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Reviravolta

Com Da Vitória, Casagrande participou da tomada do PSL-ES por Quintino

Aliadíssimo do governador, Da Vitória ajudou Quintino a conquistar a presidência do PSL-ES, mediando conversa com Bivar em Brasília. Operação atendeu a interesses do governo Casagrande

Publicado em 23 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

23 mar 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Renato Casagrande, Alexandre Quintino e Josias da Vitória Crédito: Amarildo
O deputado estadual Coronel Alexandre Quintino acaba de completar uma bem-sucedida operação de tomada do comando do Partido Social Liberal (PSL) no Espírito Santo. Isso é público. O que pouca gente sabe é que, nessa “operação de guerra partidária”, Quintino pôde contar com o auxílio direto e decisivo e outro militar da reserva: o deputado federal Josias da Vitória (Cidadania).
Da Vitória foi quem viabilizou o movimento de Quintino em Brasília, realizado no início deste mês, a fim de abrir o caminho para o deputado estadual ascender à presidência do PSL-ES, com todas as bênçãos do cacique nacional do partido, o deputado federal por Pernambuco Luciano Bivar.
Como o próprio Da Vitória admite à coluna, foi ele quem agendou a reunião decisiva de Quintino com Bivar, no gabinete deste na Câmara, no dia 3 de março. Nessa conversa, aparentemente, o coronel da reserva da PMES caiu nas graças do presidente nacional do PSL. Quintino voltou de lá dizendo que, extraoficialmente, havia recebido de Bivar ordens e poderes para agir no Espírito Santo como presidente regional do partido – cargo até então exercido, oficialmente, pelo empresário Amarildo Lovato.
E de fato assim foi. Na última terça-feira (17), por resolução direta do presidente nacional do PSL (onde o caciquismo prevalece mesmo), Lovato foi destituído da função, e Quintino assumiu, oficialmente, a presidência estadual da legenda. Graças, repito, à atuação direta de Da Vitória.
Além de marcar para Quintino a reunião decisiva com Bivar, Da Vitória foi quem o hospedou em Brasília no apartamento que ocupa, durante a estadia do colega na capital federal. Naquele dia 3 de março, os dois embarcaram para Brasília no mesmo voo. Diga-se de passagem, o mesmo avião também levava outro ilustre político do Estado: o governador Renato Casagrande (PSB). Em diálogo com este colunista, os três passageiros citados – Quintino, Da Vitória e o próprio Casagrande – negaram que o governador tenha participado da conversa de Quintino com Bivar.
Mas a maneira como se deu a meteórica escalada de Quintino à presidência estadual do PSL e a confirmação da participação direta de Da Vitória nesse movimento indicam algo muito fortemente: o Palácio Anchieta tinha grande interesse nessa mudança na cadeia de comando estadual do ex-partido de Jair Bolsonaro. Indicam, ainda, que o governo de Renato Casagrande teve participação importante, mesmo que indireta, nessa dança das cadeiras. O governador pode até não ter se envolvido pessoalmente na articulação, mas emissários dele, sim.
É só ligar os pontos.

AS CONEXÕES ENTRE QUINTINO, DA VITÓRIA E CASAGRANDE

Pra começo de conversa, o que Da Vitória tem a ver com Quintino? A resposta está no terceiro personagem, situado entre eles.
Embora em patentes bem distintas e distantes na hierarquia da tropa, o cabo e o coronel da reserva têm a mesma origem política: as fileiras da PMES. Mas esse não é o único nem o mais importante ponto em comum a uni-los: ambos são antigos e incondicionais aliados políticos de Casagrande.
Durante o governo passado de Paulo Hartung (2015-2018), Da Vitória manteve-se leal ao socialista (então sem mandato), atuando como uma das poucas vozes de oposição ao Palácio Anchieta na Assembleia Legislativa. Já Quintino foi uma surpresa contrária: de quem se esperava oposição, encontrou-se apoio.
Pelo fato de o coronel da PMES ter chegado à Assembleia em 2019 pelo PSL, quem desconhecia o vínculo pregresso dele com Casagrande esperava oposição ao governo deste por parte do recém-chegado deputado. Em vez disso, Quintino revelou-se praticamente um “desertor do bolsonarismo” e um imprevisto apoiador do governador de centro-esquerda na Assembleia, mesmo dentro daquele PSL então presidido no Estado por Carlos Manato.
Assim, com a súbita chegada de Quintino à presidência do PSL-ES – em um momento decisivo, de definições de pré-candidaturas –, Casagrande passa a ter ali, em posição estratégica, um aliado de primeira hora. Com isso, garante para si o controle de mais um partido na geopolítica local, ampliando o já bastante extenso arco de forças políticas e partidárias sob sua influência atualmente no Estado, da esquerda à improvável direita – como agora está provado.
Quintino na presidência estadual do PSL será Casagrande na presidência estadual do PSL. Ou algo muito próximo disso. E esse controle sobre o ex-partido de Bolsonaro será muito importante em termos de definições de estratégias e alianças eleitorais, sobretudo na disputa em Vitória, até por causa do peso do partido, que, com a segunda maior bancada da Câmara Federal, tem o segundo maior tempo de TV.

POR QUE ESSA TOMADA DO PSL-ES CONVÉM AO GRUPO DE CASAGRANDE?

A primeira consequência imediata, favorável aos interesses do Palácio Anchieta: com Quintino na presidência do PSL-ES, cai a zero a chance de o deputado estadual Capitão Assumção, opositor do governo Casagrande, ser candidato a prefeito de Vitória pelo PSL. Tanto é assim, aliás, que Assumção já foi expulso do partido. Terá que ser candidato por outra sigla.
Como segunda possível consequência, em prazo mais dilatado, a anulação de Assumção no PSL abre caminho para algo que o próprio Quintino já adiantou e que igualmente se coaduna com os interesses de Casagrande e de seu grupo político: a possibilidade de o PSL apoiar a candidatura do deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) a prefeito de Vitória.
Gandini é o candidato ungido pelo prefeito Luciano Rezende (também do Cid.). Por extensão, também terá o apoio, ainda que distante, de Casagrande. Como o próprio governador já afirmou, ele tem “compromisso em fortalecer o projeto político de Luciano em Vitória”. Não deve subir pessoalmente no palanque do afilhado de Luciano, mas vai ajudá-lo a montar uma coligação forte, transferindo para ele partidos de sua base de apoio e até outros que nem estão na base – algo, aliás, que Csagrande já está fazendo nos bastidores, conforme se pode notar.
Nesse sentido, a ajuda de Da Vitória a Quintino nessa operação “tomada do PSL-ES” também se justifica porque o deputado federal não só está no mesmo partido de Gandini como apoia a sua eleição na Capital.

CONCLUSÃO: QUEM É QUEM NESTA HISTÓRIA

Nessa engenharia de tomada do PSL-ES, Quintino foi o cabeça. Da Vitória, o braço direito. Já Gandini, e assim Luciano, são os potenciais beneficiário da operação. O que todos eles têm em comum? São aliadíssimos de Casagrande.
Mesmo que o governador não tenha participado pessoalmente dessa operação e apenas tenha acompanhado tudo a distância, fica muito difícil acreditar que o Palácio Anchieta não esteve envolvido nisso. Até porque o governador dificilmente “suja a mão de graxa”.
Para isso, precisamente para isso, ele possui emissários e intermediários. O da vez foi Josias da Vitória. Como bom soldado (ou cabo), cumprindo uma missão política, o deputado federal ajudou Quintino a tomar o controle do PSL-ES, para o bem dele, de Gandini, de Luciano, do Cidadania... e de Renato Casagrande.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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