A militarização e a “policialização” da política brasileira nos últimos anos se expressam agora, nas eleições municipais 2020, por meio de um assombroso número de candidaturas de origem militar. O fenômeno é nacional e ecoa no Espírito Santo. O crescimento das candidaturas policiais se manifesta particularmente na eleição majoritária (a prefeito e a vice-prefeito).
Levantamento feito pela repórter Natalia Devens revela que, no Espírito Santo, contando todos os agentes de segurança pública (não só os de origem militar), tivemos somente dois candidatos a prefeito em 2016, contra 14 agora. Em 2016, quatro profissionais de forças de segurança pública se candidataram a vice-prefeito no Estado. Agora, são 17. Considerando os dois cargos majoritários, o número saltou de seis para 31: cinco vezes mais. Entre os dois pleitos municipais, tivemos a vitória de Bolsonaro na eleição para a Presidência em 2018.
Considerando exclusivamente policiais militares, os candidatos a prefeito e a vereador em 2016 foram 97. Neste ano, chegam a 133. Com um detalhe: esses números podem estar subestimados, já que, ao pedirem o registro da candidatura à Justiça Eleitoral, alguns não se declararam especificamente policiais, mas servidores públicos etc.
A primeira explicação para tal contingente de candidatos fardados (ou não) é que os policiais militares no Espírito Santo estão extremamente bem organizados politicamente, de uma maneira que a sociedade civil nem desconfia. Desde a greve da PMES em fevereiro de 2017, na qual essa faceta política da instituição de Estado começou a ser entrevista, esse processo tem se aprofundado. E, desde o imediato pós-greve, a politização da PMES se materializa no chamado PPM: o Projeto Político-Militar.
Trata-se de um movimento para o qual confluem as várias associações de representação de classe dos policiais militares no Estado, de praças a oficiais, e que teve no tenente-coronel Wagner Borges, dos Bombeiros Militares, hoje candidato a prefeito de Vila Velha, um de seus cofundadores e coordenador-geral até o fim de 2019. O grande objetivo do PPM é justamente eleger o maior número de militares nos vários cargos eletivos em disputa para começarem a ocupar mais espaços de poder político, no Congresso, na Assembleia Legislativa e agora também nas prefeituras e câmaras municipais.
Em 2018, toda essa articulação começou a render frutos para as associações de classe organizadas no PPM, que obteve êxito considerável na eleição parlamentar. Além de emplacar dois dos seus candidatos na Assembleia Legislativa (Coronel Quintino e Assumção, os quais depois se mostrariam antagônicos), o movimento ajudou a eleger o cabo da reserva da PMES Josias da Vitória para a Câmara dos Deputados e o instrutor de segurança Marcos do Val para o Senado (ambos pelo Cidadania, mas Do Val migrou para o Podemos em 2019).
O movimento se declara apartidário, mas na prática funciona como um grande partido militar, com candidatos espalhados por várias siglas, com predomínio absoluto de legendas consideradas “conservadoras” e de direita.
Em entrevista concedida à coluna em 2019, ainda na condição de coordenador do PPM, o tenente-coronel Wagner Borges afirmou que, a priori, os representantes do PPM poderiam se candidatar por qualquer partido político, inclusive aqueles de esquerda, e que, da parte da direção do projeto, não havia nenhum impedimento para isso. Pode até não ter havido impedimento, mas, na prática, esquerda ali não se vê.
E então passamos à segunda grande explicação para o fenômeno da militarização político-eleitoral que ganha corpo nessa disputa municipal: a forte identificação da maioria desses candidatos com Bolsonaro e, especialmente, com o bolsonarismo.
É preciso sempre recordar que os brasileiros no momento são governados por um capitão reformado do Exército que tem como vice-presidente um general reformado. A ascensão da chapa Bolsonaro/Mourão ao poder central sem dúvida serve de motivação a esse regimento de militares bolsonaristas para entrarem na disputa.
Não só aqui como em todos os Estados (vide a greve da PM do Ceará em fevereiro deste ano), as polícias militares constituem uma base social importantíssima de Bolsonaro. Assim, esse altíssimo número de policiais militares bolsonaristas concorrendo a prefeituras em grandes cidades aqui e no resto do país está intimamente relacionado ao projeto de permanência do presidente no Palácio do Planalto, com sua reeleição em 2022.
Todo mundo sabe que uma eleição leva à outra. Para o presidente e seus apoiadores, é mais que estratégico ocupar o maior número de prefeituras agora de modo a aumentar as ramificações de poder e influência de Bolsonaro sobre os eleitores nos próximos anos. Basicamente, quanto mais prefeitos aliados eles elegerem agora, melhor para Bolsonaro daqui a dois anos.
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Um exemplo de como as duas coisas estão vinculadas é o PTB, que virou quase uma incubadora de candidatos bolsonaristas nestas eleições municipais; uma legenda temporária para abrigar candidatos de origem militar que apoiam Bolsonaro. Exemplos no Espírito Santo são Assis, Assumção e Alemães.
