Renato Casagrande está querendo promover uma “aglomeração”. Calma, é só em 2022. E trata-se de uma “aglomeração” de caráter partidário e eleitoral. Visando à próxima eleição estadual no ano que vem, a coalizão governista está em franca expansão. O foco de Casagrande no momento é atrair para sua base e seu governo três partidos importantes de centro-direita: Republicanos, MDB e PSDB.
Se esse plano der certo, o governador não só anula potenciais adversários na próxima eleição estadual como prepara um “chapão” de centro que pode “arrastar” tudo, indo da centro-esquerda à centro-direita. Pelo que apurei, o plano do governo é esse mesmo. E a ideia é, com esse chapão, isolar os extremos: de um lado, o candidato do PT; do outro, o representante do bolsonarismo no Espírito Santo.
O governo Casagrande, desde o início e até hoje, goza de ampla hegemonia política no Estado. Em 2018, ele se elegeu com uma grande coligação. Desde 2019, a grande maioria dos partidos relevantes no Espírito Santo faz parte do governo e de sua base na Assembleia Legislativa. No Parlamento estadual, ele sempre pôde contar com uma maioria folgada, de mais de 20 dos 30 deputados. O governo nunca sofreu uma oposição expressiva, que realmente incomodasse o Palácio Anchieta. Alguns rompantes de Capitão Assumção, Vandinho Leite, Pazolini... Também Torino Marques, Bahiense e Carlos Von: só meia-dúzia de deputados, 1/5 do plenário; muito mais barulho e marcação de posição do que ameaça real.
Em 2020, o governo ainda conseguiu ampliar a sua base de apoio, atraindo para seu movimento um partido até então considerado improvável: o PSL, então dono da maior bancada na Assembleia (a maior hoje é a do PSB). Mas Casagrande quer mais.
Contornado o Cabo das Tormentas e iniciada a segunda metade do mandato, o foco de todos os agentes políticos do Estado já se volta para as próximas eleições estaduais, em 2022. Tendo como meta a reeleição e a permanência no poder sem sustos, o governo Casagrande tem colocado em prática uma operação ostensiva para formar uma coalizão ainda maior em 2021/2022, de modo a não dar brecha nem respiro para nenhum foco de oposição que possa se materializar em palanque de oposição a ele na próxima eleição ao Palácio Anchieta. O que isso significa na prática?
Significa “acabar com as exceções”; trazer para dentro do próprio movimento todos os partidos importantes que ainda estão “soltos” no tabuleiro político estadual. Destacadamente: o Republicanos, o PSDB e o MDB.
Os três partidos são forças de centro-direita muito respeitáveis. Na última eleição municipal, o MDB e o PSDB se saíram muito bem nacionalmente, enquanto o Republicanos teve um resultado fenomenal no Espírito Santo. Absorvendo essas forças políticas e tornando-as parte de seu governo (o que passa pela concessão de espaços generosos para esses “novos parceiros” na máquina), Casagrande também as neutraliza, isto é, anula qualquer chance de o Republicanos, o MDB e o PSDB lançarem candidatura contra ele ao governo em 2022.
O REPUBLICANOS DE ERICK MUSSO
O Republicanos, por exemplo, tem nomes de peso eleitoral como Sérgio Meneguelli e Amaro Neto, além de ter acabado de fazer o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, e de ter o presidente da Assembleia, Erick Musso. Se essa força emergente ficar solta, dando sopa no mercado político, pode até se animar a lançar candidatura própria ao governo já em 2022, talvez unindo-se com outros atores políticos (atenção à quantidade de aliados de Paulo Hartung na equipe de Pazolini em Vitória).
Para Casagrande, convém muito mais firmar desde já um ótimo acordo para as duas partes, transformando o Republicanos em uma perna de sua coalizão rumo a 2022 e deixando o caminho livre para esse grupo pleitear o governo em 2026. É exatamente por esse ponto que está passando a intrincada negociação do Palácio Anchieta com Erick Musso agora, na eleição da Assembleia Legislativa. Erick não quer abrir mão de concorrer novamente à presidência no dia 1º de fevereiro, mas, para ser convencido a sair, qual será a compensação para ele mesmo e seu grupo no Republicanos?
