemplo?
Duas das propostas mais importantes do programa de governo
de Helder (das poucas que realmente se ouviram, na campanha, sobre o futuro do
Espírito Santo) dizem respeito à mobilidade urbana: a possível implantação
progressiva da tarifa zero no Transcol e a possível reativação do projeto do
metrô de superfície não só em Vitória, mas cortando a Região Metropolitana.
Entretanto, em primeiro lugar, desde a apresentação do plano
de governo, Helder fez questão de deixar claro duas coisas: 1) sua proposta era
apenas a de “estudar” os estudos sobre tais propostas; 2) estas, se fato
encampadas, não seriam executadas em quatro anos, no período do próximo
governo. Nada de promessas mirabolantes e fantasiosas.
A propósito, dos três principais candidatos, Helder foi o
único que se preocupou em promover um evento de apresentação de seu plano de
governo, pouco antes do início oficial da campanha (em 16 de agosto), aberto à
imprensa e a quem mais quisesse aparecer.
Além disso, como “candidato azarão”, Helder desferiu críticas
sinceramente cabíveis e pertinentes tanto ao governador Ricardo Ferraço (MDB)
como ao prefeito Lorenzo Pazolini (Rep) – eleito no último domingo (25).
Sobre Pazolini, Pazolini, denunciou a aliança dele com a extrema-direita
(“o que há de pior na política brasileira”), bem como a perda de protagonismo
econômico de Vitória nos últimos anos (dois fatos).
Sobre Ricardo, apontou a falta de protagonismo do governador
no projeto representado por ele e os acenos feitos por ele também à
extrema-direita (fato e fato).
A campanha de Lula no
segundo turno
No princípio do segundo turno, Helder assumiu a coordenação
da campanha de Lula no Estado.
Segundo vários relatos – e o testemunho deste colunista –,
teve um papel realmente preponderante na organização da mobilização popular,
nas ruas e nas redes, fundamental para a incrível recuperação de Lula contra
Flávio Bolsonaro (PL). Isso no Espírito Santo, em linha direta com a
coordenação nacional da campanha do PT.
Helder não agiu sozinho, é claro. Mas esteve à frente de
tudo, do início da rearticulação até a histórica marcha popular (sem o próprio
candidato!) com dezenas de milhares de pessoas atravessando a Terceira Ponte da
Praça do Papa para o Parque da Prainha, culminância desse grande movimento.
Assim como no resto do país, aqui no Espírito Santo, a esquerda
em geral (do mais radical lulista até o só simpatizante) conseguiu ocupar as
ruas como não se via há décadas, puxando ainda para dentro quem nem sequer é
lulista ou nem mesmo é de esquerda, mas não admitia a volta do extrema-direita
ao poder.
Quem viu o que ocorreu, organicamente, na véspera do segundo
turno, entendeu que alguma coisa muito forte estava em marcha: um “estalo” que
fez tremer a Terceira Ponte. E Helder estava por trás disso.
Aqui deixo um depoimento pessoal que ilustra a importância
do deputado na campanha de Lula. No domingo anterior ao “milagre”, dia 18 de
outubro, houve outra manifestação: uma passeata em trajeto mais curto, pela
Beira-Mar, da Assembleia Legislativa à Praça do Papa, à tarde. Sabendo que ele
se encontraria lá, fui à concentração, em frente à Ales, com um propósito
específico: entrevistar Helder Salomão.
Eu queria saber se ele declararia ou não apoio explícito a Ricardo, como fizera, horas antes, em um post, o deputado federal eleito João Coser, presidente do PT no Espírito Santo. Dito e feito: assim que cheguei ao local, divisei Helder no alto do trio, cuidando dos preparativos finais.
A assessoria dele me deixou subir, sem dificuldades, para o entrevistar. Lá em cima, ele me
atendeu. Foi rápido: quatro minutinhos.
A propósito, ele não declarou voto em Ricardo – o que também
avalio como um acerto, pois não se comprometeu após ter trocado muitas farpas
com o emedebista no primeiro turno, e não se tornou sócio, ainda que bem
minoritário, da derrota do atual governador.
Um detalhe que me chamou atenção: entre os principais líderes estaduais do PT, Helder era o único no trio elétrico. O único. Na apoteose do ato, na Praça do Papa, outros subiram ao palco.
No trio elétrico, porém, durante todo o percurso, só estava Helder.
Os resultados de Lula
no ES, sobretudo na Grande Vitória
Helder também saiu maior desse processo pelos resultados
numéricos de Lula no Espírito Santo. Na já citada entrevista (aquela do trio
elétrico), o deputado também precisou a meta de votação estabelecida por eles
para Lula em solo capixaba: 45% dos votos válidos. “Pelo menos”, frisou ele.
