O governador Renato Casagrande (PSB) foi alçado ao status de moderador, ou "porta-voz da moderação", entre governadores e o presidente Jair Bolsonaro. Na reunião por videoconferência realizada na manhã desta quinta-feira (21) entre o chefe da República e os chefes dos Estados, os próprios governadores escolheram Casagrande, ao lado de Reinaldo Azambuja (PSDB-MS), por serem considerados "mais neutros", informou a "Coluna do Estadão".
Casagrande fez uma fala equilibrada, bem recebida. E o próprio Bolsonaro foi com outra postura para o encontro. Ainda segundo a "Coluna do Estadão", o Planalto procurou aproveitar a primeira reunião do presidente com todos os governadores desde o início da pandemia para melhorar o diálogo institucional. E a conversa, dessa vez, realmente fluiu (aleluia!) sem as hostilidades que têm marcado as relações federativas nos últimos meses.
De fato, pragmatismo, diplomacia e moderação fazem parte do estilo político de Renato Casagrande. Quando necessário, ele sabe escolher bem as palavras para evitar criar arestas ou acirrar ainda mais os ânimos quando já há bastante tensão entre os atores sentados "em volta da mesma mesa".
Foi assim na reunião realizada em 25 de março, por videoconferência, entre Bolsonaro e governadores dos Estados das regiões Sul e Sudeste. Em sua vez de falar, selecionando com cuidado as palavras para não melindrar ainda mais o presidente, Casagrande pediu a ele que o governo federal assumisse "a responsabilidade" no combate à pandemia. Pediu, ainda, a Bolsonaro, que ele parasse de "tirar o valor da pandemia" e adotasse um discurso em consonância com o da OMS e o dos governadores, para não gerar dúvidas e incertezas na população, dificultando o trabalho e a ação dos chefes dos Estados.
Aquela reunião, porém, foi um fracasso. Bolsonaro foi para ela com sangue nos olhos. Se não fosse um encontro virtual, teria pulado no pescoço de João Doria (PSDB-SP), tamanho o grau de animosidade entre os dois.
Já a reunião desta quinta-feira teve clima bastante diferente: muito mais ameno, cordial e equilibrado. E foi muito mais frutífera.
DIPLOMÁTICO, SIM. MAS “NEUTRO” NÃO É BEM A PALAVRA...
Não obstante o estilo diplomático, Casagrande não é exatamente neutro em relação ao governo Bolsonaro. Em diversas ocasiões, antes da pandemia, criticou o estilo do presidente de fazer política e de governar: pouco afeito ao diálogo e muito dado ao conflito. Em mais de um pronunciamento público, o governador chegou a insinuar ou dizer textualmente que o presidente só afasta, em vez de agregar, e prefere o conflito ao consenso.
Durante a pandemia, as críticas de Casagrande têm se acentuado, com foco na maneira errática como o poder central tem conduzido a crise sanitária. Em diversas entrevistas coletivas, Casagrande tem cobrado, por parte do presidente da República, justamente uma postura de maior equilíbrio, ponderação e união de esforços com os chefes dos Estados.
Em várias oportunidades, o socialista já criticou a ausência de uma mensagem clara e unívoca por parte do governo federal, sintonizada com as estratégias de enfrentamento à pandemia adotadas pelos prefeitos e governadores nos Estados.
Também já criticou o fato de Bolsonaro gerar confusão entre os brasileiros, que não sabem bem em quem acreditar, já que o discurso do próprio presidente da República vai na contramão do que dizem os governadores e do que recomendam as autoridades sanitárias do mundo inteiro e do próprio Ministério da Saúde.
De igual modo, Casagrande já reclamou da falta de medidas básicas por parte do governo federal na ajuda necessária aos Estados, como uma campanha nacional de conscientização sobre a importância do isolamento social enquanto o país se encaminha para o auge da pandemia.
EM MARÇO: "NÃO TEMOS MAIS ESPERANÇA NELE. NELE, NÃO"
Em entrevista à coluna no fim de março, começo da temporada de combate à pandemia, o governador do Espírito Santo praticamente chutou o balde. Disse, com todas as letras, que Bolsonaro estava mais atrapalhando do que ajudando as demais autoridades na luta para tentar frear a propagação do vírus.
Segundo ele, os governadores estariam precisando trabalhar em dobro no trabalho de conscientização, pois, além de buscar transmitir as informações tecnicamente corretas, precisam desmentir e rebater o discurso que vem da Presidência.
Na mesma entrevista, o socialista contou que ele e os outros governadores não tinham mais a menor esperança de que o presidente pudesse liderar esse processo, já que o próprio Bolsonaro, na sua avaliação, não demonstra o menor interesse em ser esse líder. "Ele não quer fazer isso".
Assim, por conta própria e com apoio dos presidentes do Senado e da Câmara, os governadores trataram de se organizar em um fórum paralelo (praticamente ignorando o presidente), a fim de buscar ajuda diretamente com setores do governo federal.
Por outro lado, diferentemente de outros governadores (como Wilson Witzel, do Rio, e o já citado Doria), Casagrande não parece disposto a queimar a ponte com o Planalto. Em abril, 16 deputados federais do seu partido, o PSB, protocolaram pedido de impeachment contra Bolsonaro na Câmara. Do governador capixaba, não se ouviu uma palavra de apoio a isso.