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Tem que rever seus conceitos

Bolsonaro perdeu feio nas urnas e precisa entender o recado do povo

Brasil deu um recado sonoro nas urnas: não aguenta mais tanta tensão, tanta gritaria política, tanto radicalismo vazio, tanto descontrole e desorganização. País deu claríssima guinada de volta ao centro moderado

Publicado em 05 de Dezembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

05 dez 2020 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

O recado das urnas para Jair Bolsonaro
O recado das urnas para Jair Bolsonaro Crédito: Amarildo
Os resultados gerais das eleições municipais de novembro no Brasil inteiro constituem sonora evidência: o país nunca foi essencialmente de “direita”, muito menos "bolsonarista", nem mesmo “conservador” (não no sentido que bolsonaristas emprestaram ao termo, como sinônimo de alinhamento total às ideias do presidente) só porque optou por dar uma chance a Jair Bolsonaro no Planalto em 2018. De igual modo, o Brasil e os brasileiros nunca foram essencialmente “de esquerda”, ou “petistas”, só porque elegeram os candidatos do PT em quatro eleições presidenciais consecutivas, de 2002 a 2014.
O que saiu das urnas nos dias 15 e 29 de novembro foi sem sombra de dúvida uma derrota esmagadora para o PT. Mas o fracasso eleitoral do partido de Lula não significa, de forma alguma, o triunfo do bolsonarismo. Muito pelo contrário. O recado dos brasileiros nas urnas representou, antes de tudo, uma derrota pessoal acachapante para Jair Bolsonaro, que, dois anos após ter sido eleito, sai desse processo enfraquecido politicamente. Ainda que venha a morrer negando esse fato matemático, foi ele o maior derrotado nestas eleições municipais.
Para o presidente, o revés é ainda maior do que o foi para o PT porque, afinal, é ele quem está no poder central e, teoricamente, está (ou estava) no auge de sua trajetória política, enquanto o PT já não governa o país desde 2016 e já vem em acelerado declínio desde 2014. Se a eleição municipal foi desastrosa para o Partido dos Trabalhadores, foi ainda pior para Bolsonaro e para o bolsonarismo.
O Brasil (enfim) disse um enfático “não” aos extremos e a essa polarização ideológica que faz muito barulho, mas não resolve nada. E elegeu, majoritariamente, candidatos moderados, de centro. Alguns mais para a direita, outros mais para a esquerda, mas radicais e aventureiros foram varridos em todas as maiores cidades.
Candidatos bolsonaristas, como Crivella (Republicanos) no Rio e Russomanno (Republicanos) em São Paulo, sofreram derrotas humilhantes. Muitos dos candidatos manifestamente “fechados com Bolsonaro” não chegaram a dois dígitos dos votos válidos, como Capitão Assumção (Patriota) em Vitória. Outros claramente identificados com Bolsonaro passaram a renegar e esconder o apoio do presidente na reta final da campanha para não perder votos, como o Capitão Wagner (PROS) em Fortaleza, que mesmo assim perdeu para um pedetista. O resultado também foi um fiasco para candidatos a prefeito com origem militar.
E o petismo, que já havia perdido muito terreno político, agora se atrofia ainda mais.
Enfim, em termos políticos, o novo normal é o velho normal. Felizmente. Normalidade, paz política, serenidade e moderação é exatamente o que este país precisa para sair do buraco sem fundo em que se meteu. Na minha opinião, o atual presidente da República não ajuda em nada nesse sentido, ao contrário, pois foi forjado politicamente na guerra, no confronto, na polêmica vã, tola, gratuita...
Antes e depois de chegar à Presidência, o Jair sempre se alimentou do conflito inútil e paralisante, em vez de buscar diálogos construtivos e consensos muito mais produtivos. Isso estava claro desde sempre. Um governo cujo líder só faz brigar com tudo e com todos (inclusive com os fatos) não tinha e nunca teve a menor chance de dar certo. Foi uma tentativa válida, mas, objetivamente, está fracassando.
Seu governo é ruim em algumas áreas vitais, como na articulação política. Em outras é por demais confuso, como na Saúde e na Economia. Já em outras é simplesmente catastrófico, como nas Relações Exteriores, na Cultura, no Meio Ambiente e, principalmente, na gestão do MEC.
Acima de tudo, é um governo que só semeia guerra (e, literalmente, planta "pólvora"), quando o brasileiro médio, que não vive nas bolhas dos extremos, não aguenta mais esse clima de permanente tensão e anseia por paz política, por menos bravatas, menos agressões verbais, menos ataques nas redes sociais, menos mimimi e mais resultados concretos.
Alheio e indiferente às querelas ideológicas, o eleitor brasileiro médio é pragmático: vota no que acredita que será melhor para si em cada momento. Não existe amor incondicional por um candidato nem apego total a determinada ideologia. O que há são fases, ciclos políticos, ondas… Algumas mais passageiras que outras.
Essa eleição de 2020, aliás, deixa ainda mais evidente que a eleição presidencial de 2018 foi um ponto fora da curva.

