Esta eleição estadual, no Espírito Santo, é especialmente importante
por uma combinação de fatores. Há algumas escritas históricas que serão quebradas.
A mais importante delas foi trazida aqui pela colunista Letícia Gonçalves: o fim do ciclo de revezamento de Paulo Hartung e Renato Casagrande no poder, que durou 24 anos. E há também outras
escritas que poderão ser quebradas.
Só as urnas em outubro o dirão. Uma delas pode ser resumida assim:
Desde a primeira eleição direta para o Governo do Espírito
Santo, realizada em 1982, no final do período autoritário da ditadura civil-militar, os capixabas nunca elegeram um governador
genuinamente de direita. Jamais.
Com o golpe militar de 1964, os governadores dos estados
passaram a ser escolhidos ou de forma indireta (votação da Assembleia Legislativa)
ou por indicação direta da junta militar que governava o país. Eram os chamados
“governadores biônicos”. Isso mudou em 1982, durante o governo do general
Figueiredo, nos estertores do regime de exceção. Desde então, já foram
realizadas 11 eleições diretas e democráticas para governador, por sufrágio
universal.
Por soberana vontade popular, foram eleitos, nesta ordem:
1982: Gerson Camata (PMDB)
1986: Max Mauro
(PMDB)
1990: Albuíno
Azeredo (PDT)
1994: Vitor
Buaiz (PT)
1998: José
Ignacio Ferreira (PSDB)
De 2002 em diante: Hartung (três vezes, pelo PSB e pelo PMDB) e Casagrande (três vezes, sempre
pelo PSB)
Nenhum deles, ao ser eleito, podia ser considerado um “político
genuinamente de direita”. O que estamos chamando de “político genuinamente de
direita”? Um líder político que se declarasse abertamente de direita e/ou que
apresentasse todas as características inequivocamente associadas a esse campo
do espectro ideológico.
Quanto a Max Mauro, Albuíno e Vitor, não cabe a menor discussão:
eram três homens de esquerda.
Prefeito de Vila Velha, além de deputado estadual e federal nos
anos 1970 e 1980, o pai de Max Filho foi um dos mais importantes e combativos
líderes políticos capixabas na luta contra a ditadura, pela via institucional.
Nesse período, foi um expoente local do Movimento
Democrático Brasileiro (MDB), partido no qual se concentrava toda a oposição institucional
ao regime militar nos tempos do bipartidarismo forçado, em contraposição à Aliança
Renovadora Nacional (Arena), o partido da ditadura.
Foi eleito em 1986 pelo PMDB, na primeira eleição direta
para governador após o fim oficial da ditadura (um ano antes) e já com o pluripartidarismo
reimplantado no país. No auge da ditadura, tinha a admiração, por exemplo, de
líderes do movimento estudantil capixaba no período, entre eles o futuro
governador Paulo Hartung (que derrotou o mesmo Max em 2002).
Quanto a Albuíno, basta dizer que foi eleito em 1990 com o
apoio total de Max para sucedê-lo, após ter sido secretário estadual de Planejamento
em seu governo. Além disso, Albuíno foi eleito pelo Partido Democrático
Trabalhista (PDT), que é, até hoje, um dos mais importantes partidos de
centro-esquerda do país, fundado por ninguém menos que Leonel Brizola logo após
seu retorno ao país com a anistia política de 1979.
Brizola foi um dos mais importantes líderes de esquerda do
Brasil no século passado. Sempre foi um dos maiores críticos à ditadura e aos
que “engordaram com ela”, como dizia. Em 1989, por muito pouco não chegou ao 2º
turno da eleição presidencial, perdendo o lugar para Lula (PT), que perderia a
votação final para Collor, um populista de direita.
Com relação a Vitor, não é preciso dizer muito. É, de todos
os nomes da lista, o que mais tranquilamente pode ser classificado como “governador
de esquerda”. O único até hoje eleito pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no
Estado.