O MDB DE ROSE DE FREITAS
No caso do MDB, nesta semana o governo Casagrande recebeu uma excelente notícia, que foi a refiliação da senadora Rose de Freitas ao partido de onde saiu em 2018, para se filiar ao Podemos e concorrer ao governo do Estado (“contra” Casagrande, mas nem tanto). Os dois são antigos aliados e até hoje cultivam excelente relacionamento político.
Rose retorna à velha casa com possibilidades concretas de assumir a presidência estadual, por designação direta da direção nacional do MDB, em pé de guerra no Espírito Santo desde o início de 2019. Rose voltaria por cima, como a “pacificadora” do MDB, mergulhado numa disputa sem fim pela liderança estadual entre o ex-deputado federal Marcelino Fraga e o atual presidente estadual, Lelo Coimbra.
Por aquele prisma da eleição de 2022, ter Rose à frente do MDB-ES é, para Casagrande, muito melhor do que ter Lelo dando as cartas. Se Rose é muito mais próxima ao atual governador, Lelo é aliado histórico de Paulo Hartung. Esse núcleo do MDB mais hartunguista cogita lançar em 2022 a candidatura ao governo do prefeito de Linhares, Guerino Zanon. O próprio Lelo já declarou à coluna que essa hipótese lhe agrada.
Ora, com Rose assumindo o comando no lugar de Lelo, o jogo muda a favor de Casagrande. E, em tese, se Rose der mesmo esse direcionamento ao partido no Estado, a tendência passa a ser que o MDB também seja inserido na coalizão governista e no palanque oficial em 2022, em vez de se animar a lançar candidatura própria contra o atual governador. É provável que o MDB ingresse nesse movimento liderado por Casagrande, que anularia, assim, outro foco de ameaça eleitoral.
O PSDB DE VANDINHO LEITE
Quanto ao PSDB, desde dezembro, o governo tem feito acenos a Vandinho Leite, que por sua vez também dá sinais de querer uma reaproximação política com o Palácio. Ferrenho opositor do governo nos dois primeiros anos do mandato, até a última eleição municipal, o presidente estadual do PSDB passou a amenizar muito o tom em suas falas no fim do ano passado. Interlocutores de Casagrande também afirmam que gostariam de ter o PSDB na base e no governo.
Essa negociação, é claro, também deve passar pela abertura de espaços vistosos para o PSDB no governo, talvez até no 1º escalão. Nesse contexto, um nome que não pode ser esquecido é o do ex-prefeito Max Filho (PSDB). Sobre a hipótese de virar secretário, ele mesmo já afirmou não poder dizer que “dessa fonte jamais beberá”.
CONCLUSÃO: O OBJETIVO FINAL
Com quase todos aglutinados em torno de Renato Casagrande, quem é que sobra fora dessa aglomeração no tabuleiro eleitoral capixaba? Grosso modo, sobram os extremos. De um lado, sobra o PT. Do outro, o bolsonarismo (a direita extremada e mais acalorada).
E, no fundo, é exatamente esse o projeto eleitoral de Renato Casagrande e de seu núcleo duro para 2022: lançar no Espírito Santo um “chapão de centro” que simplesmente arraste tudo da esquerda (PSB, PDT, PV, PCdoB etc.) à centro-direita (PSDB, MDB, Republicanos...), isolando no processo os representantes mais efusivos do “lulopetismo” e do “bolsonarismo” e apostando no desgaste desses dois polos políticos daqui a pouco mais de um ano e meio.
É a aposta e o projeto de Casagrande. Parafraseando o célebre cangaceiro Corisco em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha: “Mais fortes são os poderes do Polvo”.
ADENDO: AUDIFAX BARCELOS
Sobra também Audifax Barcelos, líder da Rede Sustentabilidade no Espírito Santo, que vem desenhando uma trajetória política à parte, descolada dessa coalizão de Casagrande, e que pode ser candidato ao governo do Estado contra ele no ano que vem.