A eleição municipal em pleno ano da pandemia do novo coronavírus guarda uma série de peculiaridades: o calendário eleitoral alterado, as restrições ao corpo a corpo dos candidatos, a não realização do voto biométrico... Mas nenhuma dessas singularidades supera a quantidade absurda, ridiculamente elevada, de candidatos a prefeito nas maiores cidades do país.
O fenômeno se manifesta no Brasil inteiro, e no Espírito Santo não é diferente. O pleito municipal de 2020 será marcado como aquele em que, aparentemente, todo mundo resolveu ser candidato a prefeito. E viva a nossa democracia! Mas esse excesso de candidaturas, na verdade, não é bom para o processo eleitoral, muito menos para o nosso eleitor. Uma abundância tal de opções é um convite para o caos, a superficialidade e a fragmentação do debate.
Só na Grande Vitória, somando os cinco municípios que compõem a região, chega a incríveis 54 o número de candidatos a prefeito que pediram registro à Justiça Eleitoral, o que dá uma média de 10,8 candidatos por município. Trata-se de um número boçal.
A título de comparação, na eleição municipal passada, em 2016, as mesmas cinco cidades tiveram um total de 23 candidatos a prefeito (média de 4,6 por município). Assim, só na Grande Vitória, o total de candidaturas majoritárias mais que dobrou de uma eleição municipal para a outra. Para cada 2 candidatos a prefeito competindo em 2016, temos 5 desta vez. É disso que estamos falando.
Em Cariacica, temos 14 candidatos a prefeito (em 2016, foram 4). Também em Vitória, 14 solicitaram registro (contra 5 candidatos na eleição passada). Cachoeiro tem 12. Vila Velha, 11. São Mateus, Colatina e Guarapari, 10 candidatos cada um. A Serra tem 9. Viana foi "modesta": apenas 6. Mesmo assim, é o dobro dos três candidatos que disputaram a prefeitura da cidade em 2016.
Com postulantes demais, o debate fica diluído, fragmentado e superficial; os votos, pulverizados; e o eleitor pode se sentir confundido, com a atenção bastante dividida, disputada por tantos concorrentes a prefeito. Uma quantidade tão alta de candidatos torna ainda mais caótica uma eleição já completamente atípica, em pleno ano da pandemia, que se dá em um calendário alterado e sob circunstâncias e regras excepcionais. Nesse contexto, quando se trata de eleições para prefeito, o "novo normal" é uma Torre de Babel.
E mais: numa cidade-polo do interior (digamos, Cachoeiro), onde não há 2º turno, com mais de 10 candidatos na disputa, alguém em tese poderá se eleger com 25% ou 30% dos votos válidos. Legitimidade, ele(a) terá. Pelas regras do jogo, terá sido o(a) vencedor(a) do certame. Mas, politicamente, a pessoa já assumirá o mandato com uma grande dificuldade: a de ter chegado à cadeira com o apoio de menos de um terço dos eleitores.
Considerando os votos totais (nulos, brancos e abstenções inclusos), a conta fica pior ainda para ele(a). Contando quem não vota (crianças, adolescentes e idosos aos quais o voto é facultativo), o indivíduo pode chegar à prefeitura com o voto de 1/5 da população total da cidade.
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Já nas quatro cidades da Grande Vitória que têm mais de 200 mil eleitores registrados e que portanto podem ter 2º turno (Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica), meu prognóstico é que todas terão a disputa decidida em dois turnos, justamente em razão desse manancial de candidatos.
E aí, por força do adiamento do calendário eleitoral, teremos um 2º turno extremamente curto, comprimido nas duas últimas semanas de novembro, entre os dias 16 e 29. Na verdade, com a última reforma eleitoral, o 2º turno já tinha sido bastante encurtado: teria só três semanas de duração, tal como em 2018. Agora, com o calendário refeito por conta da pandemia, essas três semanas viraram apenas duas. O resultado disso é o seguinte:
Com essa multidão de candidatos a prefeito, o debate disperso demais e o eleitor muito mais preocupado com questões mais urgentes ligadas à própria sobrevivência (saúde, emprego e renda ameaçados pela pandemia), o 1º turno tende a ser muito confuso e passar voando; as pessoas só vão "entrar" mesmo na eleição na reta final do 1º turno (na 2ª semana de novembro, do dia 9 ao dia 15), quando "forem lembradas" de que "têm que ir votar".
O índice de abstenção deve ser grande, e muitos deverão deixar para escolher o candidato a prefeito nos últimos dias (não vou nem comentar vereador...). E o 1º turno, no fim das contas, deverá servir basicamente para "limpar" ou "clarear" o processo, mantendo vivos na disputa só os dois mais competitivos e excluindo de cena todo o exército de figurantes (os extras).
Então, a "eleição de verdade" deve começar somente no dia 16/11, isto é, na abertura do 2º turno, com a expectativa de que, aí, sim, possa haver entre os dois finalistas um debate verdadeiro, mais claro e mais centrado em propostas para as respectivas cidades. Mas eis que caímos naquele primeiro complicador: o 2º turno é curtíssimo. Será que dará tempo realmente de se debater e se aprofundar em propostas para as questões mais urgentes dos municípios? Torço para que sim, mas sem grandes esperanças.
É possível que, sendo tão compacto, esse 2º turno acabe se tornando uma sangria desatada, uma campanha em que predominem a polarização ideológica rasa, o denuncismo mútuo e a troca de ataques rasteiros (sobretudo pelas redes sociais).
FOGO CRUZADO
Em resumo, receio que o 1º turno, nas maiores cidades, será como um tiroteio no saloon, em filme de bangue-bangue, no qual todo mundo atira em todo mundo em uma sequência caótica. No fim da cena, sobrarão de pé dois "pistoleiros". Já o 2º turno, em uma campanha de tiro curtíssimo, será como um daqueles duelos em frente ao saloon, na rua empoeirada da cidade, igualmente inspirado em clássicos do western.
Cada um terá que contar dez passos para trás para então sacar a arma e atirar. Mas, antes que cheguem ao décimo passo, a campanha já terá acabado, e já será hora de o eleitor ir votar de novo. É provável então que, burlando "as regras do duelo", os dois se voltem um para o outro antes disso e já saiam atirando desde o início do 2º turno, num matar para não morrer e num salve-se quem puder.
Boa sorte para nós, no meio do fogo cruzado.