Após ter sido um importante líder sindical, o médico foi
eleito prefeito de Vitória (um dos primeiros petistas a governar uma capital do
país) e, em 1994, ao Palácio Anchieta (um dos primeiros petistas a governar
qualquer estado brasileiro).
Quanto à dupla que se alternou no poder por seis mandatos –
três para cada um – por quase um quarto de século, definitivamente não se pode considerá-los
“governadores de direita”, ainda que se façam necessárias algumas ponderações.
Eleito três vezes (2010, 2018 e 2022), Casagrande governou
por 12 anos, ou, precisamente, 11 anos e três meses, já que renunciou em abril
para ser candidato a senador. É, desde o início dos anos 1990, o mais
importante líder do Partido Socialista Brasileiro (PSB) no Espírito Santo. É um
quadro histórico e orgânico da sigla. Até difícil imaginá-lo filiado a outra.
O nome fala por si, mas o que é o Partido Socialista
Brasileiro senão uma das mais importantes agremiações de centro-esquerda do
Brasil, cuja grande referência é Miguel Arraes, outro vulto da esquerda
brasileira no século XX?
Em todos os três mandatos, Casagrande, é bem verdade, governou
à frente de amplas coalizões que incluíram forças políticas da esquerda, do
centro e da direita moderada. Digamo-lo de forma mais direta: para chegar ao
governo e governar, o socialista fez muitas alianças com a direita.
Prova eloquente e bem recente disso foi sua dobradinha em
2022 com Ricardo Ferraço – este, sim, um homem “genuinamente de direita”
(chegaremos lá) –, bem como seu apoio eleitoral agora a seu ex-vice-governador.
Mas fazer alianças com a direita é uma coisa. Ser de direita é outra, bem diferente... Ainda que ele seja extremamente pragmático e não raro tenha se comportado como um político de centro, inclusive como governador, seria um grave equívoco dizer que Casagrande é um “homem de direita”.
Para encerrar o caso, ele mesmo já se declarou de esquerda.
E acaba de declarar apoio, novamente, a Lula (PT) para a Presidência. Próximo!
Paulo Hartung
(2003-2010; 2015-2018)
O próximo é Paulo Hartung, que requer ainda mais ponderações...
Nos últimos anos, é bem verdade, Hartung fez uma inflexão à
direita. No ano passado, por exemplo, filiou-se ao Partido Social Democrático
(PSD), um partido de centro-direita que deita raízes no antigo Democratas
(DEM), por sua vez descendente do Partido da Frente Liberal (PFL), por sua vez
descendente direto da Arena... Esse é um ponto.
O PSD, inclusive, concorre à Presidência neste pleito com o
ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, homem declaradamente de direita.
Hartung também se aproximou do atual governador de São
Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), um bolsonarista declarado. Em
solenidades do governo, Tarcísio mais de uma vez já se referiu a ele como um
conselheiro.
Mas o critério desta análise é: perfil quando foi eleito.
Originalmente um militante do Partido Comunista Brasileiro
(PCB), então na clandestinidade, Hartung foi o mais importante líder estudantil
da Ufes no fim dos anos 1970. Depois entrou no PMDB, pelo qual exerceu seus dois
mandatos de deputado estadual, nos anos 1980.
Com a fundação do Partido da Social Democracia Brasileira
(PSDB), da costela do PMDB, em 1980, tornou-se um tucano de carteirinha,
elegendo-se pela sigla a deputado federal e a prefeito de Vitória.
Em 2002, elege-se governador, pelo centro-esquerdista PSB. Em
2006 e 2014, pelo centrista MDB. Durante seus três governos, como também faria
Casagrande, liderou amplas coalizões que iam da esquerda à direita (o DEM, por
exemplo, na época dirigido por Sérgio Aboudib).
Mas a “alma política” de Hartung, até seu último governo,
era a de um autêntico tucano: um socialdemocrata, defensor da liberdade de
mercado com o Estado promovendo desenvolvimento social.
Os maiores asteriscos nesta análise cambem a Gerson Camata e
José Ignácio. Os dois foram os que mais chegaram perto de ostentar um perfil de
direita.