Mas, como mencionamos acima, esse fenômeno tem a ver com Bolsonaro, mas tem a ver, acima de tudo, com o bolsonarismo, que vai além de Bolsonaro. A maioria desses militares que ora disputam prefeituras vêm como representantes do bolsonarismo, como chamamos a ideologia de extrema-direita que encontra hoje na pessoa do presidente a sua principal referência e expressão, mas que está presente na sociedade brasileira independentemente de Jair Bolsonaro.
É uma ideologia baseada na negação de direitos humanos, contrária a minorias, a movimentos sociais, ao ambientalismo e ao chamado “politicamente correto”; uma ideologia que manifesta pouco apreço pela cultura, pelas artes, pela academia, pelo saber científico e pela imprensa profissional. Acima de tudo, uma ideologia baseada em uma pauta conservadora de costumes, que valoriza conceitos como Deus, pátria e família e que prioriza valores como ordem social e disciplina.
Nos últimos anos, desde os grandes protestos de rua de 2013, com o esfacelamento do governo Dilma, o fim da era do PT no governo e os esquemas de corrupção revelados pela Lava Jato, esse discurso de ordem e disciplina recobrou muita força na sociedade brasileira, encontrando personificação na figura de Jair Bolsonaro. E, no inconsciente coletivo das pessoas, esses valores estão muito associados exatamente às Forças Armadas e às polícias militares.
Diga-se de passagem, a associação de tais valores a militares e a instituições militares é extremamente relativa, como nos ensina, por exemplo, a greve da PMES em fevereiro de 2017, um movimento baseado em quebra de hierarquia, insubordinação e indisciplina, cujo resultado foi desordem e caos social. O próprio Bolsonaro, como militar, teve uma carreira curta e conturbada, marcada por atos de insubordinação que abreviaram os seus dias na ativa e o levaram para a reserva com menos de 40 anos.
Em todo caso, a grande maioria desse pelotão militar de que falamos é formada por candidatos filiados a partidos de direita; muito identificados com o presidente Bolsonaro e com o discurso dele, dizendo-se admiradores e apoiadores dele. Mas há exceções.
Em Cachoeiro, por exemplo, o Capitão Sousa (Rede), vice na chapa de Joana D’Arck (PT), integra um movimento denominado “Policiais Antifascismo”, em oposição ao governo Bolsonaro. É um candidato de esquerda, que chama a atenção nesta análise exatamente por fugir inteiramente à regra.
Mas, mesmo entre os candidatos autodeclarados de direita, percebem-se algumas diferenças, que não são pequenas, de perfil, postura, discurso, ideias e até de concepção sobre o que significa ser “conservador” e “de direita”. Ou seja, alguns desses candidatos militares de direita manifestam compreensões muito distintas sobre o que é ser um candidato de direita.
Para citar exemplos gritantes, os coronéis Daltro Ferrari (Guarapari) e Nylton Rodrigues (Vitória) não são politicamente ligados a Bolsonaro, e sim ao ex-governador Paulo Hartung, por sua vez crítico e opositor do atual presidente da República.
Nylton tem Hartung como conselheiro político. Chegou ao comando-geral da PMES no 4º dia da greve da tropa (apoiada à distância por Bolsonaro) e liderada, entre outros agentes, de dentro de batalhões, por Capitão Assumção, por sua vez amigo de Bolsonaro. Enquanto Assumção ajudou a sustentar o motim por mais de 20 dias (após o qual ficou preso por meses), Nylton atuou para debelar o movimento.
Ou seja, esta eleição a prefeito de Vitória coloca frente a frente Nylton e Assumção, adversários na greve, na tropa e donos de visões muito diversas sobre o governo Paulo Hartung, sobre Jair Bolsonaro e sobre os conceitos de “ordem e disciplina”. Mas ambos se declaram candidatos de direita. E vêm para essa disputa com o mesmíssimo slogan: “Vitória Merece Mais”.
Isso só prova o quanto a discussão maniqueísta entre “direita” e “‘esquerda” revela uma compreensão muito superficial acerca da política, como se a luta política não passasse de uma relação binária (A ou B, preto ou branco, direita ou esquerda) e como se “direita” e “esquerda” fossem categorias estanques e homogêneas.
Em um país democrático como o Brasil, não existe uma só “esquerda”, unificada. O que existem historicamente são várias esquerdas, isto é, várias forças de esquerda, as quais vivem brigando entre si. A história da esquerda é a história da luta dentro da própria esquerda, entre os partidos de esquerda e às vezes dentro do mesmo partido (por exemplo, as correntes internas do PT).
Da mesma forma, existem várias direitas. Não é uma coisa só. E, como fica cada vez mais claro, sobretudo depois da chegada de Bolsonaro ao poder, essas muitas forças de direita também se digladiam entre si, na luta por hegemonia dentro do mesmo campo.