Você toma vacinas a vida inteira. A sua saúde agradece. A dos outros também. É bom para você. É bom para a coletividade. É, simplesmente, a coisa certa a fazer. Colocada em primeiro plano por Jair Bolsonaro, a discussão sobre a obrigatoriedade da vacina contra o novo coronavírus é totalmente secundária. Em qualquer país sério do mundo, qualquer presidente sério e minimamente responsável com seu povo estaria concentrando sua mensagem no que realmente importa: incentivar os cidadãos e cidadãs a se vacinarem em massa, voluntariamente, não por ser ou deixar de ser obrigatório, mas por ser, basicamente, a coisa certa a fazer, num momento em que milhões de pessoas mundo afora e milhares de brasileiros perdem a vida para um vírus que não espera pela boa vontade nem pelo bom-senso dos governantes.
Bolsonaro prefere seguir na contramão da História. Lidera uma anacrônica “guerra da vacina”. E, em vez de incentivar a vacinação, estimula a "vacilação". Pelo exemplo, encoraja uma displicência coletiva que pode cobrar do nosso povo um custo ainda mais alto, precificado por vidas humanas. Quanto mais tempo perdemos, mais vidas também perderemos. Quem tem fome tem pressa. Quem está morrendo aos milhares tem urgência por uma campanha de vacinação em massa que deveria ser coordenada e liderada pessoalmente pelo presidente da República.
Mas, para Bolsonaro, para que pressa? Sua atitude (ou falta de atitude) não tem nada de “disruptiva”. Não é nova, não é corajosa, não é “ir contra o sistema”. É, simplesmente, errada. Muito pouco inteligente. E terrivelmente perigosa para os próprios brasileiros.
Mas esse é só mais um dos muitos exemplos da contínua aposta de Bolsonaro no caos e da sua busca obsessiva por conflitos e polêmicas inúteis, em vez de unir e distensionar uma nação que anseia por saúde, paz e pela ordem que ele tanto prometeu em 2018.
Em 2018, o Brasil já estava conflagrado e polarizado. Foi uma eleição regida pelo ódio. Os eleitores dos dois lados votaram com o fígado, não com o coração. O Brasil estava cindido não propriamente entre petistas e antipetistas, mas entre aqueles que não queriam eleger de jeito nenhum Bolsonaro e os que não queriam assistir de jeito nenhum à volta do PT ao poder central. Quem quer que fosse o presidente eleito, teria que abraçar uma primeira e urgente missão: pacificar a nação.
Mas, nestes últimos dois anos, por acaso alguém viu Bolsonaro fazer algum gesto de pacificação do país? Ele não consegue e, mais que isso, não o quer. O conflito está em seu DNA político. Em vez de apagar o incêndio, só faz atear mais querosene. E tal característica, em vez de esmorecer, acentuou-se com a chegada da pandemia ao Brasil.
Em plena pandemia seria necessário: temperança, serenidade, união de esforços. Mas não há no mundo, hoje, caso igual de país tão atolado em conflitos políticos deflagrados ou ampliados pelo próprio presidente e sua família em meio à maior crise humanitária global em um século de história. No momento que mais exigira paz e harmonia entre nossas autoridades, para transmitirem tranquilidade à população, ele só faz brigar com todo o mundo: com governadores, com prefeitos, com secretários estaduais de Saúde, com os próprios ministros da Saúde, com a China e com a OMS, a qual chegou a chamar de “partidária”.
PRIORIDADES REAIS
A falta de senso de urgência demonstrada por Bolsonaro na coordenação de um plano de vacinação em massa é mais um exemplo gritante a sublinhar a sua inacreditável falta de compreensão (ou de noção mesmo) de quais são as prioridades reais do Brasil neste momento.
Desde que se iniciou o governo, suas preocupações deveriam estar voltadas para as reformas modernizadoras da nossa economia, o aumento da produtividade, a redução do Custo Brasil, o controle do déficit fiscal, o enfrentamento à pandemia de maneira articulada com os Estados e a preservação dos nossos ecossistemas (sobretudo a Amazônia) e da nossa biodiversidade, não por ser vegano, xiita, “ongueiro” ou algo assim, mas porque, basicamente, é a coisa certa e mais inteligente a se fazer inclusive do ponto de vista econômico, em um mundo que caminha a passos largos de uma declinante economia fóssil para uma ascendente economia verde.
Em vez disso, o presidente passou os últimos dois anos mais preocupado em direcionar órgãos do Estado brasileiro para blindar seus filhos de investigações, “vender” cloroquina e pulseirinha de nióbio, combater a importação de bananas do Equador, brigar com a ativista Greta Thunberg e presidentes mundo afora, arrumar rixa com governadores por causa do combate à pandemia, comemorar interrupção de estudo de vacina, fazer campanha pelo voto impresso...
MENSAGEM ERRADA
Ao voltar a declarar no último sábado (19) que a pandemia está quase acabando, em "entrevista" para o próprio filho Eduardo Bolsonaro, enquanto o Brasil inteiro se preocupa com a segunda onda e os números de contágio e de mortes cresce na maioria dos Estados, o presidente volta a exercitar um de seus passatempos prediletos: brigar com os fatos e com a realidade. Quando simplesmente se recusa a fazer o que se espera de qualquer governante responsável em qualquer parte do mundo em momento tão crítico – incentivar seus concidadãos a se vacinarem em massa –, Bolsonaro, mais uma vez, manifesta sua propensão crônica a dizer a coisa errada em cada situação.
É incrível como quase sempre “consegue” transmitir a mensagem equivocada, a última que se esperaria do ocupante do cargo máximo de chefe da República, para quem os olhos do povo sempre se voltam em um momento de aflição. Quase sempre, em vez de estimular as pessoas a agir de maneira decente e fazer a coisa certa, só faz encorajar comportamentos condenáveis, ditados pelo desrespeito e por preconceitos múltiplos, que ferem de algum modo terceiros.
É assim quando desdenha e debocha da proteção do meio ambiente. É assim quando profere palavras que inferiorizam mulheres e a comunidade LGBT. É assim quando não condena, aliás legitima, mortes sem causa praticadas por militares ou agentes de segurança pública. É assim quando agride verbalmente jornalistas que lhe fazem perguntas legítimas e necessárias, mas incômodas para ele mesmo.
ORDEM E DESORDEM
Bolsonaro provém da instituição militar, tão associada à ideia de “ordem” em nosso inconsciente coletivo. E se elegeu em 2018 com discurso de "lei e ordem". No caso do presidente, porém, essa “ordem” é muito relativa e não encontra eco em sua biografia. No Exército, entre os anos 1970 e 1980, ele teve uma passagem curta e marcada por insubordinação. Em fevereiro de 2017, gravou mensagem de incentivo aos grevistas da Polícia Militar do Espírito Santo. Em maio de 2018, ainda como deputado, apoiou a greve dos caminhoneiros. Em fevereiro deste ano, já como presidente, jamais condenou a greve dos policiais militares no Ceará.
Sem falar que seu próprio governo, em áreas extremamente estratégicas, está que é uma desordem só, a começar pela gestão da crise da pandemia, com Bolsonaro desautorizando um ministro atrás do outro e derrubando um a um os mais sensatos. E o que dizer então do Ministério da Educação, indo e vindo, para a frente e para trás, totalmente à deriva há dois anos? Esse governo recua mais do que todas as baterias de escola de samba juntas na Sapucaí, em um desfile que não ocorrerá em 2021.
E assim, nesse desfile de incapacidade e de irresponsabilidade, o Brasil está saindo na frente do resto do mundo quando o assunto é “vacilação”.