Vindo do interior e de programas policiais no rádio, Camata
era bastante conservador nos costumes e teve uma passagem pela Arena, antes de
se tornar governador.
Mas, em primeiro lugar, jamais se declarou de direita.
Ninguém o fazia na época.
Em segundo lugar, foi eleito governador pelo PMDB, partido
de oposição à ditadura. Fez sua campanha com teses de esquerda e participação
popular. Apoiou esquerdistas (à época), como Hartung e Luiz Moulin.
Assim como Casagrande, Camata foi um governador popular “oriundo
da roça”, com uma pauta bem de centro e alianças à direita. Mas não chegou, de
modo algum, a ser um “governador de direita”.
Quanto a José Ignacio, o advogado foi eleito senador em
1983, pelo PMDB. Em 1988, foi um dos fundadores do PSDB. No primeiro ano do
governo Collor, em 1990, aproximou-se da direita, ao se tornar o líder do governo
no Senado. Chegou a trocar momentaneamente o PSDB pelo partido de Collor.
Depois voltou ao PSDB e, como tucano, elegeu-se governador
em 1998.
Chamar Ignacio de “governador de direita” não encontra
amparo em sua história. Em primeiro lugar, assim como Camata, ele jamais se
declarou de direita.
Em segundo lugar, Ignacio, então no MDB, chegou a ter o
mandato de deputado estadual cassado pela ditadura, no fim dos anos 1960. Além
disso, como presidente da OAB-ES, foi muito combativo contra o regime
autoritário.
Fica a pergunta: e agora?!? Esse tabu de 11 eleições diretas
poderá ser quebrado?
Resposta da coluna: há grandes chances.
Pela primeira vez no atual período democrático, inaugurado
nos anos 1980, o Espírito Santo pode eleger um governador “genuinamente de
direita”.
O “tabu” poderá ser rompido, uma vez que os dois favoritos
(referência: Quaest/julho), Ricardo Ferraço e Pazolini, têm perfil notoriamente
de direita.
O ex-prefeito de Vitória é um político declaradamente de
direita. Tem perfil conservador e de direita moderada (não radical ou
extremista, embora tenha o apoio do PL). Sua coligação é de direita, baseada no
binômio Republicanos/PL.
Ricardo, por sua vez, não chega a se declarar assim. Tem repetido
que não quer entrar em “brigalhada ideológica”. Nunca responde diretamente qual
é o seu campo ideológico. Vem para a campanha à frente de uma coligação que vai
da esquerda à direita, a exemplo daquelas de Casagrande (e com o apoio do
socialista).
Mas basta analisarmos sua história e seu DNA político.
Nos idos doas anos 1980 e 1990, Ricardo iniciou sua trajetória
como um político de centro. Com o passar do tempo, porém, notadamente ao longo
de sua passagem pelo Senado nos anos 2010, o herdeiro de Theodorico Ferraço fez
uma inflexão do centro para a direita.
Em 2016, ajudou a impichar Dilma Rousseff (PT). No ano
seguinte, relatou a reforma trabalhista do governo Temer (MDB), o que até hoje leva
a “esquerda raiz” a fazer vudu contra ele.
Hoje, “ser de direita” no Brasil virou o resultado da combinação
“conservador nos costumes + liberal na economia”.
Como candidato, Ricardo meio que se transformou exatamente num
arquétipo dessa combinação.
Sempre foi superliberal na economia, ninguém há de questionar
isso. Pergunte a qualquer representante do empresariado capixaba, cuja agenda
ele defendeu por anos no Congresso Nacional.
Em paralelo, no campo dos costumes, Ricardo tem buscado
fixar uma identidade de cristão conservador. Tem falado o tempo todo em “respeito
à família”, “valores cristãos” etc.
Correndo por fora (referência: Quaest/julho), o deputado
Helder Salomão, candidato do PT a governador, está doido para manter o tabu.
Como já declarou em entrevista, está convencido de que chegará ao 2º turno.
A conferir.
Obs: Esta análise
contou com inestimável colaboração do cientista polítco João Gualberto Vasconcellos.
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