Bravatas, gritaria ideológica, mentiras, frases de efeito, teorias conspiratórias. Tudo isso pode ajudar pessoas a chegar ao poder. Mas, se tem uma lição que essa pandemia nos ensinou a todos da maneira mais cruel possível é: nada disso ajuda a governar. Barulho ideológico não dá resultado, menos ainda quando suplanta a boa técnica, o respeito a especialistas, a reverência a séculos de estudos e pesquisas acumulados pela ciência.
Na hora em que a crise aparece, ou se agrava, e em que é preciso apresentar soluções e dar respostas claras e concretas à população, de nada serve a gritaria ideológica. Nem sempre o que serve para chegar ao governo também serve para governar.
Para governar, é preciso método, planejamento, organização, equipe qualificada escolhida por critérios técnicos, coordenação de ações, comunicação clara e correta com a população.
É preciso currículo, treinamento, preparo, liderança, competência, capacidade gerencial, conhecimentos específicos sobre gestão, finanças públicas… Ah, sobre economia também!
É meio incrível termos que frisar isso, mas, na atual conjuntura, não é demais lembrar: um homem público que faça jus à nossa confiança também precisa demonstrar respeito ao cargo e às pessoas, equilíbrio emocional, temperança, educação. Civilidade. Modos.
Acima de tudo (e de todos), precisa ter espírito público acima do próprio ego, da busca incontida por pretensas vitórias pessoais, colocadas acima dos interesses coletivos.
Não estamos vendo nada disso.
O QUE OCORREU EM 2018
A vitória eleitoral do deputado medíocre do baixo clero, militar insubordinado, capitão de curta e conturbada passagem pelo Exército brasileiro, não se deu por amor ou adoração da maioria dos eleitores a Bolsonaro, tampouco por aderência da maioria à sua ideologia radical e obscurantista, um combo onde se mesclam preconceitos, autoritarismo, apologia da violência e ódio cultivado contra adversários (sejam eles reais ou imaginários). Não.
Foi, isto sim, o resultado da convergência nas urnas de um profundo sentimento de rejeição ao PT e ao petismo, que então se encontrava no ápice e que encontrou em Bolsonaro a sua melhor válvula de escape. Em 2018, um mais que justificado antipetismo (que até hoje perdura) escoou para o deputado, que soube apresentar-se como a mais acabada personificação de tal sentimento e que conseguiu vender-se como “novo” apesar de seus sete mandatos seguidos e quase 30 anos de atuação limitada e pouquíssimo produtiva na Câmara Federal.
A materialização desse sentimento se deu na vitória de Bolsonaro. Mas foi uma eleição regida mais pelo medo e pelo ódio nutrido pelo outro do que propriamente por apoio real do eleitor ao seu próprio candidato. Ou seja, grande parte dos que votaram em Bolsonaro não votaram nele por gostar dele, mas por pura rejeição ao candidato do PT (e vice-versa).
Isso sem contar uma "combinação perfeita" de elementos que favoreceram sobremaneira o então deputado e que dificilmente se repetirão numa mesma eleição presidencial: o atentado de que ele foi vítima em Juiz de Fora, os ecos vivos da Lava Jato, o apogeu do discurso anticorrupção, a crise na segurança pública (com o revalorização de um discurso “linha dura” e a “remitificação” das Forças Armadas), a recessão econômica legada pelo governo Dilma, o uso em escala industrial das fake news diante de um atordoado TSE, disparos ilegais via Whastapp etc.
E, naturalmente, a já citada e justificada revolta com o PT e seus esquemas de corrupção para atender a seu projeto de perpetuação no poder. O eleitor deu um basta. Mas o basta que hoje é dado para um pode ser dado para o outro amanhã. O eleitor médio não tem “voto de fidelidade” a governantes por paixões ideológicas. A urna pune a escassez de resultados.
E é isso que, pelo que observo, não entenderam ainda Bolsonaro e seus apoiadores mais fervorosos. 2018 foi quase uma miragem, e seu autêntico apoio popular (hoje muito ancorado no auxílio emergencial) é, na verdade, muito menor do que ele julga ser. As eleições municipais provaram isso.
Ou o governo Bolsonaro enfim começa a dar respostas práticas aos problemas reais do país (e são muitos, agravados pela pandemia), ou o bolsonarismo está fadado a um fim melancólico. O alerta foi dado em novembro.
Caso contrário, a partir de 2021, a inépcia crônica do governo em várias áreas estratégicas, somada à doentia compulsão à violência e à pulsão de morte do próprio presidente, levará o prestígio que lhe resta a ir se desgastando com o tempo. Sobrarão aqueles 15%, 20%, que são os mesmos que já estavam com ele lá em 2016 ou antes disso e que seguirão com ele até o fim, faça ele o que fizer e diga ele o que disser na Presidência.
O QUE É O BOLSONARISMO?
Rudimentar em muitas ideias e preferências, Bolsonaro nutre um amor imensurável e inexplicável por votos em cédulas (sim: papeizinhos, em pleno ano 2020). É uma das suas muitas enormes fixações, no patamar da cloroquina e do nióbio. Pois bem: se o voto no Brasil ainda fosse realizado em cédulas de papel, o que se leu no papelzinho retirado da “grande urna nacional” nas eleições municipais de novembro foi um grande “não” ao bolsonarismo, isto é, à ideologia que encontrou no atual presidente da República sua mais acabada forma e expressão neste país.
Nessa ideologia, incluo o conjunto de ideias radicais nutridas desde sempre por ele; a renitente agressividade verbal; a política baseada na negação do adversário e na busca (declarada) por sua aniquilação;
O apreço pelo autoritarismo, proporcional ao incontido desejo de atropelar as regras e instituições democráticas;
O indisfarçado desprezo pela vida humana; a negligência e o descaso em relação ao sofrimento de terceiros;
O egocentrismo exacerbado; o narcisismo desmesurado; a persistente falta de nexo, os delírios paranoicos e adoração por teorias conspiratórias;
O discurso quase sempre violento, preconceituoso e desrespeitoso, bem como a contínua apologia a práticas igualmente violentas, preconceituosas e desrespeitosas, que encorajam brasileiros a agir de igual maneira;
As constantes manifestações de falta de educação, de decoro, de civilidade e de modos;
O desdém pela ciência, pela academia, pela cultura, pelas humanidades, pelas pesquisas com rigor e método, bem como pelo conhecimento formal acumulado ao longo de séculos;
Muitas vezes, sem nenhum exagero, o elogio da ignorância, na dupla acepção do termo: brutalidade no trato e desconhecimento orgulhoso.
Eis uma relação do que o bolsonarismo mostrou ter de pior nestes menos de dois anos de governo. Cabem discordâncias, é claro, mas cada item da lista foi reiteradamente confirmado pelo próprio presidente em seus atos e, sobretudo, manifestações, desde 1º de janeiro de 2019.
Bolsonaro, em suma, tem sido o senhor do caos após ter prometido ordem; e o senhor da guerra em um país que pede paz.