Como saber a hora de sair de cena? Até que página a gente precisa ir para decidir o momento de dar novos rumos a uma história? Como, ao contrário, acreditar que ainda vale manter um argumento apesar do cansaço, escrever um parágrafo apesar do prazo, anotar a ideia apesar da pressa, insistir no diálogo apesar dos tropeços?
Qual o tempo certo da palavra e do silêncio, da exposição e da reserva, do evidente e do contido, da insistência e da desistência? Quantos meses de reflexão são necessários para decidir por onde seguir diante de uma encruzilhada? Quanto esperar para descobrir se vai ou não mudar de ideia?
Falo de um ato em particular ou da vida em geral, de um amor inabalável, de uma amizade, de um projeto ou de um plano que se repete todos os verões. Falo das escolhas de uma crônica, um parágrafo ou um livro inteiro à espera de publicação.
Falo de uma parceria como a de Tom e Vinícius, Caetano e Gil, Lennon e McCartney, Erasmo e Roberto, açúcar e afeto, pastel de feira e caldo de cana. Falo de um modo de ver o mundo, de caminhar pela rua ou ficar em casa, de ir embora ou durar um pouco mais. Falo de uma crença que se repete em períodos de maior ou menor turbulência.
Falo porque, mesmo sem ter as respostas, chegou a hora de fazer uma pausa.
Todo texto é uma sala com a porta encostada. Um mar de possibilidades que depende tanto de quem lê quanto de quem escreve. Um encontro feito de hábito, cumplicidade, confiança, intimidade, interrogação, dúvida, certeza e afinidade, de reconhecimento e identificação, de discordâncias também, mas de preferência respeito e equilíbrio.
Costumo dizer que um texto publicado não pertence mais a quem escreveu, mas a toda e qualquer pessoa que se dispõe a lê-lo. Seu sentido não é necessariamente o escolhido pelo autor ou autora, mas um infinito de interpretações que depende mais das perspectivas do que da gramática.
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Nestes anos todos, desde a primeira vez, em 2004, muita água correu por baixo desta ponte: a beleza das coisas simples; o peso do que não tem conserto; travessias, estradas e atalhos; chegadas, estadas e partidas; as pessoas que morrem na gente, mesmo que continuem vivinhas da silva; casa, IPTU e cobogó.
Houve um museu inteiro dedicado aos fracassos que passam; o tempo dos bichos; avessos, desvios, curvas e réguas. Houve as estatísticas que deixaram o noticiário da TV para se sentar no sofá, bem do nosso lado; e também a lição, antiga e certeira, dos que podem tudo, mas nem tudo lhes convém. Houve o dia em que sonhei ser amiga de Joan Didion e os amigos que, de fato, fiz.
Escrever e ser lido é mágico. Obrigada por isso e por tudo o que cabe dentro. Nos vemos numa próxima parada.