A meta foi atingida? Não, não foi atingida. Com 1.001.965
votos, Lula ficou com 43,63% dos válidos no Espírito Santo. É um resultado
aquém do idealizado? Sim. Flávio ganhou (e ganhou bem) no Espírito Santo? Ganhou.
Mas o desempenho de Lula no Estado foi ruim? Não, de jeito
nenhum!
Sinceramente, 43,6% dos válidos, na minha avaliação, ficou
entre razoável e bom para a Lula, considerando as especificidades da realidade
político-eleitoral do Espírito Santo, estado que, desde 2014, consolidou-se
como um colégio eleitoral predominantemente antipetista.
Em poucas unidades da federação, o mix de Lava Jato com impeachment de Dilma Rousseff e prisão de Lula
foi mais avassalador que no Espírito Santo. Foi um negócio muito sério... Teve
líder que caiu em depressão (depois conseguiu se reerguer e deu a volta por
cima, politicamente inclusive).
O resultado concreto foram anos de “terra arrasada”,
retratada principalmente nas subsequentes eleições municipais. Em 2016, o PT
elegeu um prefeito no Espírito Santo (Alencar Marim, em Barra de São
Francisco). Em 2020, nenhum prefeito. Em 2024, nenhum prefeito. Vou repetir:
desde 2020, o PT não tem nem sequer um prefeito no Espírito Santo, num universo
de 78 municípios.
E ainda assim, mesmo em condições tão adversas, Lula
conseguiu obter 43,6% dos válidos e melhorar todas as suas métricas.
Em primeiro lugar, ultrapassou 1 milhão de votos no ES (o
que ele mesmo não conseguiu em 2022, muito menos Haddad em 2018).
Em segundo lugar, o percentual cresceu em relação aos
últimos dois pleitos. Em 2018, com Lula preso e inelegível, Haddad, no
sacrifício, conseguiu apenas 37% dos válidos no segundo turno por aqui. Em
2022, Lula obteve 42%. Agora, 43,6%. Encurtou a prevalência do antipetismo.
Em terceiro lugar, é preciso pôr um asterisco – dos mais
importantes – sobre o resultado de Lula na Região Metropolitana da Grande
Vitória, exatamente onde Helder é mais forte.
Quando analisamos o “mapa da votação” no Espírito Santo,
verificamos que Lula foi muito mais bem votado em “grotões” – cidades muito
pobres do extremo sul e especialmente do extremo norte – e, também, nas maiores
cidades da Grande Vitória, onde se concentram os moradores de baixa renda das
periferias, a juventude universitária e eleitores mais escolarizados que votam
com força no 13, não por depender de benefícios sociais do governo, mas por um
conjunto de princípios.
A bem da verdade, essa vantagem de Flávio se explica por
conta de sua votação esmagadora em cidades maiores do interior que são muito conservadoras,
como Colatina e Cachoeiro, e por conta da vantagem absurda em toda a Região
Serrana – um caso a ser estudado: conservadorismo ítalo-capixaba?
Todavia, isolando-se a Grande Vitória, o jogo foi bem mais
equilibrado. Nos quatro maiores municípios, Lula chegou a 46,43%. Senão
vejamos:
. Cariacica (cidade
de Helder): Flávio 53,37% x 46,63%
Lula
. Vila Velha
(exceção): Flávio 57,82% x 42,18%
Lula
. Vitória: Flávio 51,82% x 48,18% Lula
. Serra: Flávio 50,84% x 49,16% Lula
. Saldo: Flávio 53,57% x 46,43% Lula
Conclusão
Por esse conjunto de bons resultados, Helder acaba de cair
num paradoxo: em seu melhor momento em muitos anos, desde que encerrou o
segundo mandato de prefeito de Cariacica, em 2012, o deputado está prestes a
ficar se mandato. E assim será, pelo menos, até 2028, nas próximas eleições
municipais.
Reza uma máxima política que capital político conquistado
não pode ser desperdiçado. O que fará Helder do seu?
Passará a liderar, sem mandato, uma oposição à esquerda ao
futuro governo Pazolini? Assumirá alguma função no próximo governo Lula?
Cogitará voltar a disputar a Prefeitura de Cariacica em 2028, 16 anos após ter
encerrado seu segundo mandato?
Vale lembrar que Euclério Sampaio estará finalizando seu
governo, não poderá se reeleger e não tem um(a) “sucessor(a) natural”... O PT
voltou a crescer em Cariacica, inclusive com a eleição para a Assembleia da
vereadora Açucena, que poderá servir de “enganche” à oposição de Helder, seja a
Euclério na prefeitura, seja a Pazolini no governo.
Valerá a pena acompanhar.
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