O QUE OCORREU EM 2018

A vitória eleitoral do deputado medíocre do baixo clero, militar insubordinado, capitão de curta e conturbada passagem pelo Exército brasileiro, não se deu por amor ou adoração da maioria dos eleitores a Bolsonaro, tampouco por aderência da maioria à sua ideologia radical e obscurantista, um combo onde se mesclam preconceitos, autoritarismo, apologia da violência e ódio cultivado contra adversários (sejam eles reais ou imaginários). Não.
Foi, isto sim, o resultado da convergência nas urnas de um profundo sentimento de rejeição ao PT e ao petismo, que então se encontrava no ápice e que encontrou em Bolsonaro a sua melhor válvula de escape. Em 2018, um mais que justificado antipetismo (que até hoje perdura) escoou para o deputado, que soube apresentar-se como a mais acabada personificação de tal sentimento e que conseguiu vender-se como “novo” apesar de seus sete mandatos seguidos e quase 30 anos de atuação limitada e pouquíssimo produtiva na Câmara Federal.
A materialização desse sentimento se deu na vitória de Bolsonaro. Mas foi uma eleição regida mais pelo medo e pelo ódio nutrido pelo outro do que propriamente por apoio real do eleitor ao seu próprio candidato. Ou seja, grande parte dos que votaram em Bolsonaro não votaram nele por gostar dele, mas por pura rejeição ao candidato do PT (e vice-versa).
Isso sem contar uma "combinação perfeita" de elementos que favoreceram sobremaneira o então deputado e que dificilmente se repetirão numa mesma eleição presidencial: o atentado de que ele foi vítima em Juiz de Fora, os ecos vivos da Lava Jato, o apogeu do discurso anticorrupção, a crise na segurança pública (com o revalorização de um discurso “linha dura” e a “remitificação” das Forças Armadas), a recessão econômica legada pelo governo Dilma, o uso em escala industrial das fake news diante de um atordoado TSE, disparos ilegais via Whastapp etc.
E, naturalmente, a já citada e justificada revolta com o PT e seus esquemas de corrupção para atender a seu projeto de perpetuação no poder. O eleitor deu um basta. Mas o basta que hoje é dado para um pode ser dado para o outro amanhã. O eleitor médio, como eu disse, não tem “voto de fidelidade” a governantes por paixões ideológicas. A urna pune a escassez de resultados.
E é isso que, pelo que observo, não entenderam ainda Bolsonaro e seus apoiadores mais fervorosos. 2018 foi quase uma miragem, e seu autêntico apoio popular é, na verdade, muito menor do que ele julgava ser. As eleições municipais provaram isso.
Agora, após os resultados desse pleito, o Brasil enfim começa a despertar daquela febre, ou delírio tropical, que tomou conta do país em 2018. Em conclusão: ou o governo Bolsonaro enfim começa a dar respostas práticas aos problemas reais do país (e são muitos, agravados pela pandemia), ou o bolsonarismo está fadado a um fim melancólico. O alerta foi dado em novembro.
Caso contrário, a partir de 2021, a inépcia crônica do governo em várias áreas estratégicas, somada à doentia compulsão à violência e à pulsão de morte do próprio presidente, levará o prestígio que lhe resta a ir se desgastando com o tempo. Sobrarão aqueles 15%, 20%, que são os mesmos que já estavam com ele lá em 2016 ou antes disso e que seguirão com ele até o fim, faça ele o que fizer e diga ele o que disser na Presidência.
Há tempo. Mas é preciso saber ouvir e interpretar o recado do povo nas urnas, a melhor caixa de ressonância da voz dos cidadãos brasileiros.
E mudar, enquanto ainda é possível.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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